Edição nº2577 17/05 Ver edições anteriores

Problemas causados por soluções

Meu título inspira-se no filósofo norte-americano William Peirce, autor da deliciosa frase: “Todo problema é causado por soluções”. Não penso que todos os problemas sejam causados por soluções, mas estou seguro de que muitos realmente o são. O problemaço que seria a permanência do PT no poder por mais oito ou dezesseis anos foi resolvido pela eleição de Bolsonaro. Seria uma solução formidável, se o novo governo só acertasse, mas não é o caso.

Seu grande acerto — se tiver êxito — será a reforma da Previdência. Tenho dito e repetido que as grandes dificuldades brasileiras são mais oftalmológicas que ideológicas. Uma parcela considerável de nossa classe política, do Judiciário e das elites não enxerga um palmo à frente do nariz. Não percebe que, sem tal reforma, em poucos anos teremos um número decrescente de jovens precariamente educados convocados a pagar a aposentadoria de um número crescente de idosos e pseudoidosos.

A reforma da Previdência poderá ser o grande ativo do governo Bolsonaro. O passivo será, sem dúvida, a Educação. Em quatro meses, dois ministros, nenhuma percepção do tamanho do problema e nenhuma ideia.

De quebra, há uma pronunciada tendência a atacar moinhos de vento. Fala-se em reduzir as verbas públicas destinadas às ciências humanas e em erradicar o “marxismo cultural” que domina as universidades. Em abstrato, concordo com as duas proposições. Que há nas universidades um esquerdismo vazio, uma água rasa na qual os micropartidos ditos de esquerda nadam de braçada, não há dúvida. Mas erradicar essa mentalidade, que vem de longe, é uma prioridade da política pública? Nem aqui nem na China.

Para piorar as coisas, a referida intenção de erradicar a esquerda aparece acoplada à redução dos gastos nas ciências humanas. Em abstrato, tudo bem. O Japão acaba de fazer isso. Somos um país afundado numa crise econômica, no qual um governo de qualidade mediana se depara com uma duríssima agenda política. Esse governo, portanto, não pode e não deve ficar fazendo marola. Erradicar a mentalidade de esquerda em quatro anos é impossível, cortar o sustento das ciências humanas é provocar uma reação de amplos setores, um arco que vai muito além da esquerda propriamente dita. É tirar a moçada universitária de sua atual letargia e trazê-la de volta para as ruas e para o grevismo.

O passivo de Bolsonaro está na Educação. Além de atacar miragens, cortar os gastos em ciências humanas provocará reações não só da esquerda


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