Brasil

Queiroz preso

Em setembro do ano passado, uma repórter perguntou ao advogado Frederick Wassef onde estava Fabrício Queiroz, o executor do esquema das rachadinhas no gabinete do senador Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro e que estava sendo procurado pela Justiça carioca. Com a maior cara de pau, Wassef respondeu não saber. O advogado representa não só o filho do presidente no caso das rachadinhas e em denúncias de enriquecimento ilícito, como também advoga para o próprio mandatário. Porém, quando a polícia de São Paulo chegou, às 6h da madrugada da quinta-feira, 18, ao sítio de Wassef em Atibaia, interior de São Paulo, pegou o criminalista na mentira. Queiroz dormia tranquilamente em um dos amplos quartos da casa da sede da propriedade, que servia, ainda, de escritório de fachada para o advogado quando ele precisava de sossego em São Paulo.

Crédito: NELSON ALMEIDA

MALA CHEIA O delegado que prendeu Queiroz no sítio do advogado de Flávio Bolsonaro disse que o ex-PM possuía grande quantidade de dinheiro vivo no local: “Tivemos que fazer um malote gordinho com o dinheiro que ele guardava” (Crédito: NELSON ALMEIDA)

Ameaçador (Crédito:NELSON ALMEIDA)

O caseiro do sítio confirmou à polícia paulista, que chegou ao local com a ajuda de promotores do MP do Rio, que Queiroz estava escondido no local há pelo menos um ano. Ex-PM e ligado às milícias do Rio, Queiroz contou com a cobertura da família de Flávio para se refugiar no esconderijo para não ser preso e ter de prestar contas à Justiça. O fato de ele ter sido preso em Atibaia, mesma cidade onde Lula tem um sítio, elevou o local à condição da “Gotham City” do crime. O medo da família Bolsonaro, porém, é que Queiroz possa contar o que sabe sobre o desvio de dinheiro público no gabinete do senador. Com sua prisão e a transferência para o Rio, os Bolsonaros temem que ele faça a opção por uma delação premiada, o que seria devastador. Ao prender Queiroz, a polícia apreendeu também os dois celulares usados por ele, que podem revelar rastros que levem ao senador. Pior, no entanto, é o que pode acontecer com a prisão de Márcia Oliveira de Aguiar, mulher de Queiroz, que também teve a prisão preventiva decretada pelo juiz Flávio Itabaiana Nicolau, da 27ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, mas que está foragida. A família do capitão tem receio de que ela possa entregar todo o esquema, que, eventualmente, pode envolver não só o senador, mas o próprio presidente, já que no passado Queiroz fez depósitos na conta da primeira-dama Michelle. “Bolsonaro não vai dormir hoje”, disse o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP).

“O MP está com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente e não vi ninguém agir” Fabrício Queiroz, em outubro de 2019, quando já estava ameaçado de prisão (Crédito:Divulgação)

Afinal, Queiroz já deixou claro à família do presidente que está disposto a assumir toda a responsabilidade pelos desvios de dinheiro no gabinete de Flávio desde que as investigações do Ministério Público do Rio não cheguem à sua mulher Márcia e à sua filha Nathália, ex-funcionária fantasma no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro. Queiroz é ex-policial e tem estrutura emocional para enfrentar um eventual período na cadeia. Porém, ele já revelou a seus advogados que não suportaria ver a mulher e a filha numa prisão. Recentemente, chegou a mandar um recado para os familiares de Flávio. Em áudio gravado pelo ex-PM na Internet, ele agradece pela “ajuda” que está sendo dada às suas filhas. Por isso, Flávio está muito mais preocupado com a detenção de Márcia do que com a de Queiroz. Márcia já deu inúmeras demonstrações de que pode se transformar numa bomba-relógio. Em mensagem recente na sua rede social, ela disse que Queiroz se apresenta como um “preso dando ordens e resolvendo tudo”. Com o ex-motorista, porém, Flávio já tem até um acordo: Queiroz assumiria ter ficado com o R$ 1,2 milhão desviado dos funcionários do seu gabinete e Flávio pagaria por sua proteção. Teria sido a própria família de Flávio, inclusive, quem pagou as despesas da cirurgia de um câncer no estômago à qual Queiroz se submeteu no início de janeiro de 2019, no Hospital Albert Einstein, quitada com dinheiro vivo. Depois da cirurgia, Queiroz desapareceu e nunca mais foi visto em sua casa no Rio das Pedras, bairro na zona oeste do Rio dominado pela milícia, até ser preso em Atibaia. Nesse período de fuga, o ex-PM acabou virando meme na Internet: “Cadê o Queiroz?”. Essa resposta está dada agora com a prisão em São Paulo, mas muitas coisas ainda estão sem resposta. Por exemplo: quem financiou a vida no esconderijo?

