Cultura

Resgate de composições populares de Mignone


Neste sábado, 1º, é possível passar uma tarde de descobertas musicais na Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. É que estará presente a pianista Maria Josephina Mignone, 96 anos, viúva do compositor paulistano Francisco Mignone (1897-1986). Ela faz o primeiro de dois lançamentos que modificam a imagem que temos de Mignone e nos ajudam a compreender melhor a sua cartilha criativa. Hoje é a vez de um álbum de partituras. É uma rara chance de conversar e conhecer melhor a pianista que vem fazendo um trabalho notável de resgate de partituras e grava CDs com criações de Mignone.

Não se trata de alguma obra inédita do compositor, mas de uma penca de cançonetas compostas na juventude – entre foxtrotes, cateretês, canções caipiras ao estilo de Inezita Barroso, maxixes, canções de ninar – que ele jamais assinou oficialmente. Mignone usou um pseudônimo – Chico Bororó – para assiná-las. Naquela época, erudito não se misturava. Aliás, seus parceiros letristas também usaram pseudônimos, como Fernando Álvares Lobo (que usou dois: Marcello Tupinambá e X.Y.Z) e Décio Abramo, que virou Duque de Abramonte.

Mas não foi um segredo tão bem guardado. Sabia-se que ele era chegado na boemia no Brás, onde nasceu: “Os rapazes reuniam-se e faziam serenatas. Eu tocava um pouco de violão e flauta e íamos nas esquinas tocando às pretendidas namoradas, escondidas namoradas, ou sonhadas namoradas”, confessou em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio.

Josephina, a Jô, conta: “Ele me dizia que a sua música era a da sua juventude, ou seja, as que fizera com o pseudônimo”. A partir de 1928, seu pai Alfério Mignone gravou várias dessas cançonetas à frente da Orquestra Paulistana. E até Francisco Alves, o Rei da Voz, fez sucesso ao gravar Sertaneja e Mandinga Doce, entre outras. Há poesia e fina escrita musical nessas criações tão populares, com pitadas do humor e sensualidade.

O álbum de partituras para voz e piano de 11 canções foi editado por Bruno D’Abruzzo, da Tipografia Musical. E o álbum duplo com 16 peças de Bororó para piano solo e as 11 canções, que será lançado em São Paulo em julho, foi gravado na sala de estar de Josephina, em Copacabana, transformada em estúdio por sua filha Anete Rubin Mignone. Lá a soprano Neti Szpilman cantou acompanhada pelo piano competente de Jô. Ótima, Neti às vezes transformou-se em autêntica cantora caipira, como a partitura de Bororó-Mignone aliás exige.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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