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Presidente interina da Bolívia sob fogo cruzado de opositores e aliados

Presidente interina da Bolívia sob fogo cruzado de opositores e aliados

Policías antidisturbios frente a manifestantes favorables a Evo Morales en las afueras de Sacaba, Cochabamba, el 18 de noviembre de 2019 - AFP

A presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, está sob fogo cruzado, com a oposição fiel ao ex-presidente Evo Morales exigindo sua renúncia e seus próprios aliados cobrando a convocação de eleições gerais o mais rapidamente possível.

Nesse quadro conflituoso e de múltiplas pressões, a Igreja Católica mantém um espaço para o diálogo com autoridades e opositores para chegar a um acordo sobre a eleição das autoridades eleitorais e a convocação de novas eleições, depois das denúncias de fraude nas eleições presidenciais de 20 de outubro que desencadearam a crise atual.

Cocaleros seguidores de Morales, que renunciou e está no México há uma semana, entraram em confronto na segunda-feira com militares e policiais na região de Cochabamba (centro), desejosos de continuar seu trajeto até La Paz, sede do poder executivo, para buscar a renúncia da presidente interina.

Os incidentes foram registrados nos arredores da cidade de Cochabamba (400 km a leste de La Paz), depois de outros confrontos violentos na cidade vizinha de Sacaba, que deixaram na sexta-feira nove mortos. Os cocaleros partiram dias antes da região de Chapare, reduto de Morales, para passar por Cochabamba e terminar em La Paz.

Na segunda-feira, enfurecidos pela morte de seus companheiros, os seguidores de Morales tentaram entrar na cidade à força, mas foram dispersos com gás lacrimogêneo e veículos blindados, enquanto a multidão respondia com pedras.

“Continuaremos tentando chegar até Cochabamba até conseguirmos. Ninguém desistirá”, disse o agricultor Ronald Cruz, de 37 anos, durante o protesto.

Na cidade de El Alto, vizinha de La Paz, persiste o bloqueio de ruas e o cerco da fábrica de distribuição de combustível de Senkata, que causou escassez de combustível e alimentos.

E em La Paz, indígenas aimarás seguem mobilizados, detonando fogos de artifício, sob vigilância policial.

O pedido de todos eles é o mesmo: a saída de Áñez, considerada ilegítima, e o retorno de Morales, de 60 anos e que governou por quase 14.

Em quase um mês conflito, a crise soma 24 mortos.

– Eleições gerais –

Enquanto os partidários de Morales não descansam em seus protestos nas ruas, o poderoso líder regional de Santa Cruz e peça-chave na renúncia do ex-presidente, Luis Fernando Camacho, estabeleceu um prazo até quinta-feira para o Congresso eleger os membros do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE).

“Exigimos eleições até 19 de janeiro de 2020, com a incorporação de novos atores e um Tribunal Eleitoral transparente e acima de tudo imparcial”, escreveu Camacho no Twitter, sem especificar quais medidas tomará se seus pedidos forem ignorados.

Todas os cargos do TSE ficaram vacantes desde a prisão de suas autoridades, após uma auditoria da OEA, mais de uma semana atrás, que constatou irregularidades na contagem de votos nas eleições de outubro que reelegeram Morales contra o ex-presidente Carlos Mesa.

Mesa e o também ex-presidente Jorge Quiroga pediram a Áñez que convoque eleições gerais o mais rápido possível, mesmo que por decreto presidencial, se o Parlamento – onde o partido de Morales é maioria – não conseguir organizar a formação do corpo eleitoral.

O partido do ex-presidente convocou uma reunião do Congresso para esta terça-feira para estabelecer as bases para a nomeação das autoridades do TSE, embora o oficialismo tenha considerado a reunião ilegal porque os procedimentos parlamentares não foram seguidos.

– Diálogo e marcha pela paz –

Enquanto Áñez é pressionada de todos os lados, a mediação da Igreja Católica continua.

Um porta-voz eclesiástico disse que a reunião multipartidária avançou na segunda-feira.

“Acho que há vontade de avançar, acredito que há acordos que estão sendo moldados”, disse à CNN dom Eugenio Scarpellini, membro da Conferência Episcopal.

Ao mesmo tempo, o Conselho Nacional de Defesa da Democracia (Conade), um conglomerado de plataformas civis, protagonizará uma marcha nesta terça-feira para pedir a pacificação do país.

Também está planejado que uma “missão técnica” designada pela Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, comece a se deslocar pelo país para avaliar a situação na Bolívia.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) informou nesta terça-feira que um projeto de resolução para a convocação urgente de eleições na Bolívia foi apresentado por Brasil e Colômbia para ser discutido na quarta-feira, 20, durante uma sessão ordinária do Conselho Permanente, órgão executivo do bloco regional com sede em Washington.