Brasil

Real, o plano que salvou a pátria

Há 25 anos, o Plano Real foi lançado como uma aposta arriscada, mas foi bem sucedido, controlou a inflação e ajudou a modernizar o Brasil

Crédito: Arquivo / Agência O Globo

EQUIPE Da esquerda para a direita: 1 Pérsio Arida, 2 Gustavo Franco, 3 Pedro Malan, 4 José Milton Dallari, 5 Winston Fritsch, 6 Rubens Ricupero, 7 Eduardo Jorge, 8 Fernando Henrique Cardoso, 9 Sinésio Sampaio, 10 Clóvis Carvalho, 11 Sérgio Amaral, 12 Edmar Bacha 13 Gelson Fonseca Jr. no lançamento da Unidade Real de Valor (URV) em abril de 1994 (Crédito: Arquivo / Agência O Globo)

Em maio de 1993, Fernando Henrique Cardoso foi convidado pelo presidente Itamar Franco a trocar o posto de ministro das Relações Exteriores pelo cargo menos cobiçado do governo: ministro da Fazenda. Era o quarto ministro em sete meses. O brasileiro via o dinheiro perder o valor. Itamar incumbiu FHC de uma missão clara, mas brutal: banir a inflação e controlar o câmbio para retomar o progresso.

FHC consultou os economistas do PSDB, e concluiu que a solução era criar uma moeda estável, que batizaria de real. Convocou os economistas do partido. O primeiro foi Edmar Bacha, que relutou em aceitar, pois trabalhara no fracassado Plano Cruzado. Mas entrou para a equipe como assessor. “Os cardeais do PSDB disseram que era uma missão partidária”, diz Bacha à ISTOÉ.
A missão do núcleo tucano em um governo de coalizão sofreu percalços. Em setembro, Itamar exonerou Paulo Ximenes do Banco Central, à revelia de FHC. Bacha ameaçou sair. Foi quando FHC obteve carta branca de Itamar. “Foi o ponto de virada”, diz.

Etapas da jornada

A equipe se consolidou. Pérsio Arida foi convidado para presidir o BNDES. Só aceitou se pudesse evitar o “feijão com arroz”: “Se fosse para fazer um plano de estabilização de verdade, a conversa era outra”. Gustavo Franco se incorporou como secretário adjunto, mas pensou que não duraria no cargo. “Tinha algo na sociedade como ‘por favor, mais um plano não’ e ‘pelo amor de Deus, resolvam a inflação’”, afirma. “Foi uma aventura.”


O ambiente da elaboração era, segundo Bacha, “extremamente estressante”. Os políticos pressionavam para o lançamento do plano antes das eleições de 1994. “Eles sabiam que seriam eleitos se liberássemos uma poção mágica”, diz.

Lançar a moeda foi o passo inicial. O segundo parecia intransponível, pois visava a controlar um monstro em pleno voo: a inflação. Muitos duvidaram. Acadêmicos previam que a conversão dos contratos para real levaria três anos. Mas a equipe fez isso em três meses. “Os resultados foram incríveis”, afirma Arida. Ele os atribui a um “exemplo de boa engenharia política” que convenceu e dialogou com a população – que, apesar de cética, abraçou a moeda. “Conforme progredíamos, a excitação de fazer algo histórico era incrível”, diz Franco.

“O Plano Real, ao invés de surpreender o povo com medidas inesperadas, anunciou o que seria feito e cumpriu”, afirma FHC por ocasião do jubileu da jornada que o levou à Presidência da República no ano seguinte.

Bacha lembra de uma comissão que integrou na Câmara dos Deputados, em que a economista Maria da Conceição Tavares, do PT, proferiu: “Se vocês conseguirem acabar com a inflação, ganham o Nobel. Se não, que fujam para Harvard!” Não receberam o Nobel, mas entraram para a História.