Internacional

Putin banca a ditadura na Bielorrússia

Com a reação crescente contra eleições fraudadas, o ditador Aleksandr Lukashenko se escora no apoio financeiro e militar do presidente russo

Crédito: Vasily Fedosenko

POLÍCIA O agente ficou assustado com o estado do manifestante após a agressão: violência atroz (Crédito: Vasily Fedosenko)

JUNTOS Vladimir Putin vai proteger seu aliado Aleksandr Lukashenko: aliança a qualquer custo (Crédito:Grigory Sysoev)

O agravamento da crise na Bielorrúsia está servindo de pretexto para o presidente russo Vladimir Putin ampliar sua influência na antiga nação soviética. O país europeu está em convulsão desde a reeleição de Lukashenko, presidente que o dirige com mão de ferro desde 1994. Autocrata no velho estilo, ele proíbe a liberdade de expressão, impede o funcionamento de instituições democráticas, prende e tortura indiscriminadamente opositores e frauda eleições para se eternizar no poder. Foi o que aconteceu no último dia 9. Os líderes europeus criticaram, os Estados Unidos se calaram, mas o líder russo não perdeu a oportunidade de defender o ditador.

A aliança entre Moscou e o presidente Lukashenko é indissolúvel. Com o avanço da crise nos últimos dias, Putin reafirmou que vai cumprir todas as suas obrigações e contratos, além de garantir a proteção bélica a Lukashenko. Não manifestou preocupação com as denúncias de tortura e a extrema agressividade da polícia contra os manifestantes. Putin age porque a Bielorrússia serve como anteparo entre a União Europeia — leia-se a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) — e a Rússia. Além disso, mais de 60% das exportações da Bielorrússia vão para Moscou, e 40% das importações vêm lá. O principal item comercializado é o petróleo, que os russos vendem na forma bruta, subsidiada, e compram os produtos refinados da Bielorrússia. Há um importante sistema de oleoduto e gasoduto ligando as duas nações.

MULTIDÃO Mais de 200 mil pessoas protestaram contra o presidente: os ânimos estão acirrados (Crédito:Michal Cizek / AFP)

Interesse russo

“A Rússia tem interesses políticos e econômicos na região, Putin sabe como manter seus aliados”, diz Carolina Pavese, professora de Relações Internacionais da Escola de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM). E as formas são no velho estilo soviético. O Kremlin já enviou 3.500 soldados para a fronteira, a fim de mostrar força diante da União Europeia e dos EUA. Pela reação europeia até o momento, ninguém deve se preocupar. “O bloco europeu privilegia a diplomacia, não vai intervir pela força”, diz Pavese. Durante anos, a União Europeia não se preocupou com a questão da Bielorússia, seu governo autoritário e a parceria estratégica com Moscou. O consumo europeu de gás (40%) e petróleo (30%) vem da região.

O país, que alcançou sua independência em 1991, nunca teve outra figura no comando. Lukashenko surgiu como principal liderança nacional. Sagrou-se vitorioso desde o primeiro pleito, em 1994. De lá pra cá, são 26 anos ininterruptos no cargo ditatorialmente. Ele bateu nas eleições Svetlana Tikhanovskaya, dona de casa, casada com o seu principal oponente político, um blogueiro, preso na campanha eleitoral. Ameaçada, ela precisou se exilar na vizinha Lituânia.

Mesmo fora do país, ela conseguiu atrair protestos populares, que reuniram 200 mil manifestantes nas ruas até a Praça da Independência, na capital Minsk, com a palavra de ordem: “renuncie!” Diante da reação violenta da polícia, mais de 2.700 pessoas foram presas e duas morreram. Não há sinal, por enquanto, de solução negociada. O ditador se sente fortalecido pelo apoio do Kremlin. Foi o que expressou aos populares em uma visita na segunda-feira, 17, a uma fábrica de tratores: “Não sou santo. Vocês conhecem meu lado duro. Nunca farei algo sob pressão. Até que me matem, não haverá eleições”. Por enquanto, infelizmente, não há força interna ou internacional que o ameace. Ele se sente protegido pelo presidente russo, que pretende não apenas manter um aliado na base da força, mas também mandar um recado interno à oposição em seu país.

Ditador se sente fortalecido pelo apoio do Kremlin. Por enquanto, não há força que o ameace

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