Quantas histórias cabem na vida?

Timothy Fadek
EM CASA O escritor Paul Auster em Nova York: cenário de seus 18 livros sobre o papel do acaso Foto: Timothy Fadek

Os gregos adotavam o destino como dispositivo para movimentar a tragédia. A partir de Shakespeare, o drama humano ganhou nuanças inesperadas, uma mistura de comédia e tragédia que ele apelidou drama — e foi seguido nos 400 anos seguintes. A inovação do americano Paul Auster, de 71 anos, foi aplicar o acaso como motor de suas histórias. Poeta na juventude, ele somou a tradição shakespeariana à poesia francesa. Surgiu uma obra peculiar na ficção americana, diferente do habitual brutalismo realista. A escolha do acaso se deu desde seu primeiro livro de sucesso, “A Trilogia de Nova York” publicado em 1982. Depois vieram outras 16 narrativas sobre vidas abandonadas, a última delas, o romance “4321”, de 814 páginas, lançado pela Companhia das Letras com tradução de Rubens Figueiredo. A crítica exaltou o romance como a obra-prima de Auster — com razão. Ele conta a história de um homem que vive quatro destinos paralelos em uma vida. Para estes tempos incertos, o acaso pode substituir tanto a tragédia como o drama; ele é definitivo como a primeira — e duvidoso como o segundo.