Os relatórios mais recentes sobre a economia mundial, como o da agência de risco Fitch, trouxeram uma notícia muito aguardada. A China, motor da economia global nas últimas duas décadas, está voltando a acelerar. Os dados atestaram a possibilidade real da meta para o PIB deste ano no país chegar a 5%, como foi anunciada pelo governo central. A produção foi derrubada nos últimos anos pelos confinamentos obrigatórios da política de Covid Zero, pelo desaquecimento do mercado imobiliário, pelas restrições impostas às bigtechs e pelo aumento do preço do petróleo em meio à guerra na Ucrânia. Entre 1992 e 2022, a média anual de expansão chegou a 8,8%. Em 2020 e 2022, esses números ficaram em 2,2% e 3%, respectivamente, os piores resultados desde 1976. Somente depois de o governo central decidir pelo fim do lockdown, em janeiro passado, o país ganhou fôlego para a retomada econômica, que deve se voltar menos para investimentos governamentais e exportações e mais para o mercado interno, visando ao aumento de renda e de poder de compra doméstico.

A retomada chinesa anima o mundo e pode beneficiar o Brasil
Pang Xinglei

A meta de 5% foi classificada de “moderada” pelos dirigentes chineses no domingo, 5, na abertura das Duas Sessões, que anualmente reúnem 3 mil representantes do país e desta vez irão até o dia 13. Mas foi o suficiente para animar os analistas. Para se ter ideia do impacto na economia global dessa índice, dados do FMI atestam que 1% na taxa de crescimento da China resvala para aumento em torno de 0,3% em outros países. Mesmo sendo um dos piores desempenhos em meio século, os 3% de 2021 da China ainda estiveram acima dos 2,1% dos EUA, como observa Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP. “Não podemos ignorar que o modelo de crescimento econômico chinês é o mais bem-sucedido do século XXI”, afirma. “Mas eles precisarão ir além do manual que lhes é familiar, como os investimentos do governo em infraestrutura e as exportações. Devem passar a abordar problemas internos, como o lento crescimento de renda e subconsumo.”

De toda forma, o boom que se via nos anos 1990, girando em 10%, não deve se repetir a médio prazo, na opinião de Moises de Souza, especialista em Estudos da Ásia-Pacífico da Universidade Central de Lancashire, no Reino Unido. “Entre o teto e o mínimo, o PIB chinês vai acabar estacionando em uma média de crescimento sustentável que pode ficar em torno desses 5%, projetados principalmente pelo setor de serviços reativado com a abertura de fronteiras.” Para ele, a China já vem incentivando o consumo no mercado interno, inclusive de bens sofisticados, por faixas ampliadas da população, o que dará sustentação ao crescimento do país. “Nessa transição de sua economia, a China procura ter mais autonomia em relação a crises globais.”A retomada chinesa anima o mundo e pode beneficiar o Brasil

Mão dupla

Professor de Relações Internacionais da UnB, Roberto Goulart Menezes destaca a importância da viagem do presidente Lula à China, que prevê PIB de 5% mesmo com o mundo em guerra, com alimentos e energia caros — “um crescimento alto, comparado à média do G7”. Para ele, esse índice impacta globalmente porque significa mais compras por parte dos chineses em vários países, mas no caso do governo brasileiro as conversas deverão girar em torno de uma “mão dupla”.

Além da matéria-prima importada pelos chineses — que precisaria ser estendida a mercadorias com alto valor agregado —, Lula deverá tratar de investimentos no setor produtivo (e não apenas instalado, como energia), em apoio à reindustrialização. “Ele não abordará Xi Jinping como ‘caixeiro viajante’, oferecendo privatizações. A China só tem US$ 22,5 bilhões em estoque de investimentos diretos aqui. É um sexto dos EUA, com US$ 124 bilhões”, diz o professor. “Lula pode até conseguir bom ativo político se acertar com os chineses os R$ 3 bilhões da BYD para produção de ônibus elétricos na antiga fábrica da Ford de Camaçari, na Bahia.”

Enquanto isso, Xi Jinping pode até acusar os EUA de liderar campanha de “contenção e supressão” da China. Mas, segundo Moises de Souza, ao mesmo tempo em que os dois países mantêm competição e rivalidade geopolítica, terão de trabalhar juntos em questões comuns, como pirataria, terrorismo e mudanças climáticas. “O mundo não tem como ajustar tudo isso sem a participação chinesa e americana.”