Comportamento

Quem tem medo do escritório?

Com o avanço da vacinação, empresas e funcionários negociam a volta ao trabalho presencial, híbrido ou remoto. Cargos estratégicos, principalmente no setor de tecnologia, têm prioridade para continuar em casa

Crédito: Marco Ankosqui

“Não acho que o mercado de trabalho vai voltar a ser o que era antes. Existem outras formas de se mostrar produtivo” Beatriz Machado de Oliveira, analista de Customer Success (Crédito: Marco Ankosqui)

Mesmo antes da pandemia, as principais empresas de tecnologia já trabalhavam com alguma forma de trabalho híbrido, uma vez que a natureza da profissão exige uma infraestrutura bastante simples – basicamente o profissional, seu computador e uma conexão à internet. Por isso, causou polêmica a declaração recente de Elon Musk, CEO da marca de carros elétricos Tesla, que ameaçou com demissão os funcionários que não voltassem a trabalhar de forma presencial. A nova política foi compartilhada por meio de dois e-mails que vazaram nas redes sociais – a postura rígida de Musk surpreendeu pela virulência e dividiu a opinião de gestores.

No Brasil, as companhias de tecnologia estão, em sua maioria, trabalhando no modelo híbrido – alguns dias em trabalho presencial, outros em casa – ou totalmente remoto. Para Ketty Sanches, diretora de Gente e Comunidade da Neurotech, empresa que fornece serviços de Inteligência Artificial e Big Data, voltar ao escritório tem sido uma opção apresentada a todos. “Na pandemia contratamos muitas pessoas de fora das nossas filiais, então seria inviável que elas fossem até ao escritório diariamente”, diz. Ela explica que o ambiente de trabalho ainda é o melhor lugar para reuniões pontuais – ou quando o home office torna-se, por alguma razão, inviável.

A analista de Customer Success Beatriz Machado de Oliveira diz que dificilmente voltaria a trabalhar de forma totalmente presencial. Com uma filha de cinco anos, que fica com ela durante as manhãs, ela conta que, se precisasse se deslocar diariamente do bairro onde mora, não conseguiria levar a filha para a escola no período da tarde. Por outro lado, gosta da possibilidade de ir, caso queira. “Não acho que o mercado de trabalho vai voltar a ser o que era antes. Existem outras formas de se mostrar produtivo e também de respeitar o seu tempo de descanso”, explica ela, que trabalha na Beedo Edtech, responsável pela produção de softwares para empresas. “Se eu gastasse quatro horas para ir e voltar do meu trabalho, será que eu produziria mais? É importante evoluir no debate sobre essa questão”, diz. A fala de Beatriz reflete um dos trechos mais polêmicos do e-mail de Musk aos seus executivos: ele escreveu que quem não gostasse da nova política poderia “fingir que está trabalhando em outro lugar”.

Para Leo Massarelli, sócio fundador da Where, empresa que oferece serviços digitais para empresas que adotam o trabalho remoto, a própria ideia de home office já é considerada antiga e acredita até em um novo termo, o “Anywhere Office”, que é a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar do mundo, ideia que se popularizou com os chamados nômades digitais. “Em um cenário futuro, a gente aposta que as pessoas se encaminham para trabalhar nessa direção, o modelo de trabalho híbrido”, diz. Ele defende que a tecnologia pode aperfeiçoar a maneira como o trabalho remoto acontece. “Passamos pelas cartas, email, contratos que precisavam ser preenchidos manualmente. Hoje existem contratos em blockchain e videochamadas, ou seja, há uma série de ferramentas que aceleraram a transformação do trabalho”, diz.

“Quando fico em casa consigo fazer uma aula de ginástica poucos minutos antes de começar o expediente” Rita Ferraz, assessora executiva (Crédito:Marco Ankosqui)

Qualidade de vida

A venezuelana Victoria Márquez Lezama, gerente sênior do setor de Recursos Humanos da Sencinet na América Latina, trocou o Brasil pelo Canadá durante a pandemia. De lá, ela atende cerca de 500 funcionários e diz que um dos grandes desafios é a integração dos novos contratados, que precisam se adaptar ao trabalho remoto de forma saudável, sem se sentirem isolados, mas de maneira que absorvam a cultura da empresa. “A pessoa é contratada para trabalhar em um time de pessoas que ela nunca viu pessoalmente e pertencer a uma cultura que ela não fez parte do espaço físico que compõe essa história”, explica. Ou seja, se sentir parte da empresa é importante para o rendimento e saúde do funcionário. Ele precisa entender o que faz e também porque realiza determinada tarefa.

Qualquer profissional de Recursos Humanos sabe como é importante reter funcionários qualificados. Há um conceito difundido no mundo corporativo que diz que sai caro substituir um funcionário que poderia ter ficado no cargo, mediante adaptações, sejam elas financeiras ou de estilo de vida. Para Rita Ferraz, que faz assessoria para a presidência da empresa, escolher os dias para frequentar o escritório é uma novidade positiva. “Decidi vir hoje para o escritório porque queria coordenar algumas atividades daqui, mas quando fico em casa consigo fazer uma aula de ginástica poucos minutos antes de começar o expediente.”