Protestos estudantis se intensificam na França e ganham adesão de universidades

Bloqueios em escolas e universidades, confrontos com a polícia e 625 detenções marcam nova fase da mobilização

Protestos estudantis se intensificam na França e ganham adesão de universidades

Os protestos estudantis na França intensificam-se nesta quinta-feira (1º), marcados por bloqueios em escolas e universidades, confrontos violentos com as forças de segurança e episódios de vandalismo em diversas cidades do país. A mobilização, convocada pela União Estudantil (USL) como o “Ato II”, ocorre após uma primeira onda de manifestações que já havia envolvido centenas de instituições de ensino. As reivindicações incluem a substituição de professores ausentes e o aumento de recursos para a educação.

A mobilização conta com o apoio de grandes organizações estudantis, como “Fage”, “Union étudiante” e “UNEF”, que convocaram novas manifestações e bloqueios, incluindo uma jornada de ações para a próxima terça-feira (6). Os estudantes exigem, entre outras medidas, a substituição imediata de professores ausentes, o aumento dos recursos destinados à educação pública, reformas estruturais nas escolas e a garantia de condições de aprendizagem dignas e seguras.

Iniciado há aproximadamente uma semana nas escolas de ensino médio, o movimento rapidamente se expandiu para as universidades. Nesta quinta-feira, o campus de Saint-Denis da Universidade Paris VIII, localizado nos arredores da capital francesa, foi totalmente bloqueado pelos manifestantes. Confrontos diretos entre estudantes e agentes de segurança pública também foram amplamente registrados em Pantin, na movimentada região metropolitana de Paris.

A escalada de violência atingiu pontos críticos em diversas localidades. Na cidade de Nantes, a escola de ensino médio Nelson Mandela foi alvo de um incêndio criminoso em meio aos atos de protesto, conforme detalhado por reportagens da imprensa francesa. O incidente causou grandes transtornos, com o transporte público da região afetado e um grande contingente de agentes de segurança enviados para controlar a situação e investigar os acontecimentos.

Como as autoridades respondem aos protestos?

Testemunhas oculares, citadas em matérias do jornal “Le Figaro”, relataram que a polícia recorreu ao uso de gás lacrimogêneo para dispersar as aglomerações de manifestantes, especialmente em áreas onde a tensão se elevava. A mobilização tem sido persistentemente marcada por confrontos diretos entre os ativistas e as forças de segurança, evidenciando um cenário de crescente polarização e desafio à ordem pública.

As estatísticas oficiais divulgadas pelas autoridades francesas são alarmantes, revelando a magnitude da repressão e dos incidentes. Somente na quarta-feira (30), um total de 625 pessoas foram detidas em todo o país em conexão com os protestos. Este número reflete a intensidade das ações policiais e a amplitude das manifestações em diversas cidades.

Desde o início da onda de bloqueios e manifestações, o balanço de feridos é preocupante. As autoridades registraram 119 pessoas lesionadas, incluindo tanto estudantes quanto funcionários de instituições de ensino. Além disso, 83 policiais também sofreram lesões durante os confrontos, sublinhando o risco inerente às operações de segurança em meio a protestos violentos.

Quais os incidentes mais graves registrados?

Diante da gravidade dos ferimentos, a inspeção policial foi formalmente encarregada de investigar três episódios específicos envolvendo lesões graves de estudantes. Os incidentes ocorreram em Sevran, no departamento de Seine-Saint-Denis; em Saint-Ouen-L”Aumône, localizado em Val-d”Oise; e na cidade de Tours, onde a violência se mostrou particularmente aguda.

Em Tours, um jovem estudante sofreu um grave ferimento na cabeça na quarta-feira, necessitando de hospitalização urgente. De acordo com o Ministério Público, os ferimentos são “compatíveis” com o impacto de um disparo de LBD (Lançador de Balas de Defesa), uma munição menos letal frequentemente utilizada pela polícia francesa em operações de controle de multidões. Este tipo de armamento tem sido alvo de controvérsia devido ao potencial de causar lesões sérias.

O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, defendeu a atuação das forças de segurança, afirmando que os agentes agiram “com grande proporcionalidade” em suas intervenções. No entanto, as críticas à violência policial persistem por parte de organizações de direitos humanos e dos próprios manifestantes, que questionam a adequação e o rigor das medidas repressivas.

A violência se espalha para outras cidades?

A situação de desordem e violência também se agravou significativamente na cidade de Marselha. Em comunicado oficial, a região de Provença-Alpes-Costa Azul (PACA) reportou a ocorrência de incidentes violentos diante do Liceu Victor Hugo, indicando que a capital do sul da França também se tornou um foco de tensão nos protestos estudantis.

De acordo com o relato das autoridades regionais, o diretor do Liceu Victor Hugo, seu vice-diretor, o secretário-geral e outro funcionário da escola foram covardemente atacados dentro do próprio estabelecimento de ensino. Os agressores, não identificados, chegaram a jogar gasolina sobre as vítimas, intensificando a gravidade dos ataques e a sensação de insegurança.

Ainda em Marselha, o jornal “Le Figaro” noticiou outro episódio chocante: um caminhão do corpo de bombeiros foi cercado e posteriormente incendiado por um grupo de estudantes durante distúrbios ocorridos diante do Liceu Saint-Exupéry. Este ato de vandalismo ressalta a escalada da violência e o desrespeito às autoridades e serviços essenciais.

Diante da rápida expansão dos protestos e da multiplicação dos episódios de violência em diversas cidades francesas, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu convocou uma reunião interministerial de crise. O encontro de emergência está marcado para esta quinta-feira, às 13h (horário local), no Ministério do Interior, em Paris, com o objetivo de discutir estratégias para conter a crise e restaurar a ordem.