Como o PT explora a operação da PF contra Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro

Suspeito de receber vantagens financeiras do Banco Master, senador já apoiou Lula em eleições anteriores

Senador Ciro Nogueira (PP-PI), alvo de operação da PF pelo caso Master
Senador Ciro Nogueira (PP-PI), alvo de operação da PF pelo caso Master Foto: Carlos Moura/Agência Senado

O mandado de busca e apreensão da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) por suspeita de receber vantagens financeiras em troca de atuação parlamentar favorável ao liquidado Banco Master levou a investigação de vez ao centro do poder brasileiro e tem sido explorado de diferentes formas pela base do governo Lula (PT) com as eleições presidenciais de outubro à vista.

Por outro lado, o grupo do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), de quem Nogueira é aliado, tem mantido postura distante e trabalhado para manter o escândalo associado ao STF (Supremo Tribunal Federal) e aproximá-lo do petismo.

Ciro Nogueira e o escândalo do Master

  • Conforme a decisão judicial do ministro do STF André Mendonça que autorizou a operação na quinta-feira, 7, Nogueira tornou-se o “destinatário central das vantagens indevidas” proporcionadas pelo Master em troca de atuar a favor do banco e de seu proprietário, Daniel Vorcaro, no Senado. 
  • Em agosto de 2024, o presidente do PP apresentou uma emenda à PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de autonomia financeira do Banco Central para aumentar o valor coberto pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil por CPF para R$ 1 milhão.
  • A cobertura do FGC era uma das principais estratégias do Master para alavancar os investimentos em seus CDBs (Certificados de Depósitos Bancários). A emenda não foi aprovada e a empresa de Vorcaro foi liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025, quando o banqueiro foi preso pela 1ª vez.
  • Segundo os policiais federais, a emenda foi redigida pela assessoria do banco e entregue a Nogueira. “Também há notícia de circulação, a partir de sua residência, de minutas de outros projetos legislativos do interesse particular”, acrescentou a decisão judicial.
  • De acordo com as investigações, o senador recebia repasses mensais de R$ 300 mil do banqueiro por intermédio de uma pessoa jurídica.
  • Vorcaro também disponibilizou um imóvel de alto padrão por tempo indeterminado para o parlamentar, sem cobrar por isso, e pagou hospedagens, deslocamentos e outras despesas de Nogueira durante viagens internacionais.
  • Em nota, os advogados do senador afirmaram que a operação se baseou em “mera troca de mensagens” negaram “qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados” por parte do cliente.

As reações no governo Lula e no PT

  • Guilherme Boulos (PSOL), ministro da Secretaria-Geral da Presidência:

  • Paulo Teixeira (PT-SP), deputado federal e ex-ministro do Desenvolvimento Agrário de Lula

  • A estratégia mais usada pelos governistas é associar Nogueira a Flávio. Ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro (PL), o senador tornou-se a mais sólida ponte do bolsonarismo com o chamado “centrão” e, em entrevista concedida pelo atual presidenciável, foi citado como possível candidato a vice-presidente em sua chapa — arranjo que ficou distante antes mesmo da ação da PF.
  • A artilharia, no entanto, se concentrou em lideranças consideradas mais “ideológicas” e que se engajam em temas discutidos no Congresso para atacar a oposição, além de influenciadores digitais que o PT escalou como pré-candidatos ao Legislativo pelo voto dos mais jovens, em maioria refratários a Lula.
  • Nomes com maior densidade política e representatividade do governo, como os ex-ministros Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann, evitaram comentar o caso. No núcleo mais forte da direita, por sua vez, também não houve grandes esforços públicos para acudir o senador.
  • Conforme reportou o jornal Folha de S. Paulo, o Palácio do Planalto decidiu poupar Nogueira de ataques diretos num primeiro momento. Mesmo sendo opositor, o senador é influente no “centrão” e, alinhado ao grupo, já se aliou a Lula em momentos anteriores, como mostrou a IstoÉ.
  • Além do histórico de associação ao petismo, o alvo da PF reduziu os ataques ao presidente e chegou a ter um encontro não registrado com ele no fim de 2025, como revelou o mesmo jornal. Na ocasião, propôs um acordo para afastar o PP de Flávio em favor da própria campanha à reeleição no Piauí, reduto eleitoral do PT.
  • O deputado federal Nilto Tatto (PT-SP) afirmou que a hora é de aproveitar a operação contra Ciro não por uma tática eleitoral, mas para “jogar luz sobre o ‘BolsoMaster'”, termo utilizado pelos petistas para associar o banco de Daniel Vorcaro ao governo do ex-presidente.
  • Todos sabem que esse escândalo começou no governo Bolsonaro, envolveu seu principal ministro. É importante que isso esclareça para mostrar que o ‘centrão’ e a extrema-direita estão envolvidos”, disse à IstoÉ.