Os antidepressivos são parte do tratamento de quadros moderados e graves de depressão e ansiedade. Esses medicamentos são responsáveis por ajudar o cérebro a reestabelecer seu equilíbrio físico-químico, mas há também uma série de preocupações relacionadas ao uso prolongado, especialmente pelas incertezas sobre as formas mais seguras de tirar a medicação sem voltar a encarar a doença.
Em busca de encontrar fatores comuns que pudessem orientar sobre as melhores práticas para fazer esse “desmame”, pesquisadores da França e da Itália avaliaram estratégias adotadas nos mais recentes estudos sobre o tema. Eles descobriram que interrupções pensadas para o longo prazo, acompanhadas de terapia, são tão eficazes para manter pacientes fora dos quadros depressivos quanto a administração contínua de remédios.
Publicada na edição de janeiro da revista The Lancet Psychiatry, a pesquisa é fruto da revisão sistemática de 76 estudos, que envolveram a participação de aproximadamente 17 mil pessoas. O trabalhou comparou três estratégias: a redução gradual do tratamento até a suspensão durante menos de quatro semanas (retirada abrupta), ao longo de um período maior que esse (retirada gradual) e a redução da dose permanente, sem perspectiva de retirada. Em todos os casos, avaliou-se a incidência de retorno de quadros depressivos de acordo com cada modelo.
“A conclusão principal é que na depressão em remissão, a redução lenta associada ao suporte psicológico estruturado teve resultados comparáveis a continuar o antidepressivo para prevenir recaídas e foi superior à retirada abrupta”, analisa o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. “Para transtornos de ansiedade, os resultados apontam na mesma direção, mas os autores ressaltam que há menos evidências e, por isso, a generalização deve ser mais cuidadosa.”
Embora o estudo indique a necessidade de que o desmame ocorra a longo prazo, os autores não definem nenhum intervalo ideal e único para essa redução. O foco está em observar a evolução do paciente ao longo dos meses e fazer revisões regulares. A duração final deve ser individualizada, com base no histórico clínico e no risco de recaída de cada pessoa, em uma decisão compartilhada entre paciente e médico.
As três formas de tratamento consideradas eficazes no estudo para evitar o retorno da doença foram: a continuidade do tratamento associada ou não ao suporte de apoio psicológico, a redução gradual da dose com apoio psicológico e a continuação com dose reduzida. Em contrapartida, a diminuição lenta da dose sem o suporte psicológico levou a resultados inferiores, assim como a interrupção abrupta seguida ou não de acompanhamento.
Para Oliva, o estudo evidencia o papel do suporte psicológico estruturado mesmo para casos de depressão em remissão. “Ele ajuda a pessoa a desenvolver ferramentas práticas para lidar com fatores do cotidiano associados a depressão e ansiedade”, observa o psiquiatra. Entre as orientações para isso estão identificar gatilhos, manejar estresse, organizar sono e rotina, reconhecer padrões de pensamento que pioram o humor e, principalmente, perceber sinais precoces de piora para intervir antes que o quadro se reinstale.
Por que o desmame deve ser gradual?
O estudo indica que a retirada, mesmo em pessoas já sem sinal de depressão, deve ser feita com cautela. Muitas vezes, o medo da recaída faz com que pacientes discordem da ideia de deixar a medicação. Em outros casos, o paciente se sente tão restaurado em seu bem-estar que interrompe o uso por conta própria e sem planejamento, comprometendo os benefícios alcançados.
Ambos os casos deixam claro como é importante que paciente e psiquiatra tenham uma relação de confiança estabelecida para planejar a desprescrição. “A redução gradual dá tempo para o organismo se ajustar e permite correções de rota se surgirem sintomas relevantes. Nesses casos, o médico pode desacelerar o ritmo, pausar a próxima redução e reavaliar o plano, o que torna o processo mais seguro”, afirma o médico do Einstein.
A retirada abrupta pode aumentar o risco de recaída e provocar sintomas de descontinuação como piora do sono, irritabilidade, ansiedade e tontura, às vezes em tal profundidade que se confundem com o retorno do transtorno em si. Mesmo a retirada lenta pode levar a alguns desses sintomas. Por isso, diante de sinais de piora como crises de ansiedade ou pânico persistentes e aparecimento de ideação suicida, a reavaliação deve ser imediata.
“Para uma parcela de pessoas em remissão, é possível planejar a retirada com mais segurança quando ela é lenta e acompanhada, mas a decisão deve ser individualizada, considerando gravidade prévia, número de episódios ao longo da vida, sintomas residuais e risco de recaída”, conclui Daniel Oliva.
Fonte: Agência Einstein
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