O Dia

Rafael Faria: O pré julgamento moralista viola até as boas intenções

No célebre julgamento de Alice (no país sem tantas maravilhas assim), o comportamento de quem julga se aproxima, e muito, dos atuais julgamentos cibernéticos

Rio – “Não, não!” disse a Rainha. “Sentença, primeiro… veredito, depois.”

“Ideia sem lógica!” disse Alice em voz alta. “A ideia de ter uma sentença primeiro!”

No célebre julgamento de Alice (no país sem tantas maravilhas assim), o comportamento de quem julga se aproxima, e muito, dos atuais julgamentos cibernéticos.

E o efeito disso está no atual cenário vivenciado por todos nós: nada é capaz de identificar o antídoto para o ódio. Não é à toa que doenças neurológicas, como a depressão, o transtorno de personalidade ou a própria síndrome de burnout, determinam o novo compasso doentio.

Por exemplo, a tentativa de se criminalizar uma festa de aniversário imputando aos seus responsáveis prática de crime racial, pelo simples fato de haver baianas, é o retrato disto. Hoje, julga-se sem saber o contexto, fala-se do que não se sabe e escreve-se sem entender a razão.

Há 50 anos, Nelson Rodrigues dizia que: “os idiotas perderam a modéstia”.

Nesses últimos tempos, em nome da sociedade civil “de bem”, da moral e dos bons costumes, buscou uma solução instantânea para as problemáticas sociais e para o mal já definido. E qual foi o seu remédio?
Um conhecido remédio, capaz de rotular e carimbar aquele que se pretende atingir: o crime, um antídoto não tão contemporâneo assim.

O Estado de Vigilância, sem a análise sincera da perspectiva denunciada por Pascal – de que os homens são atraídos a crer, não pelas provas, mas sim pelo atrativo – demonstra um campo fértil de pulverização do ódio.

Em épocas de superabundância, onde todos possuem opiniões para tudo, valeria maldizer as redes sociais, a super informação e a comunicação generalizada. Mas, não. Contra o inimigo virtual, só há um único caminho, pois, como um rato, ele atua nos subterrâneos, que se combate apenas com a higienização do conhecimento, da literatura e do convite ao debate prático. Afinal, “vulgar é o ler, raro é refletir”, ensinaria Ruy Barbosa.

A sociedade disciplinar de Foucault – feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas – não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há uma sociedade de academias fitness do não saber, materializado pelos pequenos acusadores por de trás dos teclados e pela predominância do culto aos personagens que predominam o discurso do não-ter-o-direito.

Equívocos não podem acontecer?

“Cortem a cabeça!” gritou a Rainha com toda a sua voz. Ninguém se moveu.

Rafael Faria é advogado criminalista

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