Comportamento

Quanto mais caro melhor

Roupas e acessórios usados por ícones do esporte e da música inspiram a devoção de colecionadores dispostos a gastar milhares de reais por uma única peça

Crédito: Gabriel Reis

COLECIONADOR Tiago Borges é “sneakerhead”: mostrar as conquistas mais valiosas faz parte do hobby (Crédito: Gabriel Reis)

ÍCONE O rapper Kanye West, responsável por uma linha de roupas e tênis caros da Adidas: fãs se inspiram no visual milionário (Crédito:Divulgação)

Exibir itens raros e valiosos faz parte do hobby de colecionar. É uma maneira de comprovar não apenas o quanto o colecionador se dedica à atividade que escolheu como também as conquistas a que poucos têm acesso. Isso vale para discos, obras de arte, carros, charutos, vinhos… O que muita gente não sabe é que tênis, blusões, camisetas e outros itens associados à moda urbana podem custar tanto quanto qualquer um desses objetos de culto – e despertar a mesma devoção. Uma série de vídeos intitulada “Quanto custa o outfit”, do canal Hyped Content BR, no YouTube, escancarou esse mercado de preços estratosféricos e as pessoas que adoram ostentar o que têm e dizer o quanto foi pago por cada peça. A moda do “quanto mais caro melhor” tem revoltado muita gente que considera absurdo gastar milhares de reais em um cinto ou em uma jaqueta, ainda mais em um país tão desigual quanto o Brasil, onde a imensa maioria tem dificuldade para pagar as contas básicas e se vestir com luxo é um privilégio bastante questionável.

“Nunca imaginamos que o vídeo ia tomar essa dimensão. Pensamos que ele ficaria restrito às pessoas que fazem parte desse meio”, diz Fellipe Escudeiro, um dos responsáveis pelo canal. “Adotamos o formato propositalmente, como estratégia de marketing para chamar a atenção. Depois da polêmica, passamos a entender como ele pode parecer ofensivo para algumas pessoas. Mas nosso principal objetivo sempre foi documentar essa cena”, afirma ele. “Quem vê o vídeo pela primeira vez acha um absurdo. Mas é preciso entender que existe esse mercado”, diz Vera Sanovicz, professora de moda e identidade cultural da Anhembi Morumbi. “É um pouco como o iPhone. As pessoas gostam de tênis, de basquete, e acaba-se criando uma necessidade de ter novos modelos e edições limitadas”, diz ela.

Grandes ícones do esporte e da música ajudam a criar ainda mais demanda. O rapper Kanye West é uma das principais inspirações. Em geral, tudo o que leva seu nome acaba sendo vendido a peso de ouro. Ele desenhou tênis para a Nike antes de fechar um contrato com a Adidas que inclui calçados e vestuário. Além do próprio Michael Jordan, responsável por dar início à febre dos tênis quando usou seu Air Jordan pela primeira vez em 1984, outros jogadores, como Lebron James e Kobe Bryant, são referência. O próprio Neymar é um “sneakerhead”, como são conhecidos os fãs de tênis. Além de ter um modelo que leva seu nome (uma versão do Air Jordan 5), costuma aparecer com modelos exclusivos. Em um vídeo, vai às compras com a equipe do site Complex e gasta US$ 18 mil em calçados. Outros ícones admirados – e imitados – são Justin Bieber e Travis Scott.

Mercado paralelo

Como há uma demanda por modelos diferentes, as grandes marcas tiram proveito. As chamadas “colaborações”, geralmente feitas com celebridades ou com outras marcas famosas, costumam ser lançadas em edições limitadas e preços elevados. Não à toa, os chamados “hypebeats”, as pessoas que buscam as novidades da moda a qualquer custo, ficam horas ou dias em uma fila para conseguir um lançamento aguardado. Por isso, o mercado é movido também pelas revendas. É comum quem use uma peça apenas algumas vezes antes de passá-la adiante. Nessas transações paralelas, as roupas chegam a valores inacreditáveis. Um modelo disputado, como qualquer Air Yeezy desenhado por Kanye para a Nike, chega a ultrapassar a casa das dezenas de milhares de dólares. Para um jovem, calçar o mesmo modelo visto por jogadores de basquete e estrelas da música é uma grande vitória.

“Quem vê o vídeo ‘Quanto custa o outfit’ pela primeira vez acha um absurdo. Mas é preciso entender que existe esse mercado” Vera Sanovicz, professora de moda e identidade cultural

Parece incrível que um hobby tão caro e distante da realidade dos brasileiros tenha tantos seguidores. “Mostrar as conquistas faz parte, mas tem uma galera mais jovem que vê as peças só pelo valor”, diz Tiago Borges, colecionador que leva o hobby a sério. Colaborador do site Snkrcult e fã de Kanye West, ele conta como há alguns anos era possível encontrar pares de um tênis criado pelo rapper nas prateleiras, semanas após a chegada do modelo ao Brasil. Tiago acredita que a polêmica em torno dos vídeos tem pontos positivos e negativos. “É um pouco de ostentação, sim”, diz, sobre a exibição do preço de cada peça. “Mas tem uma galera que passou a correr atrás, conhecer as marcas. Há seis meses pouca gente de fora tinha ouvido falar de Supreme”. Para quem ainda não ouviu falar da marca, aqui vai um pequeno exemplo de quanto ela pode valer: R$ 86 mil é o preço de uma mochila da grife em colaboração com a Louis Vuitton.

 

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