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‘Quando eu baixei minha cabeça, ele falou: ‘Mãe, eu quero viver’

A professora de Educação Física Edina Maria Alves Borges, de 57 anos, abdicou da própria vida para cuidar do filho, José Humberto Pires de Campos, de 25. Em cadeira de rodas, ela depende da mãe para se alimentar, tomar banho e cuidar da higiene. Ela foi obrigada a deixar o trabalho e agora costura em casa para complementar a renda da aposentadoria, quase toda consumida com o tratamento dele.

O rapaz, que foi à Justiça para ter o direito de morrer, agora se apega à vida.

“Quero muito estudar e preciso de um computador para trabalhar em casa, ajudar minha mãe. Preciso fazer fisioterapia para manter o que eu ainda tenho de mobilidade. Aquelas ideias (de morrer) já são do passado”, disse.

A mãe, no entanto, lembra-se de cada detalhes, como contou à reportagem do jornal O Estado de S. Paulo.

Leia a narrativa dela a seguir:

“Depois de tudo aquilo houve um intervalo em que fugi da imprensa porque a situação estava muito séria e preferi me omitir. A Justiça só me deu a guarda parcial, em que eu não poderia interferir na decisão dele.

Ele continuou com as mesmas ideias e o mesmo objetivo. Ele fazia hemodiálise só duas horas, três vezes por semana, e foi perdendo a saúde, os problemas se agravando, acabou que ele ficou muito debilitado.

Um tempo ele chegou na clínica e falou que era vontade dele (morrer) e a clínica simplesmente cedeu. Com isso, a saúde ficou horrível, desmaiava, tinha pressão alta, vomitava a noite toda, eu 24 horas vigiando, então houve uma série de transtornos que eu não preferia lembrar. Na depressão, ele não tomava medicamento nenhum do terapeuta, do psicólogo, dos psiquiatras.

No último psiquiatra, eu falei: ‘Doutor, minha última salvação seria deixar ele testar os limites’. Ele respondeu que eu não teria outra escolha.

Então, eu mudei de comportamento, não totalmente, mas passei a não cobrar e deixei ele mais livre. Um belo dia, ele chegou na clínica, me desafiou, falou para a médica que não ia fazer mais hemodiálise, que poderia dispensar a vaga dele. Voltou para casa e ficou quatro dias aqui sem hemodiálise, e o médico me disse que ele não aguentaria cinco.

Nesse tempo, ele foi inchando, deformando, começou a ter alucinações. Eu liguei para o médico e perguntei: ‘Doutor, o que eu faço?’. Ele falou: ‘Não tem outra opção, ele vai morrer hoje à noite’. Ele me pediu que passasse o telefone para ele. Passei, ele estava alucinado, muito inchado, arrebentou estrias nos braços nas pernas. O médico disse a ele: ‘Então, faça um documento que sua mãe não tem o direito de te ressuscitar’.

Foi o que fiz. Chamei uma advogada, uma ambulância (do plano de saúde), assinei o documento, os médicos vieram juntos, não acreditaram no que estavam vendo. Fomos para o hospital, ele com o documento na mão. Ele foi para morrer. Armaram um apartamento e o colocaram lá. Era de manhã e passamos a tarde. Ele se despediu de todo mundo, como se fosse normal, mas a decisão dele estava persistindo.

Quando foi meia-noite, mais ou menos, o oxigênio começou a faltar, porque o contraste estava muito alto, começou a dar falta de ar, o médico mandou colocar tubo no nariz. Ele pediu para ser entubado e o médico falou: ‘Não compactuo com a sua ideia. Estou aqui para salvar vida. Se eu te entubar vou acelerar sua morte e não concordo com isso’.

E isso foi rolando noite adentro e eu assistindo ele morrer sem poder fazer nada, e o hospital também não, porque ele estava lá com o documento da advogada, assinado. Eu esperava ele desmaiar para que o médico conseguisse levar para a UTI (unidade de terapia intensiva) e tentar salvá-lo.

Ele não desmaiou. O batimento veio a 30, o oxigênio faltando no cérebro, ele falava que a cabeça estava queimando, o pessoal da enfermaria veio me apoiar, tudo, mas ninguém podia levar para a UTI, porque ele não aceitava a hemodiálise.

