A escolha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para representar o PSD na eleição para a Presidência da República impôs a Eduardo Leite a segunda derrota consecutiva na tentativa de se viabilizar como candidato ao Palácio do Planalto.
Após o anúncio, que será oficializado em um evento na tarde desta segunda-feira, 30, o governador do Rio Grande do Sul afirmou que a decisão do partido o “desencanta”, mas que não iria discutir.
+A desistência de Ratinho Júnior e o histórico instável da ‘terceira via’ no Brasil
“O Brasil está cansado, muito cansado de uma disputa que aprisiona o debate entre os extremos e, com toda a franqueza, a decisão tomada pelo partido tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o nosso país. Eu acredito num outro caminho. Eu acredito num centro liberal, democrático de verdade — não como uma posição de conveniência, mas como compromisso com a conciliação, com o diálogo, com a construção de soluções reais”, afirmou o governador em um vídeo divulgado nas redes socais.
Leite não deixou claro, até o momento, se seguirá com o atual mandato até o final ou se pretende disputar outro cargo nas eleições deste ano.
Confira:
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Em 2022, frustração veio no PSDB
O gaúcho disputou a candidatura presidencial do PSD com Caiado e o governador do Paraná, Ratinho Júnior — que desistiu do pleito no início da semana —. Ao contrário dos colegas, mais alinhados à direita, Leite optou por um discurso de centro, característico da “terceira via”, e criticou na mesma intensidade o presidente Lula (PT) e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Esta tônica também foi adotada em 2022, quando Leite buscou se viabilizar como presidenciável ainda no antigo partido, o PSDB. Depois de ficar fora do segundo turno de uma eleição presidencial pela primeira vez desde 1989, os tucanos decidiram apresentar uma alternativa ao então presidente Bolsonaro, que ocupou seu espaço no antipetismo, e a Lula, algoz histórico que voltava a disputar eleições após deixar a prisão.
Além de Leite, que renunciou ao governo gaúcho para se apresentar, o então governador de São Paulo João Doria e Arthur Virgílio, ex-prefeito de Manaus, se candidataram às prévias tucanas. Os três concederam dezenas de entrevistas, participaram de quatro debates televisionados e Leite chegou a acusar o colega paulista de “comprar votos”, sem provas.
O gaúcho angariou apoio de tucanos históricos, como o ex-governador e ex-presidenciável Aécio Neves, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o ex-senador Tasso Jereissati. Mesmo assim, Doria foi o escolhido por 53% dos mais de 25 mil filiados com ou sem mandato eletivo que participaram da votação.

Doria e Leite, então governadores de São Paulo e Rio Grande do Sul e colegas de PSDB, tiveram atritos nas prévias de 2022
No fim das contas, nenhum tucano esteve nas urnas contra Lula e Bolsonaro, o que não havia acontecido desde a redemocratização. Doria até renunciou ao governo paulista para concorrer, mas não teve apoio interno e desistiu — meses depois, deixou o PSDB e a política. Os tucanos apoiaram e indicaram a senadora Mara Gabrilli à vice de Simone Tebet (MDB), terceira colocada no pleito.
Por sua vez, Leite voltou atrás na renúncia e na promessa de não disputar reeleições e se elegeu outra vez governador do Rio Grande do Sul em segundo turno acirrado contra Onyx Lorenzoni (PL), quando ganhou apoio do PT e retomou o discurso de moderação contra radicalismo.
Alternativa possível, PSD não evitou novo revés
Prestes a concluir o segundo mandato e sem possibilidade de reeleição, Leite trocou PSDB por PSD com críticas ao antigo partido, onde não teria estrutura para concorrer ao Planalto. Foi recebido pelo presidente da nova sigla, Gilberto Kassab, com a alcunha de “presidenciável”.
Desde o início, no entanto, sempre esteve em posição desfavorável em relação a Ratinho Júnior, mais antigo na legenda, com melhor desempenho nas pesquisas e capacidade de trânsito no bolsonarismo. Em fevereiro, com a chegada de Caiado ao partido, o cenário ficou ainda mais incerto.

Gilberto Kassab, presidente do PSD: voz dominante nas decisões do partido
Ao contrário de 2022, Leite foi preterido sem enfrentar prévias ou trocas públicas de ataques. A escolha do PSD teve participação de um conselho formado por políticos experientes, como o ex-governador Jorge Bornhausen e o ex-senador Heráclito Fortes. Mas a palavra final, sem maiores atritos, foi de Kassab.