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Lexotan: a arma do general Heleno para conter a fúria de Bolsonaro contra o STF

O general, que antes cantava: “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, aderiu ao bloco fisiológico do Congresso, discursa contra ministros do Supremo Tribunal Federal e avisa que o presidente pode tomar “uma atitude mais drástica” contra a Corte

Crédito: ANDRESSA ANHOLETE

AMEAÇAS O ministro do GSI, general Augusto Heleno, teve áudio vazado onde sobe o tom contra o STF (Crédito: ANDRESSA ANHOLETE)

INCOERÊNCIA General Heleno liderava críticas ao Centrão no início do mandato (Crédito:Divulgação)

Possivelmente sob efeito de Lexotan, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, discursou para um grupo de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante uma formatura. Não há nada de pejorativo na lembrança ao remédio, o próprio general fez questão de anunciar que toma “dois Lexotan na veia por dia”. A informação aparece em áudio vazado e que foi divulgado pelo site Metrópoles. Heleno faz críticas ao Supremo Tribunal Federal e sobe o tom contra os ministros, além de afirmar que cabe a ele a responsabilidade de manter o presidente informado.

Quem te viu, quem te vê Heleno. Autor da famosa frase: “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, o general sucumbiu aos encantos do Centrão e, hoje, dirige a artilharia pesada contra o STF. O episódio confirma a recente entrevista da ativista Sara Winter à ISTOÉ. A conservadora extremista disse que no “Acampamento dos 300” em Brasília, ficou a cargo do general conversar com o grupo. “Ele pediu para deixar de bater na imprensa e no Maia e redirecionar todos os esforços contra o STF”, afirmou Sara.

A fala do general acontece pouco depois de o presidente romper a trégua estabelecida por meio de carta redigida pelo ex-presidente Michel Temer para por panos quentes na crise entre o Planalto e o STF. O mandatário teve que se curvar ao ministro Alexandre de Moraes enviando-lhe a carta, em 9 de setembro, em que afirma que “não tinha intenção de agredir quaisquer dos poderes”. No entanto, Bolsonaro é investigado no STF pelos atos antidemocráticos, por fake news e por dizer que existia a possibilidade de contaminação por HIV a partir da vacina contra a Covid. Quem conduz os inquéritos é o ministro Moraes, que já mostrou que não irá se intimidará com as falas do presidente. Bolsonaro o ameaçou, dizendo que “sabe jogar fora das quatro linhas”.

“Eu tenho que tomar dois Lexotan na veia por dia para não levar o presidente a tomar uma atitude mais drástica em relação às atitudes que são tomadas por esse STF” Augusto Heleno, ministro do GSI

ALVO O ministro do STF Alexandre de Moraes é o mais atacado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (Crédito:ANDRESSA ANHOLETE / AFP)

O discurso de Heleno revela muito de como funciona a linha de ataque do Planalto. O general questiona a hegemonia nacional e afirma “que são dois ou três ministros” que conspiram contra no STF. “Temos um dos Poderes que resolveu assumir uma hegemonia que não lhe pertence. Não pode fazer isso, está tentando esticar a corda até arrebentar”, afirmou o general. Adepto de teorias conspiratórias, o chefe do GSI prometeu “rezar em todas as igrejas pela vida do presidente”. Ele sugere que existe a possibilidade de um novo atentado contra Bolsonaro ao que ele chama de “uma medida muito simples para mudar, em dez segundos, vinte segundos, totalmente o panorama brasileiro”.

O general diz existir alinhamento completo com o mandatário e aproveitou o momento para reclamar dos custos da vacina. “Então nós estamos gastando dinheiro que nem temos para poder manter esse nível de vacinação que nós temos hoje, invejável, porque nós não somos produtores da vacina”. Atribuiu uma perspectiva econômica cruel para 2022 por conta do investimento na imunização, quando todos os especialistas apontam exatamente o contrário. Quanto mais pessoas vacinadas, melhor a economia avança no Brasil.

Toda a narrativa do general inclui ataques ao STF e apego ao poder no Planalto. Em nenhum momento, o militar faz qualquer menção aos políticos do Centrão que outrora ele tanto criticou, mas que hoje dão as cartas no governo. A política de boa vizinha com seus pares ministros é evidente. Nenhum médico dirá que a aprovação repentina é fruto do remédio tomado, é apenas um efeito colateral da convivência na Presidência. O anseio pela reeleição deixa a corda realmente esticada.