Economia

Procura-se mão de obra

Ofertas para todos os níveis de trabalho, de cientista a operário, de programador a motorista, surgem em diversos países, que precisam recuperar competitividade e enfrentam a falta de trabalhadores para preencherem suas vagas

Crédito: Alamy

SEM FRONTEIRAS Há um déficit de 15 mil trabalhadores na indústria hoteleira de Portugal: oportunidades na recepção, copa e cozinha (Crédito: Alamy )

VAGAS PARA IMIGRANTES Com o início do Brexit, milhares de motoristas deixaram seus empregos na Inglaterra (Crédito:Toby Melville)

Depois de superado o período mais crítico da pandemia, o mercado internacional de trabalho dá sinais de recuperação e acende a esperança de milhões de desempregados espalhados pelo mundo. Empresas de internacionalização de carreiras, redes sociais com foco no relacionamento profissional e sites de empregos possuem atualmente todo o tipo de ofertas de trabalho em vários países, de cientista a copeiro, de programador a motorista de caminhão. Para se ter ideia desse movimento, basta entrar em um site de buscas com as palavras chaves “jobs for immigrants”. Entre as 193 milhões de opções de pesquisas, surgem anúncios como “Canadá precisa de 250 mil trabalhadores”. A oferta faz parte de uma das frentes abertas pelo Plano de Nivelamento de Imigração, do governo canadense, que pretende atrair mais de 1 milhão de novos residentes. Trata-se de um incentivo para a recuperação da economia local. Na cidade de Quebec, por exemplo, foram criados 66.100 empregos nas mais diferentes áreas, de saúde a serviços financeiros.

PRIMEIRO EMPREGO Com falta de mão de obra, rede de lanchonetes McDonald’s contrata adolescentes de 14 e 15 anos (Crédito:Keith Srakocic)

“Atualmente o Canadá encontra dificuldade de competir com a China”, explica Roberto Dumas, professor de Economia do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Mas atrair esse contingente de trabalhadores para tornar isso possível, segundo ele, terá um preço: “a queda de salários”. O Brasil faz parte do processo, mas com seu grande número de desempregados, ávidos por uma oportunidade de melhora de vida. Nesta semana, o Ministério do Trabalho e Previdência anunciou uma nova revisão dos dados nacionais de 2020. Ao contrário do que foi anunciado anteriormente, o Brasil não criou vagas no ano passado, mas fechou. Um saldo negativo de 191.502 empregos formais, de acordo com os registros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. O número de profissionais que saíram do mercado de trabalho aumentou 70% desde 2016, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com todo esse contingente na mira, muitas empresas brasileiras se especializaram no processo global de recolocação de profissionais no exterior. Em junho, foram abertas 10 milhões de vagas nos EUA, de acordo com a Secretaria de Estatística do Trabalho nacional. “O país está bombando em empregos”, diz a ICEO Irene Azevedo da LHH, empresa de recolocação global de executivos. Outra empresa no ramo é a Intern Brazil, startup paranaense com foco na internacionalização de carreiras e empresas. “A maior oferta de empregos está nos EUA. Tenho aqui 400 vagas abertas de empresas operacionais”, diz o CEO, Fernando Ishi. As funções mais requisitadas são da área da hotelaria, construção civil, logística e de fábricas em geral. Também se destaca a procura por cuidadores de idosos. “Esse tipo de trabalho é tradicionalmente realizado por imigrantes nos EUA”, diz Dumas. Mas com a pandemia e o lockdown, muitos voltaram aos países de origem. O mesmo aconteceu na Europa.

PERDA DE COMPETITIVIDADE O governo canadense quer atrair 1 milhão de novos residentes com promessas de trabalho (Crédito:Nathan Denette)

Um bom exemplo disso é Portugal. Destino preferido de muitos brasileiros devido à similaridade dos costumes e da língua, o país se destaca na recuperação do mercado de trabalho. No segundo trimestre de 2021, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de desemprego foi de 6,7%, 0,3 pontos acima do período anterior. Agora a retomada dos serviços e das vendas dependem das recontratações. A Associação de Hotelaria de Portugal (AHP) relata um déficit de 15 mil trabalhadores, principalmente para postos na recepção, copa e cozinha. Na construção civil, 63% das empresas sofrem com falta de operários.

Outro recrutador de mão de obra é o Reino Unido. Além da pandemia, o país decidiu sair da União Europeia, o que teve consequências diretas na economia e no mercado de trabalho. “Desde o Brexit, não há caminhoneiros suficientes”, diz o auditor de processos industriais Antônio Carlos Paollilo. Descendente de italianos, nascido em São Paulo, ele se mudou com a família para Nottingham, na Inglaterra, antes do início da pandemia. “Houve ameaça de desabastecimento de combustível, devido à falta de motoristas para o transporte”, conta. Na ocasião, o primeiro- ministro Boris Johnson anunciou medidas para resolver a crise, entre elas a emissão de 5.500 vistos temporários para motoristas estrangeiros. Cerca de um milhão de vagas foram abertas na Grã-Bretanha e os tipos de oportunidades mudam de acordo com a região. Na Escócia, há 1.181 vagas para gerente e diretores na área de saúde pública. Biólogos e bioquímicos contam com 2.112 ofertas na Escócia, Inglaterra e Irlanda. Nas mesmas regiões, há 3.414 vagas para dançarinos e coreógrafos. A lista divulgada pelo governo é longa. Setor impactado positivamente na pandemia, a Tecnologia da Informação continua aquecida. A Intern Brazil tem apenas oito vagas de TI nos EUA. “Existe uma escassez de profissionais e o salário subiu bastante”, diz o economista Renan Pieri, professor da FGV. “Mas acho que existe uma ilusão em toda essa oferta de empregos. Mais uma vez, milhões de brasileiros desempregados estão sendo seduzidos”.