Quais os rumos da corrida entre EUA e China pela IA em 2026?

Quais os rumos da corrida entre EUA e China pela IA em 2026?

"AAmericanos ainda dominam as fronteiras da inteligência artificial, mas a China se mantém competitiva com modelos mais baratos e populares, além de planejar uma economia baseada em IA.Há um ano, nesta mesma semana, o Vale do Silício e Wall Street foram tomados de surpresa pelo lançamento do aplicativo chinês DeepSeek , que rivalizava com os grandes modelos de linguagem americanos, como o ChatGPT, apresentando desempenho comparável em critérios importantes a uma fração do custo, mesmo utilizando chips menos avançados.

O DeepSeek abriu um novo capítulo na rivalidade entre EUA e China, com o mundo reconhecendo a competitividade dos modelos de inteligência artificial (IA) chineses e Pequim investindo mais recursos no desenvolvimento de seu próprio ecossistema de IA.

Em seu plano de ação para IA, divulgado meses após o surgimento do DeepSeek, o governo do presidente americano Donald Trump expôs sua aposta em termos claros: "Os Estados Unidos estão em uma corrida para alcançar a dominância global em inteligência artificial."

A estratégia, intitulada "Vencendo a corrida: Plano de Ação de IA dos EUA", pedia a eliminação de barreiras regulatórias que supostamente dificultam a inovação e o aproveitamento do domínio tecnológico americano em todo o mundo.

Washington disse a todos os países "dispostos a se juntar à aliança de IA" americana que os EUA devem começar "exportando todo o seu conjunto de tecnologia de IA", que inclui "hardware, modelos, software, aplicativos e padrões" para "impedir que rivais estratégicos tornem nossos aliados dependentes de tecnologia estrangeira adversária", em uma referência velada à China.

Quase ao mesmo tempo, Pequim publicou seu "Plano de Ação Global de Governança de IA", em um tom menos conflituoso, pedindo a criação de um ecossistema de IA "diversificado, aberto e inovador" que aproveitaria totalmente o papel de "múltiplas partes interessadas" e "promoveria conjuntamente intercâmbios e diálogos internacionais sobre governança de IA".

"A China está definitivamente se posicionando retoricamente como uma líder global multilateral, aberta e focada no desenvolvimento", afirmou Scott Singer, pesquisador do Programa de Tecnologia e Assuntos Internacionais da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, à DW.

"O posicionamento geopolítico da China em relação à IA é anterior ao governo [do presidente dos EUA, Donald] Trump, mas ressoa cada vez mais com o público global, com o foco do governo Trump na dominância da IA e na priorização dos Estados Unidos", acrescentou.

"A China estaria buscando uma estratégia de dominância da IA? Certamente não. Ela vai aproveitar a oportunidade para preencher as lacunas deixadas pelos EUA ao se retirarem de muitos espaços na ordem internacional", disse Singer, que estuda o desenvolvimento e governança global da IA, com foco na China.

EUA dominam a computação

Apesar da popularidade do DeepSeek e de outros modelos de linguagem complexos chineses (large-language-models, ou LLMs), que se comparam em capacidade com o OpenAI ou o Gemini em tarefas simples como criação de texto, tradução e execução de chatbots, os gigantes da tecnologia sediados nos EUA devem continuar dominando o poder computacional necessário para treinar modelos de IA de ponta.

Os chips de IA mais avançados são produzidos pela Nvidia, sediada no Vale do Silício, e os EUA estão atualmente muito à frente da China na expansão de data centers.

A China possui um vasto conjunto de talentos em IA, enormes quantidades de dados e recursos energéticos, mas carece dos chips de alta tecnologia necessários para o poder computacional. Os controles de exportação dos EUA sobre chips de IA avançados e kits semicondutores mantiveram essa vantagem.

A série Ascend da Huawei é indiscutivelmente a família de chips de IA mais avançada da China. Ela inclui modelos como o Ascend 910, que, segundo testes da DeepSeek, possui 60% do desempenho dos chips H100 mais antigos da Nvidia na execução de geração de texto, resposta a consultas de chatbots ou classificação de imagens.

No entanto, os chips chineses ainda ficam muito aquém na tarefa mais exigente de treinamento de modelos ou desenvolvimento de ecossistemas. A Huawei também não consegue produzir tantos chips quanto a Nvidia, portanto, agrupá-los para melhorar o desempenho se torna mais difícil e caro.

Em dezembro de 2025, o governo Trump anunciou uma grande mudança, permitindo a venda da série H200 da Nvidia para compradores chineses selecionados em troca de uma porcentagem das vendas.

Ao reter os chips Blackwell e Rubin mais avançados da Nvidia, o governo Trump aposta que pode manter a liderança enquanto incentiva a China a desenvolver uma dependência de tecnologias americanas mais antigas. Os críticos, no entanto, alertam que o H200 ainda é altamente capaz e pode corroer a atual vantagem dos EUA na computação.

Empresas chinesas como Alibaba, Tencent e ByteDance já encomendaram mais de 2 milhões de chips H200, com um valor estimado em mais de 50 bilhões de dólares (RS 313 bilhões).

No entanto, até o momento, os chips estão bloqueados na China. Na semana passada, a agência de notícias Reuters informou que funcionários da alfândega chinesa receberam instruções para dizer às empresas chinesas para não comprarem os chips. Não está claro por quanto tempo os chips ficarão bloqueados, ou se isso equivale a uma proibição formal.

Empresas chinesas adotam o código aberto

A liderança chinesa está priorizando a busca pela autossuficiência em semicondutores.