Passou um tempo, quando ele estava sofrendo muito, eu nem sei se eu existia, se eu estava lá dentro daquele quarto, não sei, é uma imagem que vai me marcar para o resto da vida. O médico disse que não ia fazer nada caso ele não desmaiasse, porque ele estava com o documento e estava lá decidido, mas ele não perdia o sentido.

Quando eu baixei minha cabeça, porque eu não aguentava assistir, foi quando ele falou: ‘Mãe, eu quero fazer hemodiálise, eu quero viver’.

Aí levaram ele, mas já era um pouco tarde. Ele ficou onze dias na UTI, nove dias em coma, um pouco induzido, teve duas paradas (cardíacas) aí teve sequela no coração, o ventrículo foi dilatado, e é por isso que hoje ele não pode fazer o transplante.

Nunca mais, depois que ele voltou do coma falou a mesma frase que ele dizia antes. Não sei o que aconteceu naquela UTI porque em duas vezes que eu fui para visitar, uma delas era ele morrendo. Ele morreu duas vezes e voltou. Então, Deus deve ter um propósito e é por isso que ele está aqui.

Hoje, ele quer, porque quer voltar a viver, sofre porque perdeu parte dos pés na pós-neuropatia, de tanta toxina no organismo, perdeu o movimento da mão. Mas hoje ele é uma pessoa totalmente transformada. O que aconteceu no cérebro durante o coma, o que muitos comentam, se ele foi para o outro lado, eu não sei, mas ele voltou totalmente mudado.

Na idade dele, é meio cético, mas é muito inteligente, muito bom de conviver. Agora, por ele estar assim, ele exige um pouco mais, mas eu brigo um pouco mais também, não deixo ele me dominar.

Ele quer viver, mas é difícil arrumar trabalho. Ele foi convidado para fazer o transplante, mas foi recusado, principalmente pelo histórico judicial, ninguém quis se arriscar. O coração dele foi muito danificado.

Deus o trouxe de volta. Ele não é religioso (se diz ateu), mas pelo menos ele não me critica pela minha fé mais. Os médicos falaram que ele podia sofrer um dano cerebral, mas o cérebro dele voltou até melhor. A mente dele é fértil, mas o corpo não acompanha o cérebro.

Eu o vejo sofrendo agora justamente por não poder ser quem é, não poder usar na prática o que tem dentro da cabeça. Ele pesquisa, analisa a política, a ciência, a parte social. Hoje, ele está sofrendo pelas escolhas que fez, mas não reclama. O único lamento dele é estar morando no Brasil, pois gostaria de voltar para os Estados Unidos, mas não pode voltar agora.

O que o José Humberto quer hoje é voltar a viver. Uma das coisas que ele mais gosta é de jogos online. O computador que era meu e ele usava teve um problema de placa, não compensa arrumar. Agora, o dinheiro tem que ir para a farmácia, ele toma de 10 a 12 medicamentos por dia.

Ele quer me ajudar com a parte financeira, com o dia a dia. Já pediu para o tio conseguir um trabalho de escritório, alguma coisa que ele possa fazer. Ele sai daqui de manhã, vai para a hemodiálise, vai para a fisioterapia e assim vai o dia. O pessoal da clínica é muito bom. Fez órtese, faz esteira, fazem massagem. As fisioterapeutas são jovens, muito animadas e otimistas, acabam motivando ele.

Hoje, ele quer voltar a viver, quer estudar, quer sair. No fim de semana, os amigos o levam para a piscina, onde ele tem alguns movimentos. Esses amigos de infância não se importam com a condição dele, levam para o shopping, para ver um filme. Às vezes, ele se acha incapaz de se relacionar.

Quando o juiz me chamou de egoísta, que eu tinha que dar o direito (de morrer) a ele, eu fiz a pergunta: e se ele, no último minuto, se arrependesse e dissesse para mim ‘Mãe, eu quero viver’, e não tivesse mais tempo? Como eu viveria depois, senhor? Foi o que aconteceu. Eu o deixei chegar no seu limite e, no último minuto, ele disse: ‘Mãe, eu quero viver’.

É esse drama aí, tudo o que ocorreu desde 2017 até hoje. Houve muitas sequelas, a avó, as tias, eu envelheci uns bons anos, afetou todo mundo, mas, enfim, valeu a pena. Ele está vivo, está bem, estamos aqui juntos.”