CARACAS, 21 JAN (ANSA) – Por Andrés Cañizález – Quase 20 dias após a captura de Nicolás Maduro pelas forças especiais americanas em Caracas, os venezuelanos quase não falam mais sobre o governante deposto.
Uma crise econômica parcialmente contida, mas que se manifesta em aumentos diários nos preços dos alimentos, somada à expectativa de melhora com a exploração de petróleo, são temas recorrentes em diferentes contextos sociais e familiares.
Em diversos cafés e padarias, as conversas que se ouvem atualmente costumam girar em torno das promessas de um renascimento do setor petrolífero.
“Trump anunciou o retorno em massa de empresas estrangeiras ao setor”, comentou um grupo de funcionários de um escritório, reunido em uma mesa compartilhada, referindo-se ao presidente dos Estados Unidos, que mantém uma espécie de tutela sobre o governo da Venezuela após a prisão de Maduro e seu comparecimento perante os tribunais de Nova York.
Especialistas estimam que esse retorno poderá envolver gigantes como Chevron, ExxonMobil e outras multinacionais europeias, que injetariam até US$ 20 bilhões nos primeiros dois anos, segundo projeções da Câmara Venezuelana do Petróleo.
O impacto potencial inclui a criação de milhares de empregos diretos nos campos da Faixa do Orinoco, o aumento da produção de petróleo bruto dos atuais 1,2 milhão de barris por dia para mais de 2 milhões até 2027 e a estabilização do fornecimento nacional de energia.
Em um país com uma longa história de economia baseada no petróleo, tudo isso é facilmente compreendido pelos venezuelanos. Mesmo aqueles que não trabalham diretamente na indústria de hidrocarbonetos esperam se beneficiar da produção de petróleo bruto.
Enquanto isso, nos lares, Maduro raramente é mencionado, pois o alto custo de vida domina as conversas familiares. Os preços de produtos essenciais, da farinha aos medicamentos, são atrelados ao dólar ou ao euro, o que significa que as flutuações diárias do mercado cambial local agravam a inflação.
“Comprar uma cesta básica para uma família de quatro pessoas custa o equivalente a US$ 600 por mês, mas nossa renda não chega nem a US$ 150 quando somamos o que eu ganho e o que meu marido ganha”, explica María López (nome fictício por medo de represálias), moradora de Petare, um dos bairros mais populosos de Caracas.
Essa situação obrigou muitos a reduzir o número de refeições, a acumular vários empregos ou a aceitar trabalhos temporários, como são conhecidos os empregos informais na Venezuela. Em 20% dos lares, as remessas enviadas por venezuelanos que emigraram também ajudam a aliviar a crise.
Antes de ser capturado, em 3 de janeiro, Maduro havia alertado que sua prisão desencadearia uma “grande greve geral” e o caos nacional. Nada disso aconteceu. As pessoas comuns, exaustas por anos de escassez e repressão, parecem ter seguido em frente.
“Maduro é passado”, disse um taxista no trânsito de Caracas.
Memes e deepfakes circulam nas redes sociais mostrando o ex-ditador da Venezuela usando um macacão laranja em uma prisão americana, mas verificações feitas por sites especializados confirmam que se tratam de criações de inteligência artificial.
Enquanto isso, na esfera política, a Assembleia Nacional unicameral, chefiada por Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina Delcy Rodríguez, tornou-se palco de intervenções díspares.
Por um lado, a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, é denunciada como um “sequestro”, mas sem ataques diretos a Trump. Por outro, o mesmo Parlamento se prepara para realizar uma reforma profunda das leis, incluindo a estratégica Lei dos Hidrocarbonetos, seguindo diretrizes de Washington.
Inicialmente, a partir de 5 de janeiro, apoiadores do chavismo realizaram marchas em Caracas, mas com baixa adesão, segundo observadores, sob os slogans “Maduro voltará” ou “Queremos eles de volta”. Nesta semana, porém, nenhuma dessas mobilizações ocorreu. De acordo com registros independentes, funcionários públicos costumam participar dessas marchas sob coação. Houve uma dessas manifestações na capital na quarta-feira, com poucos participantes.
Na prática, a vida segue na Venezuela sem Maduro. Crianças e adolescentes frequentam a escola, a indústria petrolífera se prepara para o que pode ser um salto qualitativo impulsionado por Trump, e o chavismo não boicotou a cooperação com os Estados Unidos, embora analistas apontem a existência de atritos e divergências internas, como demonstra o caso da lenta libertação de presos políticos, uma exigência central nas mensagens da Casa Branca.
Por ora, os ecos da prisão de Maduro e Flores estão se dissipando, embora a televisão estatal insista em destacá-los. O que se sussurra e se debate entre os venezuelanos é a incerteza sobre o futuro, já que não se sabe por quanto tempo Rodríguez permanecerá no poder como presidente interina, mas há esperança diante das expectativas de crescimento econômico. (ANSA).