Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

A observação de aves que ocorre ao pé do Monte Kilimanjaro faz parte de um projeto com objetivo duplo: utilizar a biodiversidade para ganhar dinheiro – que por sua vez será usado para preservar os recursos naturais – e apoiar as comunidades locais.

A reserva Selenkay, às margens do Parque Nacional Amboseli, no sul do Quênia, abriga elefantes, girafas, antílopes e leões. O povo massai é o proprietário da reserva e nenhuma cerca separa o terreno, de 5.000 hectares, do território usado pelos pastores para criar suas vacas, ovelhas, cabras e burros.

Os visitantes começam a voltar depois da pandemia de covid-19, que teve sérias consequências financeiras.

“O turismo colapsou por completo e nos demos conta de que precisamos encontrar outras formas de aumentar a renda para poder continuar pagando o aluguel”, explica Mohanjeet Brar, diretor-gerente da operadora de turismo Gamewatchers Safaris, que aluga a reserva dos massai.

Esta tem um potencial para os créditos de carbono e biodiversidade (mecanismos projetados para repassar fundos aos proprietários de terras que preservam espaços-chave para as espécies raras e o armazenamento de carbono).

O primeiro passo para que a Selenkay possa realizar estes lucros é compilar dados e fazer um inventário do “tesouro da reserva”. Para isso, são usadas câmeras e gravadores acústicos, que mostram quais animais estão presentes e em que número.

Estes dados se complementam com as observações humanas. Durante um mês, pela manhã e à noite, membros da equipe se posicionam em pontos específicos para fazer uma contagem de todos os animais vistos e ouvidos durante dez minutos.

Ajudados por um drone, pesquisadores também podem obter uma imagem da quantidade de carbono armazenado nas árvores e no solo.

– Créditos de biodiversidade –

Graças ao turismo, a renda da empresa de Brar apoia a comunidade local de muitas maneiras. Também proporciona água para as pessoas e o gado, e gera empregos.

Todos os guardas florestais e quase todo o pessoal da Selenkay são massai. Mesmo assim, as condições de vida continuam sendo difíceis, explica Noolasho Keteko, uma das mulheres do povoado limítrofe com a reserva.

Mãe de oito filhos, com cabelos curtos e adornada com colares de contas coloridas, ela também ganha dinheiro com as visitas turísticas a seu casebre de barro e com a venda de joias.

Mas quando a Selenkay fecha, em abril e maio, durante a temporada de chuvas, a aldeia precisa de ajuda, comenta.

As pessoas do distrito querem evitar que a terra seja vendida, transformada em campos, e cercada, para evitar que a vida silvestre se locomova livremente. Mas a pouca distância já se vislumbra uma cerca…

Os ganhos com os créditos poderiam mitigar a pressão sobre o meio ambiente, detalha um dos guias, Nicholas Koyieyo. Incentivaria os pastores a reduzir o número de gado, permitindo a regeneração da mata e das árvores, ressalta.

A grande pergunta é se os recursos da Selenkay podem ser monetizados adequadamente.

“O Quênia tem uma população em rápido crescimento. O preço da terra também é alto e há muitas opções para o uso da terra”, afirma Brar.

O mercado de créditos de carbono está bem estabelecido, embora longe de ser perfeito. Segundo este esquema, os emissores de carbono podem compensar os gases de efeito estufa ao “comprar” direitos de contaminação de quem reduzir as emissões ou capturar carbono.

Mas ainda não foi criado o tão promovido mercado de créditos de biodiversidade.

No domingo, as conversas preparatórias em Nairóbi para a cúpula da biodiversidade da ONU, terminaram quase sem avanços.