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Ameaça de falência da centenária fabricante de guitarras Gibson expõe a atual falta de interesse pelo instrumento que já foi um ícone da rebeldia

Crédito: Kalamazoo Public Library Historical Photographs

A antiga fábrica da Gibson, em Michigan, (Crédito: Kalamazoo Public Library Historical Photographs)

ÍCONES Os guitarristas Jimmy Page e Slash (abaixo): representantes de um estilo de tocar que está fora de moda (Crédito:Divulgação)

Maior símbolo de incontáveis movimentos musicais nas últimas décadas, a guitarra elétrica está morrendo lentamente. Assim como seus maiores ídolos, os fãs das seis cordas estão envelhecendo e a nova geração simplesmente não se importa com o instrumento. A situação é tão grave que a Gibson, marca favorita de lendas como B.B. King, Jimmy Page (Led Zeppelin), Pete Townshend (The Who) e Slash (Guns n’ Roses) está à beira da falência. A decadência de popularidade também atingiu a rival Fender (famosa nas mãos de Jimi Hendrix e Eric Clapton) e de outras fabricantes. Na última década, as vendas caíram de 1,5 milhão de unidades por ano para menos de um milhão. A Guitar Center, maior cadeia americana de lojas do gênero, acumula dívidas de US$ 1,6 bilhão. As marcas tentam diversificar suas áreas de atuação, apostando em canais de vídeo, assinatura de aulas online e até em outros equipamentos de áudio.

No Brasil, a situação é parecida. Segundo dados da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima), desde 2012 as importações de guitarras ao Brasil diminuíram 78%. Os instrumentos que vem de fora representam 90% do segmento, incluindo marcas nacionais que produzem em outros países. O presidente da Anafima, Daniel Neves, acredita que vários fatores contribuem para esse declínio, como a variação do dólar e a crise econômica que atingiu o país. “Guitarra não é um item de primeira necessidade. Quem trabalha com o instrumento vai dar um jeito, vai comprar um usado, substituir alguns acessórios. Mas com a pessoa que toca por hobby a situação é diferente”, afirma.

Fora de moda

Fatores econômicos têm um papel importante nesse declínio, mas estão longe de contar a história toda. Segundo Daniel Neves, a venda de instrumentos sempre se pauta pelas tendências da indústria da música. Não à toa os violões associados ao sertanejo não enfrentam uma crise parecida. “Levando em conta a música que se faz hoje, essa falta de interesse na guitarra é bastante previsível”, diz Tony Bellotto, guitarrista dos Titãs. “O rock não representa mais uma música de protesto e questionamento adolescente”, afirma. Os heróis da guitarra, capazes de grandes feitos técnicos, saíram de moda, e nenhum novo ícone surgiu nos últimos anos. Mesmo assim, Bellotto é otimista. “O mundo muda, as coisas vão e voltam. Daqui a alguns anos estaremos aqui debatendo a volta da guitarra, vai por mim”.

Bryan Steffy

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