Comportamento

Relíquias da escravidão

Um trabalho arqueológico em São Paulo e um achado inesperado em Minas Gerais mostram que ainda há muito a conhecer sobre uma parte esquecida da história

Crédito: Divulgação

DESCOBERTA A arqueóloga Sonia Cunha trabalha nas escavações na área onde ficava o Cemitério dos Aflitos (Crédito: Divulgação)

A beleza arquitetônica do bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, que se tornou um reduto de imigrantes japoneses, esconde parte de um passado sombrio do final dos séculos 18 e 19, relacionado aos horrores da escravidão. Era ali que ficava o Cemitério dos Aflitos, também chamado Cemitério dos Enforcados, destinado para negros escravizados e pessoas desvalidas. Escavações arqueológicas realizadas nessa localidade trouxeram à tona espaços esquecidos e relíquias perdidas. O trabalho foi realizado entre outubro de 2018 e dezembro de 2019, num terreno particular atrás da Capela Nossa Senhora dos Aflitos, de 1774.

O material arqueológico encontrado inclui nove esqueletos incompletos, que vão passar por análises laboratoriais, dois botões, um de metal e outro de osso, e algo semelhante a um colar, com duas contas de vidro que remetem a religiões de matriz africana. “Os sucessivos sepultamentos deterioraram os esqueletos”, diz Sonia Cunha, da empresa A Lasca, responsável pela consultoria arqueológica. Onde é hoje a Praça da Liberdade ficava o Largo da Forca, local de tortura e morte. No atual Largo Sete de Setembro ficava o Largo do Pelourinho, onde eram expostos escravos e criminosos. A Câmara Municipal paulistana discute um projeto de lei que prevê a criação de um memorial na área onde foram realizadas as escavações.

Ouro Preto

Na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, foi encontrada uma bandeira da histórica festa de reinado forjada a ferro há mais de 200 anos. A peça foi construída por africanos da região do Benin, Gana ou Burkina Faso, escravizados por aqui, que na época dominavam essa técnica de trabalho metalúrgico. A relíquia não tem nenhuma marca de solda e os pigmentos têm origem mineral e vegetal. O restauro já foi concluído e a bandeira será entregue à comunidade nesse final de semana, quando começam os festejos. “Este material é prova de que a celebração do reinado surgiu no período colonial”, afirma Zaqueu Astoni Moreira, Secretário de Cultura de Ouro Preto.

TRADIÇÃO Bandeira com mais de 200 anos feita por escravos prova que festa do reinado começou no período colonial