O ESCONDERIJO Queiroz ficou um ano escondido na casa do advogado de Flávio Bolsonaro, decorada com bonecos de mafiosos e um quadro em homenagem ao AI-5 (acima). À esquerda, vista da entrada da cidade de Atibaia, onde a produção de laranjas não é uma mera coincidência. Ao lado, Queiroz é fotografado com a mulher Márcia, que também teve a prisão decretada, mas está foragida: ela pode detonar a família Bolsonaro

Ao ser preso na quinta-feira, Queiroz estava em posse de uma boa quantia de dinheiro. O delegado Osvaldo Nico Gonçalves, da polícia civil paulista, que efetuou a prisão depois de arrombar o portão da entrada principal do sítio, disse que o ex-PM estava em poder de grande quantidade de dinheiro vivo. Na saída do sítio, com Queiroz já no camburão policial, Nico disse que os policiais saíram com um malote “meio gordinho” de dinheiro. Na casa em que Queiroz foi preso, há uma lareira ornamentada com bonecos e mafiosos e um cartaz com a inscrição em homenagem ao AI-5. No local, Queiroz realizava frequentes churrascos, alguns dos quais com a presença de Wassef. Além das preocupações da família com o que Queiroz, sua mulher e as filhas podem contar à Justiça, o que mais preocupa os Bolsonaros é o provável envolvimento do presidente no caso. Afinal, os dois são amigos íntimos há 40 anos e já foram fotografados juntos em célebres pescarias. Tanto que, na quinta-feira, após a prisão, Bolsonaro disse a assessores que estava “revoltado com o cerco” a ele e que não via como “mera coincidência” a prisão do amigo, associada à ação do Supremo Tribunal Federal contra os parlamentares, blogueiros e empresários bolsonaristas no início da semana e que chegaram a ter quebrados os sigilos bancário e telemático. O presidente entende que as duas ações foram “orquestradas”. O próprio senador Flávio publicou uma mensagem em suas redes sociais ligando os casos. “A prisão do Queiroz é mais uma peça do tabuleiro movimentada para atacar meu pai”, disse o senador. Até porque, Flávio considera Queiroz um dos seus melhores amigos. No último dia 26 de maio, o 01 escreveu em suas redes sociais; “Queiroz é um cara correto e trabalhador”. Afinal, Queiroz é tão íntimo de Flávio, que apagava as mensalidades das filhas do amigo com dinheiro vivo. No final do ano passado, quando já estava em fuga, Queiroz chegou a gravar áudios na Internet reclamando que havia sido abandonado pelos amigos: “Não vejo ninguém se movendo para me ajudar”. Reconheceu que a encrenca contra ele e Flávio era grande. “Tem uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente”, disse Queiroz, em outubro de 2019. Os Bolsonaros interpretaram o áudio como “chantagem”.

Tanto Flávio como o presidente estão preocupados também em se desvincular agora do advogado Frederick Wassef, que atende pelo apelido de “Anjo” da família Bolsonaro. “Anjo”, inclusive, foi o nome dado à operação policial desencadeada para a prisão de Queiroz. Wassef é tão próximo do presidente que, um dia antes da prisão do ex-PM, o advogado compareceu à posse do ministro das Comunicações, Fábio Faria, no Palácio do Planalto, postando-se ao lado do ministro da Justiça, André Mendonça. Por isso mesmo, o capitão determinou a seus assessores palacianos que excluam Wassef das defesas jurídicas de Flávio e dele próprio. Há, contudo, uma preocupação maior quanto ao que pode vir a acontecer com o ex-motorista. Depois de dizer na sua rede social que “hoje, para mim, é um dia especial” (a prisão de Queiroz), o deputado Alexandre Frota (PSDB-SP) disse temer que o ex-motorista tenha o mesmo destino do ex-capitão da PM-RJ, Adriano da Nóbrega, executado num sítio no interior da Bahia, em fevereiro. Adriano é acusado de participar do assassinato da vereadora Marielle Franco e sua mãe e mulher foram funcionárias fantasmas do gabinete do senador no Rio. Frota disse temer que Queiroz também seja eliminado. “Tememos que seja feita uma queima de arquivo e, como sabemos, é obrigação do Estado a garantia da vida dos reclusos em sistema prisional”, disse o deputado em mensagem enviada ao governador do Rio, Wilson Witzel, e às autoridades de segurança fluminenses. Ele pediu a adoção de “um esquema especial de segurança” a Queiroz. O advogado do ex-motorista de Flávio vai na mesma linha: “Temo pela vida de Queiroz”, disse Paulo Emílio Catta Preta.


