Presos de guerra na Ucrânia temem voltar à Coreia do Norte

Presos de guerra na Ucrânia temem voltar à Coreia do Norte

"DoutrinaSoldados de Pyongyang foram capturados há um ano, e o destino deles permanece em aberto. Instrução para militares é de tirar a própria vida para evitar rendição, sob pena de punição contra suas famílias.Já faz mais de um ano desde que forças militares da Ucrânia capturaram dois soldados norte-coreanos em Kursk, na Rússia. Eles se tornaram prisioneiros de guerra, tendo a sua liberdade oferecida pelo presidente Volodimir Zelenski em troca de ucranianos presos pelos russos.

Mas o destino dos dois homens, que pediram para serem enviados à Coreia do Sul, permanece em aberto. Na Coreia do Norte, eles podem ser punidos por terem sido capturados vivos, após terem sido enviados pelo regime para apoiar as forças russas na guerra contra a Ucrânia.

"Eu não vou sobreviver (se voltar). Todos os outros se explodiram", disse um dos soldados ao jornal sul-coreano Hankook Ilbo. "Eu falhei."

A Organização das Nações Unidas (ONU) se manifestou. Um relator especial sobre o histórico de direitos humanos da Coreia do Norte instou a Ucrânia a seguir o protocolo internacional e não enviar prisioneiros de guerra a um lugar onde enfrentem risco de tortura.

"Eu ficaria grato se eles me aceitassem. Se não aceitarem, não há nada que eu possa fazer", disse um dos soldados, ainda segundo o jornal.

De acordo com ativistas e desertores, a doutrina militar norte-coreana proíbe a rendição para soldados. A ordem é que, diante de uma captura inevitável, os militares tirem a própria vida.

"Não sabemos como o regime responderá a soldados que não seguiram a ordem de se matar em vez de serem capturados, porque isso nunca aconteceu antes", disse à DW Kim Eujin, que fugiu da Coreia do Norte quando adolescente, na década de 1990. "Mas meu palpite é que eles serão considerados traidores. E não serão apenas eles. Suas famílias também serão punidas."

Retaliação por várias gerações

Em entrevistas, os soldados capturados contaram que não tiveram medo do combate na Ucrânia. Mas, sim, dos efeitos da captura sobre as suas famílias. Eles relatam ter incessantemente ouvido que "um desertor traz punição para três gerações."

"Historicamente, durante e após a Guerra da Coreia, prisioneiros de guerra que retornaram foram supostamente submetidos a trabalho forçado e classificados como elementos hostis", afirma Peter Oh, da Free Korean Association, que ajuda refugiados norte-coreanos nos Estados Unidos. "Esses detidos provavelmente temem consequências semelhantes se retornarem."

Para Oh, as repercussões para as famílias são possíveis. Ou, então, o governo norte-coreano pode evitar medidas extremas para impedir escrutínio internacional.

De acordo com o Artigo 3 da Constituição sul-coreana, norte-coreanos ainda são considerados cidadãos sul-coreanos e têm permissão para viver na Coreia do Sul. No entanto, o governo de Seul parece pouco disposto a aceitar os prisioneiros da guerra na Ucrânia.

"A demora se deve aos complexos emaranhados legais e diplomáticos internacionais envolvendo Ucrânia, Rússia, Coreia do Norte e Coreia do Sul", disse Oh, citando implicações geopolíticas sensíveis. "Embora o governo sul-coreano tenha expressado interesse geral, ele não tomou ações diretas."

Conversas estagnadas

As discussões entre Seul e Kiev sobre o destino dos soldados parecem ter estagnado. Em 9 de fevereiro, o Instituto Coreano para a Unificação Nacional afirmou que "a comunicação direta entre os líderes da Coreia do Sul e da Ucrânia é essencial" para quebrar o impasse.

Sem acordo, a Ucrânia pode ser obrigada a entregar os prisioneiros à Rússia.

"O presidente Lee, o Ministério da Unificação e o Ministério das Relações Exteriores parecem se importar mais em não irritar Kim Jong-un do que em trazer esses homens para a Coreia do Sul", prosseguiu Kim. "Se fosse apenas pelos direitos humanos deles, então eles já teriam chegado aqui. É quase como se o governo aqui estivesse tentando encontrar razões para eles não virem."

A Coreia do Norte ainda não comentou publicamente sobre os dois prisioneiros de guerra na Ucrânia, embora seja possível que conversas tenham ocorrido nos bastidores.