Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Por Gram Slattery e Ricardo Brito

RIO DE JANEIRO (Reuters) – O presidente Jair Bolsonaro, que tem um histórico de comentários misóginos, vem enfrentando um problema com o eleitorado feminino que pode lhe custar caro nas eleições de outubro. E as coisas só pioram.

Pedro Guimarães, um forte aliado político e presidente da Caixa Econômica Federal, renunciou na quarta-feira sob pressão por acusações de assédio sexual que ele nega.

O escândalo chama a atenção de forma indesejada para um ponto fraco de Bolsonaro, que obteve cerca de metade dos votos femininos quando venceu a eleição em 2018, mas agora está quase 30 pontos percentuais atrás de seu principal rival, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre as mulheres, segundo as pesquisas eleitoras.

Guimarães renunciou depois que o site Metrópoles publicou relatos de cinco mulheres que descreveram uma série de incidentes inapropriados, desde apalpar até um convite para uma sauna depois do expediente. Promotores federais agora estão investigando, segundo informações de uma fonte com conhecimento do assunto à Reuters.

Resta saber quanto dano o episódio de Guimarães causará às chances de reeleição de Bolsonaro enquanto ele luta para reduzir a vantagem de Lula, que lidera as pesquisas.

Mas a saída de Guimarães sublinha as dificuldades de um governo que analistas, detratores e até alguns aliados dizem ter sido insensível em relação às preocupações das mulheres.

Bolsonaro foi alvo de uma campanha nas redes sociais sob a hashtag #EleNão durante as eleições de 2018. Em seus tempos de Congresso, ele disse que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada por ele, e nesta semana perdeu um processo de difamação contra uma jornalista após insinuar que ela trocava informação por sexo.

No fim de semana, Bolsonaro decepcionou aliados ao anunciar um general da reserva, o ex-ministro da Defesa e da Casa Civil Walter Braga Netto, como seu companheiro de chapa em vez de uma mulher.

Há sinais de que Bolsonaro percebeu os danos potenciais do escândalo de Guimarães. Ele imediatamente chamou Daniella Marques, uma funcionária do Ministério da Economia, para substituir Guimarães.

Mas os integrantes de sua pré-campanha temem que os rivais de Bolsonaro usem o episódio para corroer ainda mais seu apoio feminino, disse uma fonte.

“Mesmo se você olhar para as regiões do país onde Bolsonaro é bastante forte, você pode ver que Bolsonaro está perdendo entre as mulheres”, disse Lucas de Aragão, analista político da Arko Advice. O escândalo de Guimarães foi “mais uma peça de informação que gera um fluxo de notícias negativo”, acrescentou.

O Palácio do Planalto não respondeu aos pedidos de comentários, nem a Caixa. O Ministério Público Federal disse que não poderia comentar sobre uma investigação “sigilosa”.

Em uma publicação no Instagram, Guimarães disse que as acusações contra ele são falsas e que ele trabalhou duro para criar as condições para a igualdade de gênero no banco.

PROBLEMA MAIS AMPLO

Bolsonaro se saiu relativamente bem entre as mulheres na eleição de 2018, mas seu apoio feminino entrou em colapso desde então.

Em maio, uma pesquisa Genial/Quaest dizia que Lula tinha apenas 4 pontos percentuais de vantagem entre os homens, mas 29 pontos percentuais entre as mulheres.

“Segundo pesquisa, as mulheres não votam em mim”, disse Bolsonaro em fevereiro. “A maioria vota na esquerda.”

Além do cansaço com comentários machistas, a gestão errática de Bolsonaro da pandemia de Covid-19 pode ter afastado as mulheres, disse Aragão. Pesquisas mostraram que as mulheres brasileiras consistentemente dão mais peso às questões relacionadas à saúde do que os homens, disse ele.

Além disso, em meio a escândalos o governo Bolsonaro tem perdido apoio entre os evangélicos, uma base fundamental que é principalmente feminina, acrescentou Aragão.

Em uma manifestação em frente à sede da Caixa na quarta-feira, alguns manifestantes disseram que o escândalo era normal no governo Bolsonaro.

“Não nos surprende ter vindo deste governo, dentro desta gestão casos tão graves”, disse a sindicalista Rachel Weber.

(Reportagem de Gram Slattery, no Rio de Janeiro, e Ricardo Brito, em Brasília; Reportagem adicional de Ueslei Marcelino, em Brasília)

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