Lideranças do PT e ministros de Estado têm apostado na insistência pública para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, concorra novamente ao governo de São Paulo nas eleições de 2026.
A estratégia reflete a percepção de que ter um palanque competitivo no maior colégio eleitoral do país é fundamental para o plano de reeleição do presidente Lula (PT).
Do outro lado, o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) a um novo mandato no Palácio dos Bandeirantes organiza a oposição federal em território paulista e ajuda a explicar a hesitação de Haddad.
Definição tardia repete eleição passada, mas cenário era outro
Em fevereiro de 2022, Haddad liderou as intenções de voto em cenários testados pelo Ipespe para o governo de São Paulo contra o então vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB, que assumiria o governo em abril, com a renúncia de João Doria, e concorreria à reeleição), Tarcísio (na época ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro), Márcio França (PSB) e Guilherme Boulos (PSOL).
No pior cenário, o petista apareceu empatado com Geraldo Alckmin, que pouco depois se filiaria ao PSB para se eleger vice-presidente na chapa de Lula, como contou o estrategista Felipe Soutello, idealizador desta chapa, ao programa Como Ganhar uma Eleição.
Diante da boa condição demonstrada pelas pesquisas e da ausência de nomes mais competitivos no campo da direita — Tarcísio participava de sua primeira campanha eleitoral –, o ex-prefeito da capital paulista abraçou a candidatura munido pela perspectiva de colocar o PT no Palácio dos Bandeirantes pela primeira vez.
Seu nome foi oficializado pelo partido, no entanto, apenas em julho. No intervalo, o palanque paulista de Lula foi unificado com Boulos e França deixando a corrida pelo governo. O primeiro negociou o apoio do PT a sua candidatura à prefeitura da capital paulista, dois anos depois, e o segundo foi lançado candidato ao Senado na chapa.
Haddad manteve a dianteira nas pesquisas até o primeiro turno, mas qualificou-se para o segundo em desvantagem contra Tarcísio e não se elegeu. Apesar disso, os 10,9 milhões de votos recebidos nessa votação (contra 13,4 milhões do governador) e sua vitória na capital paulista ainda são classificados por aliados, analistas e cientistas políticos como cruciais para a vitória de Lula.
O petista foi eleito com pouco mais de 2 milhões de votos de vantagem sobre Bolsonaro. Ele teve mais votos do que o antecessor na cidade de São Paulo e, apesar da derrota no estado, recebeu 4,3 milhões de votos a mais do que o próprio Haddad nas eleições presidenciais de 2018, quando saiu derrotado.
“O estado tem muitos eleitores com menor identificação partidária, que oscilam a cada eleição. Eles foram decisivos em 2022 e devem ser novamente neste ano”, explicou à IstoÉ a cientista política Karolina Roeder, professora da Uninter-PR. “Em um cenário acirrado, mesmo com baixas chances de vitória, ter um candidato competitivo ao governo é fundamental para atrair essa fatia à candidatura de Lula“.
Favoritismo de Tarcísio é obstáculo
Tarcísio começa o ano eleitoral de 2026 com bons índices de aprovação no governo paulista, liderando as pesquisas de intenção de voto para renovar o mandato e em condição de atrair setores externos ao bolsonarismo, como PSDB, MDB e União Brasil — que na eleição passada estavam ao lado de Rodrigo Garcia — para seu palanque.
Neste cenário, Haddad hesita. Publicamente, o ministro promete trabalhar pela reeleição de Lula, mas diz que não disputará a eleição. Correligionários atribuem o desejo ao receio de um terceiro revés consecutivo nas urnas — além das eleições para governador e presidente, ele foi derrotado ao tentar se reeleger prefeito de São Paulo, em 2016.
No último final de semana, em entrevista ao jornal O Globo, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), disse que o colega “não pode se dar ao luxo de tomar uma decisão individual” e classificou a candidatura como “missão”. Influentes no PT, a ministra Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais, e o deputado Lindbergh Farias (RJ) deram declarações recentes na mesma linha. Mais ameno, o presidente diz torcer para que Haddad concorra, mas deixa a decisão a cargo do ministro.

Camilo Santana: em entrevista, ministro da Educação pressionou Haddad a topar candidatura
Petistas diagnosticam que, ainda que não derrote Tarcísio, o chefe da Fazenda é a alternativa mais competitiva para enfrentá-lo. “Seria muito importante ter Haddad candidato, para o PT de São Paulo e para a reeleição de Lula. É o nome que mais aglutina apoios”, disse à IstoÉ o deputado estadual Paulo Fiorilo (PT-SP).
Na cúpula estadual da sigla, uma pesquisa interna mostrou que, para se opor ao atual governador, a chapa mais competitiva do campo teria de incluir Haddad, Alckmin e as ministras do Planejamento, Simone Tebet (MDB), e do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), conforme revelou o jornal Folha de S. Paulo.
Alckmin e Haddad, porém, não pretendem pedir votos aos paulistas. Já Tebet teria de mudar de legenda e estado para concorrer — a ex-senadora é do Mato Grosso do Sul e, em São Paulo, o MDB apoia Tarcísio — e Marina, em momento de conflito com a Rede, migrar para PT ou PSB, partido que já convidou ambas.
Além da negociação com as ministras, os socialistas trabalham para emplacar Márcio França ao governo, em chapa que reduziria o espaço do petismo. “O trabalho do PSB é para juntar os melhores nomes possíveis. Não há melhor nome do que Alckmin para ser novamente vice-presidente. Para o governo, temos o ministro Márcio França, que por muito pouco não ganhou a eleição do João Doria [em 2018] e é pré-candidato”, disse a deputada federal Tabata Amaral (SP), em entrevista à IstoÉ.
“O PT é um partido hegemônico e, naturalmente, busca apresentar candidaturas majoritárias. Mas tivemos experiências de apoio a outros partidos que não foram traumáticas, como no caso de Boulos em São Paulo, em que nossa bancada [de vereadores] se manteve”, disse Paulo Fiorilo. “O plano A é Haddad, mas a prioridade é ter uma chapa forte“, concluiu o deputado, citando Tebet e França como alternativas ao ministro.