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A lavanderia de Flávio

A prisão de Queiroz fecha ainda mais o cerco em torno do senador Flávio Bolsonaro. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), o senador vem sendo investigado por lavagem de dinheiro e o caso envolvendo outro policial militar, Diogo Sodré de Castro Ambrósio, é exemplar de como o filho 01 do presidente tem uma predileção por fazer operações com dinheiro vivo. O PM pagou um boleto de R$ 16,5 mil que estava em nome da esposa do senador, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, referente à compra de um imóvel, em Laranjeiras, na zona sul no Rio. No ano passado, investigações sobre os negócios imobiliários de Flávio levaram o MP a pedir a quebra de sigilo do parlamentar. Entre 2010 e 2017, o primogênito do presidente comprou 19 imóveis por R$ 9 milhões, segundo os promotores, o então deputado estadual lucrou R$ 3 milhões em transações imobiliárias em que há “suspeitas de subfaturamento nas compras e superfaturamento nas vendas”. No período, ele investiu R$ 9,4 milhões na compra dos imóveis, entre salas e apartamentos. Faturou mais no mercado imobiliário do que como deputado.

O MP analisou 37 transações imobiliárias do senador, entre junho de 2005 e maio de 2018, apontando que, além do caso do PM Ambrósio, a compra de dois apartamentos em Copacabana apresentaram suspeitas de ilicitudes. Na compra de um desses apartamentos, o 01 e a nora do presidente pagaram R$ 170 mil pelo imóvel, e, um ano depois, o venderam por R$ 573 mil. O responsável pela investigação, procurador Sérgio Pinel, resumiu assim a negociação: “As circunstancias em que as compras foram feitas sugerem que os registros do valor de compra foram subavaliados com parte do valor sendo pago por fora, numa impressionante valorização em curto período”, disse.

Dinheiro vivo

As investigações tocadas pelo MP fluminense concluíram, ainda, que houve indícios de lavagem de dinheiro em outros bens adquiridos por Flávio. Esse é o caso do pagamento de R$ 31 mil, em dinheiro vivo, a uma corretora de valores, com a intenção de cobrir prejuízos financeiros referentes a investimentos que Flávio e Carlos Bolsonaro fizeram na Bolsa de Valores. Os malfeitos de Flávio, no entanto, não param por aí. Em outra investigação, Flávio e Fernanda são acusados de pagar R$ 638 mil, em espécie, para realizar uma outra transação imobiliária, em Copacabana. Eles pagaram esses recursos “por fora”, sem contabilizar o dinheiro e sem registro em cartório. Há, ainda, o investimento que o casal fez em uma loja de chocolates da franquia Kopenhangen, num shopping no Rio, na qual investiram, também em dinheiro vivo, o valor de R$ 1,6 milhão, quantia incompatível com a renda do casal. Nessa operação, o dinheiro investido na loja de chocolates entrava nas mesmas datas em que Fabrício Queiroz fazia a recolha de parte dos salários dos funcionários no gabinete do deputado. Além disso, o antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou 48 depósitos de R$ 2 mil cada, num total de R$ 96 mil, nas contas de Flávio. A prisão de Fabrício Queiroz, portanto, complica ainda mais a situação do herdeiro de Bolsonaro.

O “anjo” da família Bolsonaro

Conhecido pelo apelido de “Anjo”, o advogado Frederick Wassef é de fato um “anjo” da família do presidente. Representa judicialmente o senador Flávio nas investigações sobre as rachadinhas e enriquecimento ilícito e também defende o presidente nas ações que o envolvem, como foi o caso da facada dada por Adélio Bispo em setembro de 2018. Wassef é mais do que o advogado da família. É homem da “cozinha” do presidente. Aproximou-se de Bolsonaro a partir das eleições de 2014, quando Jair foi eleito o deputado mais bem votado do Rio. Sentindo que ele tinha futuro político, passou a incentivar sua candidatura a presidente. Na campanha de 2018, o advogado atraiu o apoio da comunidade judaica de São Paulo, composta por ricos empresários, no financiamento e apoio à eleição de Bolsonaro. “Eu estou no dia a dia aqui com o presidente e com a família Bolsonaro”, disse Wassef, no último dia
28 de abril à Rádio Gaúcha, o que serve bem para definir o perfil do advogado que escondeu Fabrício Queiroz
em seu sítio de Atibaia. Hoje, Wassef virou um dos principais aspones do presidente.

 

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