Resinas da Ásia, óleo de cedro do Líbano e betume do Mar Morto foram os ingredientes usados pelos antigos egípcios para tratar as múmias, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira (1º), que, além disso, revela que essas fórmulas influenciaram o comércio no Mediterrâneo e inclusive na Ásia.
“Conhecemos o nome dos produtos de embalsamar desde que foram decifrados os antigos escritos egípcios”, explicou a egiptóloga Susanne Beck, em um comunicado da Universidade de Tübingen, na Alemanha. “No entanto, até agora, não tínhamos conseguido adivinhar as substâncias por trás desses nomes”, explicou.
As escavações realizadas com seu colega Ramadan Hussein, já falecido, na necrópole de Saqqara, ao sul do Cairo, encontraram uma coleção excepcional de cerâmicas utilizadas nas câmaras funerárias.
Em Saqqara, esta câmara funerária chamada de “wabet” está no fundo de um poço de 13 metros de profundidade.
Depois que o corpo da múmia era eviscerado e seu cérebro extraído, os embalsamadores, acompanhados de sacerdotes especializados, o lavavam e preparavam para evitar sua decomposição, que – segundo as suas crenças – impedia a vida posterior.
Após um tratamento que poderia levar até 70 dias, algumas múmias eram colocadas em um segundo poço, de 30 metros de profundidade, para iniciar sua viagem ao além.
Uma equipe de pesquisadores das universidades de Tübingen e Munique, ajudada pelo Centro Nacional de Pesquisa do Cairo, analisou os resíduos em 31 recipientes do “wabet”, que datam da 26ª dinastia, há mais de 2.500 anos.
Depois, os comparou com os recipientes encontrados nas tumbas adjacentes.
A descoberta é excepcional, pois as inscrições nos frascos incluem instruções de uso.
“Para lavar”, uma mistura de óleos de coníferas. Para um “odor agradável”, gordura de ruminante e resina de arbusto. Outra inscrição dedicada ao “tratamento da cabeça”, inclui pelo menos três preparações.
As análises, realizadas por Maxime Rageot, arqueólogo da Universidade de Tübingen e principal autor do estudo publicado na Nature, revelaram “a utilização de substâncias que têm todas as propriedades biológicas úteis para a preservação de tecidos humanos e a redução de maus odores”, explicou ele em entrevista à imprensa.
– ‘Motor da globalização’ –
Essas análises mudam as crenças sobre certas substâncias, pois, durante muito tempo, os egiptólogos apenas tinham acesso a antigas fontes escritas e à análise de múmias.
O que os antigos egípcios chamavam de “antiu”, que durante muito tempo acreditava-se que era mirra, na realidade é uma mistura de óleo de cedro, cipreste e gordura animal.
A prática de embalsamamento remonta à pré-história e se tornou mais complexa cerca de mil anos antes da nossa era. Os antigos egípcios “acumularam um enorme conhecimento” sobre a preservação do corpo, detalhou Philipp Stockhammer, professor de arqueologia no Instituto Max Planck de antropologia, com sede na Alemanha.
Segundo ele, os egípcios tinham um conhecimento profundo dos produtos e suas associações. Por exemplo, uma vez que o corpo era secado com sais de natrão, conseguiam impedir a colonização de micróbios que devorariam a pele.
Uma das grandes surpresas dos pesquisadores foi identificar resinas provenientes de florestas tropicais do Sudeste Asiático e, talvez, também da África. Entre as fórmulas também há resina de pistache e azeite de oliva do arco do Mediterrâneo, o que mostra que “o embalsamamento foi um motor da globalização”, disse Stockhammer.
A diversidade das substâncias identificadas em Saqqara mostra que os embalsamadores “estavam muito interessados na experimentação e na obtenção de outros óleos e resinas”, afirmou.
Eles se aproveitaram de uma rota comercial com a Ásia e o Sudeste Asiático que já existia mil anos antes de nossa era e que unia o que atualmente é a Indonésia com o Egito, passando pela Índia, o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho.