O fator psicológico sempre foi usado no esporte como um dos principais fatores para se atingir o objetivo de cada modalidade. Assim como a preparação física e técnica necessária, a parte mental é vista como pilar do atleta, principalmente na elite do esporte, como nas Olimpíadas.
No entanto, a falta de conhecimento e até mesmo o prejulgamento de atletas que apresentam o mínimo de vulnerabilidade emocional não contribuí na evolução dos competidores.
Um dos casos mais conhecidos é o de Simone Biles que em meio à Olimpíada no Japão escolheu cuidar da sua saúde mental em vez de se arriscar nas disputadas da ginástica artística. Por esse lado, Carla Di Pierro, psicóloga do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), entende bastante do assunto.
“O ambiente do esporte é um local onde se espera que o atleta dê conta de tudo, seja o herói, que ele enfrente qualquer dificuldade. Então, existe uma dificuldade e um estigma de falar sobre o esgotamento mental. Quando o atleta tem dificuldade de pedir ajuda, ele fica ainda mais cercado, preso e sozinho”, ressalta a profissional.
Por isso, Di Pierro alerta para importância do conhecimento sobre o tema saúde mental e de que há um caminho para o atleta conseguir superar um quadro negativo na parte psicológica.
“Falar sobre a saúde mental no esporte é dar informações e espaço para os atletas conheceram mais o tema. O mais importante de todos saberem é que qualquer quadro de saúde mental tem um acompanhamento e tratamento. O atleta pode pedir ajuda, se recuperar e voltar em alto nível”, explica.

Prevenção
Durante os Jogos de Tóquio, Carla já havia deixado claro que na sua visão que as Olimpíada na capital japonesa seriam os “jogos da saúde mental”. Para se entender a complexidade do tema, Di Pierro atendeu atletas como o nadador Bruno Fratus, medalha de bronze em Tóquio, e a nadadora Ana Marcela, campeã olímpica nas águas japonesas.
“Primeiro nosso trabalho é prevenir que isso [desgaste] aconteça. Então, nossa função está muito antes do problema ocorrer, criando um ambiente saudável, estabelecendo boas relações com os treinadores e com a comissão técnica”, afirma.
Mesmo com foco da prevenção, Di Pierro lembra que o esporte tem por característica alguns estressores específicos.
“As dores, lesões, cirurgias são estressores na vida do atleta, além de ansiedade competitiva, cobrança por resultados, medo de falhar, queda de desempenho e perfil perfeccionista. Outros fatores importantes que também impactam são assédio moral e abuso psicológico”, ressalta a triatleta.

Sinais de desgaste
Como forma de identificar alguma complicação na saúde mental, Carla afirma que utiliza três formas: observação do atleta, relato do atleta e aplicação de questionários de saúde mental. Indícios de apatia, desmotivação e ansiedade também são considerados.
“Isso tudo são sinais de que esse atleta está com desgaste emocional, além de transtornos alimentares, uso e abuso de substâncias como o álcool são todas questões que sinalizam para gente”, detalha.
“Os sinais geralmente são esses, mas de atleta para atleta pode se apresentar de um jeito diferente. Em alguns aparecem mais com ansiedade, já com outros mais depressão e falta de motivação. Porém, geralmente tem um desconforto emocional”, completa.
Dispensa de Ana Cristina
Um caso recente que causou bastante repercussão foi o da jovem Ana Cristina. Convocada para o mundial pela seleção brasileira de vôlei feminina, a jovem pediu dispensa, alegando prioridade nos cuidados com sua saúde mental. No entanto, a jogadora, de 18 anos, se posicionou somente semanas depois do pedido. Com isso, ela foi julgada e recebeu críticas nas redes sociais.

“A rotina do atleta foi sempre a mesma, muita dedicação, privação, mas atualmente tem uma novidade que são as redes sociais. Nesse sentido, o atleta está mais vulnerável a todos os tipos de comentários e estímulos. Isso pode ser um fator agravante se tiver alguma vulnerabilidade mental”, alertou Carla.
Presente também nos Jogos do Rio-2016, Di Pierro destacou que o COB possui uma área só de preparação mental e psicologia do esporte, onde qualquer treinador e atleta olímpico pode buscar ajuda necessária.
“O objetivo da psicologia do esporte não necessariamente é manter o atleta focado. Em primeiro lugar é manter esse atleta saudável. Depois vem todas as estratégias da preparação emocional, inclusive foco e concentração é uma delas, manutenção de motivação, gestão de ansiedade e stress”
Por fim, Carla chama atenção para o fator da pandemia e que estamos lidando, assim como os atletas, com um ambiente novo na sociedade somado com todas as cobranças já presentes no esporte.
“Excesso de informação, de exigência e pouca estrutura para dar conta deste universo pode gerar uma vulnerabilidade emocional. O mais importante como psicóloga do esporte é prevenir e estruturar os atletas, mas ao mesmo tempo criar ambientes saudáveis para os competidores desenvolverem o alto rendimento de maneira sustentável. Capazes de investir na carreira sem precisar se quebrar mentalmente por um medalha”, finaliza.