Mas mesmo sem os chips mais avançados, a IA chinesa considerada "boa o suficiente" está decolando, com modelos chineses de modelo open weight como DeepSeek, Moonshot AI e Qwen, da Alibaba, permitindo que os desenvolvedores lancem aplicativos de IA a um custo menor e com menos barreiras.

O termo open weight significa que os parâmetros, conhecidos como "pesos" (weight, em inglês), são públicos, permitindo que os desenvolvedores ajustem os modelos de forma eficiente para tarefas específicas, seja para gerar código ou resumir relatórios.

A família de modelos Qwen, da Alibaba, é atualmente o modelo de código aberto mais baixado em todo o mundo, com cerca de 700 milhões de downloads, de acordo com dados da plataforma de colaboração em IA Hugging Face, com sede nos EUA, divulgados pela agência de notícias chinesa Xinhua. Isso superou a família de open weight da Meta, a LLaMA.

Segundo a equipe do Qwen, a Alibaba tornou público o código de quase 400 modelos Qwen, que "geraram mais de 180 mil versões derivadas". Em seu discurso de Ano Novo, o presidente chinês, Xi Jinping, afirmou que, em 2025, a tecnologia chinesa "alcançou novos patamares".

"Muitos dos grandes modelos de IA têm competido numa corrida pela liderança, e avanços significativos foram alcançados na pesquisa e desenvolvimento de nossos próprios chips", disse Xi.

Um relatório do Centro Nacional de Padrões e Inovação em IA dos EUA destacou a importância de modelos abertos "fundamentados em valores americanos", observando que "modelos de open source (código aberto) e de open weight podem se tornar padrões globais em algumas áreas de negócios e em pesquisa acadêmica" e que o governo deveria "criar um ambiente favorável para modelos abertos".

Ao mesmo tempo, alertou sobre as "deficiências de segurança e censura" encontradas em modelos chineses populares como o DeepSeek, que "podem representar um risco para desenvolvedores de aplicativos, consumidores e para a segurança nacional dos EUA".

"Grande parte da corrida pela difusão da IA dependerá da comercialização. O quanto os desenvolvedores podem construir em cima do seu produto e o quanto os consumidores gostam de usá-lo moldará a corrida pela adoção da IA", disse Singer.

China analisa aplicações de IA no mundo real

O sucesso dos LLMs chineses impulsionou a ambição de Pequim em relação a uma implementação doméstica de IA que prioriza aplicações no mundo real, como robótica e manufatura.

Em 2026, a China planeja avançar na implementação da iniciativa "AI Plus", que visa incorporar a IA em vários setores, como indústria, serviços, saúde e governança, como parte da modernização econômica. O plano de ação de longo prazo prevê uma sociedade "totalmente impulsionada por IA" até 2035.

"Os EUA e a China estão fazendo apostas fundamentalmente diferentes em toda a cadeia de IA", disse Singer.

"As empresas americanas estão liderando a corrida para ampliar as capacidades de software e automatizar muitas tarefas que podem ser feitas em um computador. A China, no entanto, está investindo substancialmente em robótica impulsionada por IA", afirmou.

"Integrar a IA ao mundo físico é a essência da política de IA da China, pois há uma crença de que ela resolverá os desafios e problemas atuais. A robótica com IA é uma área em que a China parece estar à frente de seus pares ocidentais", disse Singer, acrescentando que os graves problemas econômicos da China, como o desemprego entre os mais jovens e a fraca demanda do consumidor, impulsionam os formuladores de políticas.

Existe uma linha de chegada?

Ao analisarmos o cenário geral da IA em 2026, as limitações para o desenvolvimento de modelos de aprendizagem de longo prazo (LLMs), como disponibilidade de energia e prazos de construção de data centers, podem determinar o ritmo de desenvolvimento e adoção de novos modelos de IA nos EUA, assim como o fato de a China continuar ficando para trás no desenvolvimento de seu próprio ecossistema de chips.

À medida que as prioridades dos EUA e da China para o avanço da IA divergem, o que pode surgir no futuro é a dominância de nichos específicos de IA por ambos os países, em vez de um único país dominando o cenário global como um todo.

"Essa parece ser a tendência. Os EUA têm uma clara vantagem em chips de IA, embora a China esteja alcançando em LLM e esteja prestes a ultrapassar em certas áreas de governança de IA", afirmou Xiaomeng Lu, diretora de Geotecnologia da consultoria de risco político Eurasia Group, com sede nos EUA.

A China está determinada a continuar se posicionando em defesa de um ecossistema de IA "diversificado, aberto e inovador".

"Esse é o nosso cenário base para 2026. Enquanto o modelo de open source da China permanecer bem próximo dos principais modelos dos EUA em termos de capacidades, essa é a provável abordagem do governo chinês para a governança de IA", pontua Xiaomeng.

Singer destaca que a experiência prática nos polos tecnológicos chineses e americanos permite compreender o ambiente atual em relação à IA.

"A grande diferença reside na atmosfera do ecossistema. Ao visitar o Vale do Silício, é impossível não perceber a crença de que a expansão contínua das capacidades dos modelos de base mais avançados trará efeitos transformadores para a forma como agimos como sociedade, podendo gerar enormes benefícios geopolíticos."

"Em contrapartida, na China, em Pequim, Xangai, Shenzhen e Zhejiang, regiões onde a tecnologia está sendo desenvolvida, observamos muito mais entusiasmo e energia em torno do uso da IA como ela é hoje", completou.