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Projeto veta recurso para Copa de 2026 até que os EUA tenham igualdade no futebol

Crédito: LIONEL BONAVENTURE / AFP

A luta das jogadoras da seleção norte-americana de futebol por pagamentos iguais aos dos homens chegou ao Capitólio. Nesta semana, o senador Joe Manchin, eleito pelo Estado da Virgínia Ocidental, apresentou um projeto de lei que proíbe a destinação de recursos federais para a Copa do Mundo de 2026 até que a federação americana de futebol garanta remuneração igual para os dois times: feminino e masculino. A proposta chega a Washington no auge do entusiasmo e popularidade do time feminino, após a conquista do tetracampeonato no Mundial da França.

O projeto estabelece que “nenhum fundo federal poderá ser designado para apoiar a Copa do Mundo de 2026, incluindo: apoio a uma cidade anfitriã, a um estado participante ou agência local, à Federação de Futebol dos Estados Unidos, à Confederação de Futebol da América do Norte, da América Central e do Caribe (Concacaf) ou à Fifa, até a data em que a Federação de Futebol dos Estados Unidos concordar em pagar equitativamente” os integrantes das duas seleções.

As jogadoras da seleção americana deixaram claro antes de embarcar para a França que buscavam mais do que um troféu, mas direitos iguais em campo, e que usariam a exposição no Mundial como plataforma política. Em março, no Dia Internacional da Mulher, 28 jogadoras decidiram processar a federação americana de futebol para pedir salários iguais aos dos jogadores. Elas alegam que jogaram 19 partidas a mais do que a seleção masculina em um período de três anos, gastaram mais tempo em viagens, treinos e coletivas de imprensa, mas mesmo assim recebem o equivalente a 38% da remuneração paga aos homens. A federação e as jogadoras concordaram em iniciar um processo de mediação para resolver a questão.

“O pagamento desigual entre os times de futebol masculino e feminino dos EUA é inaceitável e fico feliz que a vitória da equipe feminina esteja causando clamor público”, afirmou o senador.

A ideia do projeto veio depois de o parlamentar receber carta da treinadora de futebol da West Virginia University. Nikki Izzo-Brown trabalha há mais de 20 anos no treinamento de mulheres no esporte. Ao parlamentar, ela pediu apoio à causa das jogadoras americanas. “A desigualdade é injusta e a diferença salarial tem de acabar. As mulheres ganharam quatro títulos. Os homens, nenhum. A audiência na Copa do Mundo superou a da Copa masculina em mais de três milhões. Ainda, o time feminino gerou uma receita em 2016 quando o masculino gerou prejuízo”, escreveu a treinadora ao senador.

Uma das justificativas comuns para a diferença no pagamento é o argumento de que os jogos femininos não são tão lucrativos e não despertam o mesmo interesse das marcas patrocinadoras. No fim de junho, enquanto ainda acontecia o Mundial da França, o jornal The Wall Street Journal informou que os jogos da seleção feminina de futebol dos EUA geraram mais receita do que os da seleção masculina – segundo análise feita com base nos dados dos relatórios financeiros da Federação de Futebol dos EUA. Os direitos de transmissão e patrocínios, no entanto, são vendidos em um pacote e, por isso, é difícil diferenciar qual dos dois times recebeu mais verba.

A audiência nas televisões do país para assistir à final do Mundial Feminino foi pouco mais de 20% maior do que a conectada para assistir à final da Copa do Mundo masculina, em 2018, entre França e Croácia. A seleção americana masculina nunca ganhou uma Copa do Mundo – no ano passado, o time sequer se classificou para a competição.

Para os americanos, o futebol está longe de ser o esporte favorito. Outros vêm na mente dos moradores dos Estados Unidos muito antes de pensarem em uma Copa do Mundo. Futebol americano, basquete, beisebol e hóquei despertam as paixões nacionais. Mas, na Copa Feminina, a seleção americana tem conseguido despertar entusiasmo entre os americanos desde 2015, com o tricampeonato. Na quarta-feira, em um desfile das jogadoras campeãs em Nova York, a igualdade salarial foi tema central – não apenas nos discursos e cartazes das jogadoras, mas também entre o público. Uma das faixas dizia “desfiles são legais, mas pagamento igual é mais legal”.

Em 2016, um grupo de jogadoras já havia acionado a Justiça contra a federação americana de futebol, que foi obrigada a corrigir discriminações como diárias de alimentação mais baixas para as mulheres do que para os homens.