A divulgação de milhões de páginas de documentos ligados ao caso Jeffrey Epstein voltou a colocar o nome do financista americano no centro do noticiário internacional. Entre e-mails, extratos bancários, imagens e anotações internas, o material liberado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos trouxe referências a políticos, empresários e figuras públicas de vários países. No meio desse volume, aparecem também conexões com o Brasil e menções diretas a brasileiros.
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Os arquivos não indicam, por si só, crimes cometidos por todas as pessoas citadas. Autoridades americanas e veículos internacionais têm ressaltado que constar nos documentos não significa envolvimento em ilícitos.
Ainda assim, o conteúdo ajuda a mapear relações, trocas financeiras e contatos mantidos por Epstein ao longo de anos. É nesse contexto que surgem os nomes brasileiros ligados ao caso.
Entre os principais citados está Reinaldo Avila da Silva, brasileiro que mantém uma relação de longa data com o político britânico Peter Mandelson, com quem se casou em 2023.
Os documentos mostram trocas de e-mails entre Reinaldo e Epstein, além de registros de transferências bancárias feitas pelo financista.
As mensagens datam de 2009, período em que Epstein já havia sido condenado nos Estados Unidos e cumpria pena em regime semiaberto. Em um dos e-mails, Reinaldo pede ajuda financeira para custear despesas de um curso de osteopatia.
No texto, ele lista gastos, informa dados bancários e agradece qualquer apoio que pudesse receber. Horas depois, Epstein responde afirmando que faria a transferência. No dia seguinte, Reinaldo envia uma mensagem de agradecimento.
Registros bancários e comunicações internas indicam que Epstein autorizou pagamentos em libras e dólares relacionados a esse pedido. Em mensagens encaminhadas ao contador, o financista menciona valores e instruções de envio. Em outro momento, há referência a pagamentos mensais. Posteriormente, parte desses valores teria sido ajustada.
Além do empréstimo direto a Reinaldo, os documentos também citam pagamentos ligados a Peter Mandelson.
Extratos bancários mostram transferências de US$ 25 mil feitas em 2003 e 2004 a contas nas quais o brasileiro aparece como titular ou beneficiário. As movimentações teriam partido de contas de Epstein no banco JP Morgan e envolvido instituições como Barclays e HSBC.
Mandelson afirmou não ter lembrança ou registro desses pagamentos e declarou não saber se os documentos são autênticos. O ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos já havia reconhecido publicamente que manter contato com Epstein após sua condenação foi um erro.
Ele também pediu desculpas às vítimas do financista em entrevistas à imprensa britânica.
Os arquivos ainda revelam outros pontos da relação entre Epstein e Mandelson, como pedidos para se hospedar em propriedades do americano e trocas de mensagens sobre temas pessoais e profissionais.
Em um e-mail de 2011, Mandelson menciona um plano envolvendo uma empresa no Panamá e uma nova companhia no Brasil administrada por Reinaldo. O contexto era a organização de estruturas empresariais e tributárias.
Conexões com o setor de moda e a rede de Epstein no Brasil
Outra frente que conecta o caso Epstein ao Brasil passa pelo setor de moda. O francês Jean-Luc Brunel, apontado em investigações como uma figura central no esquema do financista, esteve no país em 2019. Brunel era agente de modelos e fundador da agência MC2, sediada em Miami, que recebeu apoio financeiro de Epstein.
Naquele ano, Brunel visitou Brasília e passou pela sede da MEGA Model local. Uma publicação nas redes sociais da agência registrou a presença dele para um casting com foco em levar modelos para Nova York. Após a repercussão do caso, a empresa afirmou que a visita foi breve, sem agendamento, e que não houve recrutamento ou abordagem de modelos.
Reportagens internacionais, como as do jornal britânico The Guardian, reuniram denúncias de mulheres que acusaram Brunel de abusos ocorridos nas décadas de 1980 e 1990.
Segundo esses relatos, adolescentes de diferentes países teriam sido levadas aos Estados Unidos com vistos de modelo e, depois, exploradas sexualmente. Brunel foi preso na França em 2020 e morreu em uma cela em Paris em 2022, enquanto aguardava julgamento.
Os documentos liberados pelo governo americano também citam o Brasil de forma menos detalhada. Um depoimento do FBI menciona um “grande grupo brasileiro”, sem identificar nomes ou explicar o papel dessas pessoas.
Grande parte desse material aparece com trechos cobertos, o que limita a compreensão sobre quem seriam os envolvidos ou qual a natureza da ligação com Epstein.