Acostumada a tornar possível o impossível, será que Lindsey Vonn tentou ir longe demais? A estrela americana do esqui alpino fraturou a perna esquerda durante uma descida nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, no domingo (8), depois de já ter chegado à Itália com uma grave lesão no joelho.
. O que aconteceu?
O último desafio de Vonn, que aos 41 anos sonhava em incrementar seu vitorioso currículo com um segundo título olímpico, terminou com uma queda na neve em 13 segundos.
A pista Olimpia delle Tofane, uma de suas favoritas e onde venceu 12 vezes na Copa do Mundo, não foi um talismã dessa vez: a ‘Rainha da Velocidade’ perdeu o equilíbrio na segunda curva da descida, após tocar uma das bandeiras do percurso.
Ela caiu violentamente e seus esquis não se soltaram apesar do forte impacto.
Após uma longa intervenção dos serviços médicos na pista, a campeã olímpica de downhill nos Jogos Vancouver 2010 foi levada de helicóptero para o hospital de Cortina e, de lá, para outro hospital em Treviso, onde passou por uma “cirurgia ortopédica para consolidar a fratura da perna esquerda”, explicou o Hospital Ca’Foncello.
A imprensa italiana noticiou que Vonn foi submetida a uma segunda cirurgia na perna lesionada no domingo.
Para muitos, Vonn, considerada uma das melhores esquiadoras da história, simplesmente cometeu um erro na escolha de seu traçado.
“Há um pequeno erro técnico”, disse à AFP o francês Luc Alphand, vencedor da Copa do Mundo de 1997 e atualmente comentarista.
“No momento em que ela começa a subir, ele inclina um pouco os ombros (…) e como há um desnível, ela continua tentando esquiar e sobe direto em direção à bandeira. É aí que ela bate o braço na bandeira, é isso que a faz virar”, analisa Alphand.
“Como não há velocidade suficiente, os esquis não se soltam completamente (…) O efeito de alavanca dos esquis é enorme, eles têm 2,15 metros de comprimento e são pesados. Isso causa danos”, explica o francês.
. A lesão no joelho explica a queda?
Vonn havia sofrido outra queda grave nove dias antes, em Crans Montana (Suíça), onde rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, mas ela desde sempre pareceu convencida de que poderia participar dos Jogos Olímpicos.
O médico Bertrand Sonnery-Cottet, cirurgião-ortopedista consultado por inúmeros jogadores de futebol e outros atletas que sofreram essa lesão, não vê, “a priori”, nenhuma ligação entre o joelho lesionado e a causa da queda.
Ele também descarta a ideia de compensação para aliviar a lesão no joelho, em uma posição que teria levado a um eventual erro de trajetória.
“Então, pode-se legitimamente perguntar se a tala [que Vonn usou para estabilizar o joelho esquerdo] agravou a fratura ou impediu o agravamento das lesões ligamentares do joelho”, opina Sonnery-Cottet.
Apesar de não ter acesso ao histórico médico da atleta, ele descarta a ideia de que Vonn, que sofreu várias lesões no joelho ao longo de sua carreira e estava acostumada a lidar com esse tipo de problema, tenha sido mal aconselhada por seus médicos.
“É sempre o atleta que decide, plenamente consciente dos riscos de tal decisão. Ela tentou de tudo, mas isso prova que milagres e super-heróis não existem”, diz Sonnery-Cottet.
. Os esquiadores devem ser proibidos de assumir riscos tão grandes?
Com o caso de Vonn, alguns especialistas sugerem que um esquiador lesionado deve receber autorização de um médico independente antes de poder participar de uma competição.
Uma hipótese que o presidente da Federação Internacional de Esqui (FIS), Johan Eliasch, não considera: “É trágico, mas isso faz parte do esqui competitivo (…) As pessoas que dizem que ela não deveria ter competido hoje não conhecem a Lindsey”, disse o dirigente no domingo.
De volta mesmo após uma grave lesão na perna esquerda (fratura dupla da tíbia e fíbula), a italiana Federica Brignone resume o sentimento geral do mundo do esqui: “Ninguém pode dizer o que você deve fazer, é uma decisão que só uma pessoa deve tomar: o atleta”.
jr-jk/gk/ig/dr/mcd/cb/aa