Após sua libertação do jugo dos extremistas islâmicos, a devastada cidade síria de Raqa será entregue a uma autoridade civil depois que as forças árabes e curdas apoiadas pelos Estados Unidos terminarem o longo processo de desminagem.
O anúncio desta transferência foi feito nesta sexta-feira pela aliança das Forças Democráticas Sírias (FDS), que comemorou uma “vitória histórica dedicada às vítimas do terrorismo do grupo Estado Islâmico (EI) na Síria e no mundo”.
“Dedicamos esta vitória histórica ao conjunto da humanidade”, anunciou em coletiva de imprensa em Raqa o porta-voz das FDS, Talal Sello.
“Recordamos principalmente as vítimas do terrorismo do EI na Síria e no mundo”, acrescentou, em alusão às atrocidades cometidas pelas organização ultrarradical sunita na Síria e aos atentados realizados em todo o mundo.
As FDS declararam na terça-feira a libertação total de Raqa após mais de quatro meses de combates contra o EI, que cometeu nesta cidade as mais terríveis atrocidade e de onde planejou ataques mortíferos em todo o mundo, principalmente na Europa.
Com a perda de Raqa, a organização jihadista tem poucos territórios na Síria, concentrando-se na vizinha província de Deir Ezzor, para onde alguns combatentes das FDS já partiram.
“Vamos transferir a administração da cidade a uma autoridade civil assim que concluídas as operações de limpeza de explosivos”, anunciou Talal Sello.
A administração da cidade, em ruínas e sem habitantes, será assumida pelo Conselho Civil de Raqa, um corpo que reúne lideranças locais criado há seis meses.
O Conselho assumirá o controle de uma cidade fantasma sem serviços básicos ou infraestruturas.
No mês passado, a ONU estimou que 80% da cidade era inabitável.
– Armadilhas e explosivos –
Ex-“capital” do EI na Síria, Raqa está cheia de minas terrestres e explosivos, e a destruição é enorme, o que torna quase impossível o retorno imediato dos civis.
As operações de limpeza e de busca por eventuais células dormentes prosseguem.
“Em Raqa, o retorno da população só será possível dentro de muitas semanas, uma vez que há armadilhas e objetos explosivos de todos os tipos”, declarou em Paris o porta-voz do Estado-Maior francês, o coronel Patrik Steiger.
A França faz parte da coalizão liderada pelos Estados Unidos que apoiou a ofensiva das FDS em Raqa.
Nesta sexta-feira, membros do Conselho Civil de Raqa visitaram a localidade.
“Esta é a primeira vez que venho à cidade desde a sua libertação”, disse à AFP Ahmad al-Ali, de 31 anos, membro do Conselho.
Mahmud Mohamad, outro membro do Conselho de 27 anos, chocou-se com tanta destruição. “Não é o que eu imaginei, é pior”.
A perda de Raqa, cidade emblemática do reinado de terror imposto pela EI nos territórios sob seu controle, é um grande revés para o grupo que vê o seu auto-proclamado “califado” sucumbir.
Em julho, perderam sua segunda maior cidade, Mossul, no Iraque. Na Síria, o grupo ainda está presente, em número limitado, no centro e na periferia sul de Damasco.
A coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, que apoiou a ofensiva das FDS para capturar Raqa, qualificou a tomada de Raqa e Mossul (reduto do EI no Iraque) de “guinada maior para a organização terrorista, cujos dirigentes estão cada vez mais distanciados de seus militantes, que são cada vez menos”.
“Os crimes do Bataclan não estão impunes”, declarou o chanceler francês, Jean-Yves Le Drian, em coletiva de imprensa em Madri, onde estava em viagem. Os dos atentados de 13 de novembro de 2015, em Paris, que deixaram 130 mortos, foram reivindicados pelo grupo Estado Islâmico.
O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, considerou a expulsão do EI de Raqa como um marco na luta contra a ortanização. No entanto, advertiu que a guerra não está terminada.
O EI controla apenas 10% do território sírio – contra 33% no começo do ano -, uma zona que inclui metade da província de Deir Ezzor, vizinha a Raqa.
Sua última fortaleza é agora a província de Deir Ezzor, no leste, na fronteira com o Iraque, onde enfrentam duas ofensivas: uma liderada pelas forças do regime sírio apoiadas pela Rússia, e outra pelas FDS, apoiadas pela coalizão internacional.
Grande parte dos combatentes das FDS já se dirigiram para a frente de combate de Deir Ezzor, segundo comandantes.
Iniciada em 2011 pela repressão do governo a manifestações pacíficas, o conflito na Síria se agravou com o envolvimento de países estrangeiros e grupos extremistas, em um território cada vez mais fragmentado.
A guerra já causou mais de 330.000 mortes e milhões de deslocados e refugiados.