Internacional

Repressão na Catalunha

A crise provocada pela supressão da liberdade de expressão, através da Lei da Mordaça, e pela prisão do rapper Pablo Hasél foi o estopim para o surgimento de uma nova onda de manifestações pró-independência em Barcelona

Crédito: Nacho Doce

REVOLTA Jovens catalães reagem com violência à prisão de rapper: fim do diálogo (Crédito: Nacho Doce)


MULTIDÃO Mais de seis mil pessoas marcham nas ruas de Barcelona: pressão independentista (Crédito:Felipe Dana)

O rap é uma música perturbadora: “Ei, tirano, não é só para teu pai/ Deixe o choro republicano, seu tímpano perfurar/ Os oprimidos eu amo, odeio o reinado opressor/ Que tua família coma da lata de lixo.” Essa pequena rima dirigida à família real espanhola foi o bastante para tirar a liberdade do rapper catalão Pablo Hasél, de 32 anos, e causar uma verdadeira comoção na Catalunha, província espanhola que conta com um forte movimento independentista. A detenção da Hasél ocorreu na terça-feira 16, dentro da Universidade de Lérida, cidade onde vive. Para tentar atrasar a prisão, o rapper e um pequeno grupo de apoiadores se instalaram no prédio, mas não adiantou. A liberdade de expressão foi suprimida. A polícia invadiu o local e o arrancou à força. Mesmo algemado, ele não titubeou e gritou: “Nunca nos calarão. Morte ao Estado fascista!”.

MONARQUIA O rei emérito Juan Carlos I é o alvo preferencial dos rappers: tirano (Crédito:JOHAN ORDONEZ)

Suas letras, críticas à Coroa espanhola, se encaixaram na denominada Lei da Mordaça, medida autoritária aprovada em 2015 no governo de Mariano Rajoy, com a intenção de punir com altas multas e mesmo prender pessoas por qualquer tipo de manifestação contra a monarquia. A lei tem servido também para expulsar imigrantes com documentação irregular e criminalizar jornalistas que gravarem as ações da polícia, geralmente agressivas. Hasél divulgou um vídeo no YouTube para mostrar sua poesia e atrair mais apoiadores. Mesmo com a pandemia, em Barcelona, maior cidade da Catalunha, os protestos de rua após sua prisão reuniram mais de seis mil pessoas. Além das músicas, sua militância também se dá nas redes sociais, onde é seguido por mais de 54 mil pessoas, com mensagens ácidas contra diversos políticos e a família real. A Lei da Mordaça amparou a prisão. A Justiça considera que as letras do rapper fazem apologia ao terrorismo, algo punido com rigor na Espanha.

ATITUDE Hasél tem fustigado o governo espanhol: ameaça à ordem pública e prisão (Crédito:Divulgação)

As ruas fervem

Não poder se manifestar diante do que acredita serem abusos do poder constituído contra a sociedade já faz parte da trajetória de Hasél. Desde 2015 suas ações nas redes sociais são monitoradas com atenção pela polícia. Em março de 2016, após postar no Twitter uma fotografia de um membro do Grupo de Resistência Antifascista Primeiro de Outubro, do qual faz parte, e o seguinte texto: “As manifestações são necessárias, mas não o suficiente, apoiamos aqueles que foram mais longe”, ele acabou preso com base na mesma lei. A Justiça considerou suas postagens uma ameaça terrorista. Em 2018, o rapper foi preso novamente, condenado há nove meses por publicar 64 mensagens “ofensivas”. O cantor escolheu como principal alvo o rei emérito da Espanha, Juan Carlos I, o qual denomina como mafioso e tirano. O monarca ocupou o trono por 40 anos, após a morte do ditador Francisco Franco. Juan Carlos I deixou o país sob acusação de lesar os cofres públicos.

“A prisão de Hasél representa uma agressão à liberdade de expressão” Luiz Peres Neto, professor da ESPM

O movimento de independência se fortaleceu na Catalunha nos últimos anos. Em outubro de 2019, Barcelona foi palco de uma marcha de protesto com 350 mil pessoas nas ruas. Para Luiz Peres Neto, professor da ESPM, especialista em ética e comunicação e professor na Universidade de Girona, a onda de protestos deve pressionar o governo a revogar a Lei da Mordaça. “A prisão de Hasél representa uma agressão a liberdade de expressão”, diz. “A Espanha se tornou o país que mais prende artistas na Europa”. Na semana passada, algumas pessoas destruíram fachadas de lojas e confrontaram os policiais atirando pedras e outros objetos. A resposta foi repressão violenta. Mais de 50 pessoas foram presas e uma jovem de 19 anos perdeu a visão de um dos olhos após ser atingida por uma bala de borracha. Em Valência, uma multidão foi posta para correr pela polícia. Em toda a Espanha, são seis noites de protestos contínuos.

Pessoas mais jovens como o rapper Pablo Hasél não pegaram o momento de transição entre a ditadura franquista e a monarquia constitucional. Por isso, há uma posição fortemente anti-establishment entre os artistas. Além disso, a Europa passa por um momento de ascensão da extrema-direita. No momento quem governa o país é Pedro Sánches, político de centro-esquerda, mas o partido Vox, de extrema-direita, se tornou a terceira força eleitoral na Espanha. Hasél se afirma como antifascista e divulgou um vídeo no qual é possível notar num protesto de rua, uma pessoa se exibindo com uma bandeira da Espanha, mas no detalhe, há uma suástica pichada na flâmula. Por mais polêmicas que as canções de Pablo Hasél possam causar, pois navegam no limiar da Lei da Mordaça, fica clara a perseguição da polícia. Tanto assim que mais de 200 artistas, entre eles, o cineasta Pedro Almodóvar e o ator Javier Bardem, assinaram um documento que exige a libertação imediata do rapper. Há, certamente, um excesso do governo espanhol na sua prisão.


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