Há três anos, a rede Giraffas teve de parar para organizar a casa. Ao olhar suas 400 lojas espalhadas pelo País, a empresa percebeu que algo não estava certo: havia muitas unidades com resultado abaixo do esperado. Foi preciso fazer um trabalho de “formiguinha”, segundo o fundador, Carlos Guerra. Só assim seria possível separar os pontos que deveriam permanecer abertos dos que deveriam ser abandonados. De 2016 para cá, a rede só abriu lojas à medida que fechava operações deficitárias. Agora, no fim de 2019, espera finalmente voltar a crescer, somando dez novas unidades à sua cadeia.

Em meio a essa reorganização, que envolveu 120 lojas, Guerra, que havia anos estava no conselho de administração, teve de voltar para o dia a dia da operação. O filho Alexandre deixou a companhia para concorrer ao governo do Distrito Federal pelo Novo, partido que reuniu forças empresariais e lançou João Amoêdo à Presidência. Alexandre não teve sucesso nas urnas, mas o pai não lhe cedeu o lugar de volta. “É muito melhor estar no dia a dia, à frente do que acontece”, diz.

O aumento no número de lojas deverá ocorrer na esteira de uma série de mudanças. Entre elas, a modificação do cardápio – para dar mais ênfase aos pratos completos e elevar o valor médio pago por cliente para R$ 28 – e a escolha de novos pontos com maior fluxo de pessoas.

Entre as marcas dessa mudança, estão a saída de hipermercados e a expansão em aeroportos e terminais rodoviários. “Com a privatização de alguns terminais, a situação melhorou. Na época em que a Infraero estava à frente de tudo, era impossível abrir uma loja em aeroporto”, diz Guerra, que criou o restaurante em Brasília, em 1981, e iniciou a expansão dez anos depois, por meio de franquias.

No balanço

O resultado das mudanças deve aparecer na linha da receita em 2019. No ano passado, o Giraffas teve faturamento de R$ 675 milhões. Agora, projeta crescimento acima da inflação – e do resto do setor -, para R$ 740 milhões (um avanço de quase 10%).

Caso se confirme, o resultado será suficiente para o Giraffas colocar o pé mais fundo no acelerador ao longo do ano que vem. Dependendo do comportamento da economia, a companhia deverá fechar 2020 com um total de 440 a 450 lojas.

Dentro do processo de limpeza da casa, a rede brasileira também decidiu jogar a pá de cal em uma malfadada operação na Flórida, nos EUA, iniciada em 2011. A tentativa de capitalizar em cima do fluxo de brasileiros para a região e expandir uma marca brasileira em solo americano esbarrou em custos altos e concorrência forte, de acordo com Guerra. Sete lojas chegaram a ser abertas, mas todas foram encerradas. “Não era um projeto fácil”, diz ele. “Mas não fomos só nós que investimentos nos EUA e desistimos: Madero, Coco Bambu, Vivenda do Camarão e Paris 6 fizeram a mesma coisa.”

Retorno

Para Sérgio Molinari, sócio da Food Consulting, o crescimento no número de lojas do Giraffas em 2019 é considerável em um momento em que o setor de comida fora de casa vem tendo aumento de mercado, mas de forma tímida.

Já descontada a inflação, o movimento financeiro da rede Giraffas deve avançar cerca de 7%, enquanto o mercado em geral deve ter expansão de 3%. “Por vender refeições, o Giraffas naturalmente se beneficia da busca do consumidor por produtos mais frescos e saudáveis”, diz Molinari. “O que é visto como industrializado está certamente perdendo espaço.”

Apesar de considerar que a família Guerra fez uma reformulação “silenciosa” do negócio, ele diz que a transformação passou não só pelo dia a dia da operação, mas também pelo marketing. “Todas as redes se transformaram e se modernizaram, porque a classe C não quer parecer que não tem dinheiro”, diz o especialista. “No caso do Giraffas, eles se livraram das girafinhas, um ícone obsoleto e um pouco brega. O slogan ‘comida brasileira’, adotado agora, está mais conectado com a tendência atual do mercado.”

Ao se preparar para crescer, segundo Molinari, o Giraffas pode se apoiar em um dado que é uma boa notícia para o setor como um todo: ao fim de 2019, o faturamento do food service deve retomar o nível de 2014, antes do início da atual crise econômica

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.