Entenda por que relógios raros estão dominando o novo luxo

Especialista no segmento, Renan Bastos analisa como a escassez, a figura do criador e a demanda institucional transformaram a F.P. Journe em referência no mercado secundário

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A F.P. Journe fundada em 1999 por François-Paul Journe, manteve desde sua origem um modelo de produção extremamente restrito, com cerca de 900 peças anuais Foto: Divulgação

A ascensão da F.P. Journe nos últimos anos ajuda a explicar uma transformação mais ampla no universo do luxo: a valorização crescente de peças raras e altamente exclusivas. Mais do que a qualidade técnica de seus relógios, o que se observa é um movimento mais profundo, no qual manufaturas independentes passam a ocupar um espaço semelhante ao de ativos alternativos, com dinâmica própria de desejo, valorização e comportamento.

A marca, fundada em 1999 por François-Paul Journe, manteve desde sua origem um modelo de produção extremamente restrito, com cerca de 900 peças anuais. Esse volume, por si só, já estabelece um nível de escassez que a diferencia das grandes casas relojoeiras. No entanto, dentro do novo luxo, essa limitação deixa de ser um obstáculo e passa a ser um dos principais motores de desejo.

Nos últimos anos, o investidor Kevin O’Leary passou a desempenhar um papel relevante na ampliação da visibilidade da marca. Conhecido pelo programa Shark Tank, ele transformou sua própria coleção em argumento público, defendendo a tese de que relógios da F.P. Journe devem ser interpretados como ativos descorrelacionados de mercados tradicionais — uma visão que dialoga diretamente com a nova forma de consumir luxo.

Essa leitura ganhou força à medida que dados de mercado passaram a confirmar a valorização consistente das peças. Entre 2019 e 2023, o índice da marca registrou alta superior a 150%, superando nomes tradicionais como Patek Philippe e Audemars Piguet. Modelos como Chronomètre Bleu e Tourbillon Souverain tiveram crescimento ainda mais expressivo, com múltiplos superiores a 200% no período.

Para Renan Bastos, especialista no segmento, o fenômeno não está ligado apenas à performance histórica, mas à estrutura do próprio mercado.

“A valorização não acontece por acaso. Ela é consequência direta de três fatores: escassez real, barreira técnica e impossibilidade de replicação. Quando esses elementos estão presentes ao mesmo tempo, o mercado tende a tratar o ativo de forma diferente.”

Diferentemente de marcas com produção industrial, a F.P. Journe opera em uma lógica quase artesanal, com desenvolvimento interno de movimentos e controle rigoroso sobre cada peça produzida. Essa característica cria uma barreira estrutural que impede expansão acelerada, mantendo a oferta restrita mesmo diante do aumento de demanda — um dos pilares que sustentam o novo luxo.

Outro ponto relevante é o perfil do comprador. O acesso inicial já é limitado por preços que partem de cerca de US$ 35.000 para modelos mais simples, podendo ultrapassar US$ 200.000 em versões mais complexas. Esse filtro natural reforça o caráter exclusivo das peças, reduz a volatilidade típica de mercados mais amplos e contribui para a estabilidade relativa observada mesmo em períodos de correção.

Na avaliação de Renan da Rocha Gomes Bastos, há também um componente simbólico que diferencia a marca dentro do setor.

“Quando o criador ainda está ativo e diretamente envolvido na produção, o mercado começa a enxergar valor não apenas no produto, mas na assinatura. Isso aproxima o relógio de uma obra, não apenas de um bem de consumo.”

Essa percepção se intensifica diante de um fator recorrente nas discussões entre colecionadores: a limitação temporal da produção. Com François-Paul Journe ainda atuante, cada peça carrega uma conexão direta com o criador, algo que se tornou central na lógica do novo luxo.

O mercado secundário reflete essa dinâmica. Modelos que custam cerca de US$ 35.000 na boutique frequentemente são negociados por valores entre US$ 90.000 e US$ 100.000 em plataformas especializadas, indicando um descolamento significativo entre preço de varejo e preço de mercado — um comportamento típico de itens raros e altamente desejados.

Ainda assim, há debate sobre a sustentabilidade desse movimento. Analistas apontam que ativos com valorização acelerada podem sofrer correções em cenários de retração global. No entanto, o comportamento recente sugere uma resiliência maior do que a observada em outros segmentos da relojoaria.

Durante ajustes no mercado secundário, peças da F.P. Journe apresentaram quedas mais moderadas e recuperação mais rápida, indicando um nível de demanda mais consistente e menos dependente de movimentos especulativos de curto prazo.

Renan Bastos é especialista no segmento de relógios

Para Renan Bastos, esse comportamento reforça uma mudança estrutural na forma como o setor é interpretado.

“O mercado começa a separar o que é produto do que é ativo. Nem todo relógio de luxo se comporta da mesma forma. Alguns seguem tendência de consumo. Outros passam a operar dentro de uma lógica de escassez, liquidez e preservação de valor.”

Nesse contexto, a F.P. Journe deixa de ser apenas uma marca relevante dentro da alta relojoaria e passa a representar um dos principais exemplos de uma nova fase do luxo — onde raridade, autoria e demanda global convergem para criar objetos de desejo que vão além do consumo tradicional.

A consolidação desse modelo indica que o mercado de relógios de luxo continua evoluindo, com novos critérios de valor e novas referências de desejo. E, dentro desse cenário, peças raras e com características únicas tendem a ocupar um espaço cada vez mais central na definição do que é, de fato, o novo luxo.