República da Tubaína

Crédito: Reprodução/CNN

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Se o processo de acomodação de forças e interesses que está em curso em Brasília se consolidar até o final de 2020, como parece ser o caso, os dois próximos anos do governo Bolsonaro poderão ter feições mais estáveis, talvez a ponto de merecerem nome próprio. Sugiro República da Tubaína. 

O brasão da República da Tubaína mostrará os chefes dos três poderes em torno de uma pizza e um copo de refrigerante. Tudo a ver com a festança do fim de semana na casa do ministro Dias Toffoli, do STF, à qual compareceram o presidente Jair Bolsonaro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e outros mandarins.

Interpretemos o símbolo. É óbvio que ele fala, antes de mais nada, de pacificação. Bolsonaro abandona as pretensões golpistas, escancaradas no começo deste ano, enquanto o Congresso e o Judiciário suspendem as iniciativas que poderiam levar a um impeachment, tais como a CPI e o inquérito das fake news. Nem todos os fatores de risco foram eliminados – ainda existe, por exemplo, a investigação sobre a rachadinha no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro -, mas a pizza está ali para representar a Boa Vontade e a Esperança. 

Convivialidade é a palavra que captura a atmosfera humana da República da Tubaína. O Bolsonaro que se candidatou à presidência não era propriamente um outsider. Com 27 anos de atividade política no currículo, já conhecia a fundo a lógica brasiliense, tendo circulado por diversos partidos, e havia inclusive transmitido aos filhos importantes lições de manejo das verbas e nomeações parlamentares. 

Ele era alvo, no entanto, de certo desdém das altas cúpulas, pelas opiniões extremadas e comportamento agressivo. Suas atitudes no começo do governo expressavam o ressentimento de quem jamais foi levado a sério. Agora, pela primeira vez, Bolsonaro parece sentir que a convivência é possível e que o estigma do baixo clero pode ficar para trás. Como disse Dias Toffoli no fim de semana, Bolsonaro foi à sua casa porque lá “ele se sente bem”. 

É possível especular sobre as realizações políticas da República da Tubaína. Seus feitos inaugurais devem ser a aprovação da PEC Emergencial e da Reforma Administrativa, que trarão novas ferramentas de controle do dinheiro público. Com isso, pode haver clima e segurança jurídica para a criação do programa Renda Cidadã, que é um Bolsa Família incrementado para os vulneráveis e um Bolsa Reeleição para Bolsonaro. 

Em áreas sensíveis como Educação e Meio Ambiente, provavelmente vão ter seguimento, talvez de forma um pouco mitigada, as estratégias de paralisação e desmonte de estruturas adotadas até agora. Com a benção dos três poderes, as expectativas iniciais para a área de Segurança devem ser completamente revertidas: o garantismo deve recobrar influência, no lugar do direito penal “americanizado” que Sérgio Moro e a Lava Jato procuraram implantar no Brasil. Em termos práticos, isso deve impossibilitar o surgimento de uma nova Lava Jato –  mas ainda não é claro em qual grau as provas e mesmo condenações da operação poderão ser invalidadas.  

Abraham Weintraub, aquele que durante algum tempo desempenhou o papel de anti-ministro da Educação, publicou neste fim de semana um tuíte curioso sobre a ascensão da República da Tubaína. 

Escreveu Weintraub: “Muitos na Paulista, eu incluso, queriam explodir o Mecanismo. Entendo a frustração. O Presidente optou por convencer parte do Mecanismo a parar de atrapalhar e, mais adiante, gradualmente, desmontar essa estrutura do mal. Pessoas erram e acertam. Torço para que ele esteja certo.”

A primeira parte do tuíte é reveladora. Os bolsonaristas raíz queriam mesmo mandar tudo para os ares. A intenção não era fazer mudanças dentro da democracia, mas passar por cima da democracia para fazer mudanças. 

A segunda parte do tuíte é puro auto-engano. Ao contrário do que diz Weintraub, Bolsonaro não convenceu ninguém a “parar de atrapalhar”. Foi o contrário. Bolsonaro foi convencido a parar de brincar com fogo, antes que sofresse impeachment e tivesse um filho encarcerado. 

A terceira parte é preocupante. Weintraub sugere que as piores intenções do bolsonarismo só estão adormecidas. De fato, legitimado por uma reeleição, por que o presidente não tentaria levar a cabo os projetos que teve de abandonar no primeiro mandato? 

A República da Tubaína vale só para os próximos dois anos. 

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