Ramstein: a controversa e estratégica base dos EUA na Alemanha

Ramstein: a controversa e estratégica base dos EUA na Alemanha

"RamsteinMaior base militar dos EUA na Europa é importante centro logístico e de apoio à ofensiva no Irã. Mesmo estando em solo alemão, instalação tem na prática status de uma embaixada, e é alvo frequente de controvérsias.Localizada no sudoeste da Alemanha, no estado de Renânia-Palatinado, a base aérea americana de Ramstein é um importante centro logístico de abastecimento e reabastecimento das Forças Armadas dos EUA.

A maior base militar dos EUA na Europa, empregando cerca de 9 mil militares americanos, é um vasto complexo militar, com pistas de pouso e decolagem, hangares e vários outros edifícios fica perto da localidade de Ramstein-Miesenbach.

É como uma pequena cidade dentro da própria estrutura, aninhada na região rural, completamente isolada da paisagem montanhosa ao redor. E mesmo estando em território alemão, a instalação goza de um grau de imunidade semelhante ao de uma embaixada estrangeira: autoridades e políticos alemães só podem entrar com a permissão do comandante americano.

"A Base Aérea de Ramstein é um centro logístico incrivelmente importante para as Forças Armadas dos EUA", afirma o ex-diretor da Otan William Alberque, em entrevista à DW. "A base aérea também é chamada de 'a porta de entrada para a Europa'. Daqui, voos dos EUA seguem para a África e o Oriente Médio." Alberque também esclarece o que Ramstein não é: "Ramstein não é um centro de operações de combate."

Além das instalações puramente militares, o Landstuhl Regional Medical Center , o maior hospital militar americano fora dos Estados Unidos, também está localizado nas proximidades. Aproximadamente 50 mil americanos, incluindo suas famílias, vivem na região. Há escolas, lojas e prestadores de serviços, e a moeda corrente é frequentemente o dólar americano. As instalações americanas também são de grande importância para a economia regional.

Importância em alta

Tudo começou em 1952, em um aeródromo que a Luftwaffe de Adolf Hitler havia usado durante a Segunda Guerra Mundial e que o Exército dos EUA capturou pouco antes do fim do conflito, em 1945. O aeródromo e um prédio administrativo gradualmente se transformaram em um complexo cada vez maior para as tropas americanas na Alemanha e depois também para a Otan.

Desde 1971, Ramstein abriga o Comando de Transporte Aéreo Militar e suas aeronaves de transporte. Em 1973, o quartel-general das Forças Aéreas dos Estados Unidos na Europa foi transferido de Wiesbaden para Ramstein. Um ano depois, Ramstein também passou a abrigar um centro de comando da Otan para a gestão das forças aéreas. De Ramstein, a Otan monitora a defesa antimíssil da aliança e as atividades espaciais de seus Estados-membros. A Nasa também utiliza Ramstein ocasionalmente para voos de pesquisa.

Na década de 1980, a Base Aérea de Ramstein foi notícia internacional duas vezes: em agosto de 1981, membros do grupo extremista Fração do Exército Vermelho (também conhecido como Baader-Meinhof) realizaram um ataque a bomba contra a base, ferindo 20 pessoas, algumas gravemente. Instalações militares americanas eram alvos frequentes de terroristas de extrema-esquerda naquela época.

Em agosto de 1988, um show aéreo acontecia em Ramstein, quando aeronaves de uma equipe italiana de acrobacias aéreas colidiram no ar, um dos aviões caiu sobre a multidão. Setenta pessoas morreram e centenas ficaram feridas. Foi um dos piores desastres em shows aéreos da história. Nenhum show aéreo foi realizado em Ramstein desde então.

Presumivelmente até 2005 – embora isso nunca tenha sido oficialmente confirmado – armas nucleares também eram armazenadas na base aérea , as quais especialistas acreditam terem sido desativadas naquele ano. A base de Büchel, na região de Eifel, é agora considerada o único local na Alemanha onde são armazenadas armas nucleares americanas.

Controle de drones de combate

Ramstein ganhou crescente importância devido ao seu centro de controle de tráfego aéreo para a gestão de operações de drones de combate dos EUA. Isso tem levado repetidamente a debates sobre o possível envolvimento da Alemanha no assassinato seletivo de suspeitos de terrorismo na Ásia e na África.

Um processo judicial contra o Estado alemão também abordou essa questão. Tema foram ataques fatais em 2012 contra alvos no Iêmen realizados por drones controlados a partir de Ramstein. Os autores da ação eram dois iemenitas cujos parentes haviam sido mortos nessa operação com drones dos EUA. Embora o Tribunal Constitucional Federal tenha julgado em 2025 que Ramstein havia sido usada legalmente nesse caso, a decisão não concedeu carta branca para o uso militar irrestrito da base.

Ramstein também ganhou destaque na mídia devido a supostos voos com suspeitos de terrorismo capturados, que teriam passado pela base americana rumo a prisões secretas.

Reuniões sobre apoio à Ucrânia

O aeroporto também é usado regularmente para voos de evacuação. Ramstein desempenhou um papel central na retirada de pessoas do Afeganistão em meados de 2021, após a tomada de poder do Talibã.

Após a invasão russa da Ucrânia, reuniões dos países apoiadores da Ucrânia foram realizadas em Ramstein por um período. Foi o secretário de Defesa dos EUA, e não o alemão, quem fazia os convites para os encontros – uma clara indicação de quem estava no comando. O termo "Grupo de Ramstein" logo se tornou comum. As reuniões em Ramstein terminaram após a posse de Donald Trump no início de 2025.

Trump ameaçou reduzir as tropas

Em 2020, durante seu primeiro mandato, Donald Trump ameaçou reduzir drasticamente o número de tropas americanas estacionadas na Alemanha. Sua justificativa: a Alemanha não estava contribuindo o suficiente para sua defesa. Isso, obviamente, também afetaria a Base Aérea de Ramstein. O ex-comandante das forças americanas na Europa, general Ben Hodges, criticou duramente os planos na época, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, chamando-os de "erro colossal" e afirmando: "A decisão demonstra que o presidente não compreendeu a importância das tropas americanas estacionadas na Alemanha para a segurança dos Estados Unidos."

Embora Trump tenha questionado a presença de tropas americanas na Alemanha no início de seu segundo mandato, no começo de 2025, a Alemanha aumentou significativamente seus gastos com defesa desde então. Desde que o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, assumiu o cargo em maio de 2025 e fez diversas visitas a Washington, essa retórica diminuiu. Os recentes ataques americanos ao Irã demonstraram mais uma vez a importância de Ramstein como base logística na Europa.

A Espanha fechou temporariamente suas bases militares aos Estados Unidos porque o governo considera os ataques ao Irã ilegais segundo o direito internacional. Em consequência da recusa da Espanha em permitir o uso das bases para a operação contra o Irã, os EUA transferiram aeronaves de reabastecimento aéreo KC-135 Stratotanker da base americana de Morón para Ramstein.

Mas, além do apoio de Merz às operações americanas, seria legalmente possível que a Alemanha impedisse os EUA de usar Ramstein para apoiar suas ações militares contra o Irã? "Seria muito difícil para o governo alemão limitar as operações americanas em Ramstein", disse o ex-diretor da Otan, William Alberque. "Se quisessem, poderiam fazê-lo, mas seria muito incomum, e não creio que queiram."