Presidente imoral

Crédito: Divulgação

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Existem alguns limites de civilidade que quando ultrapassados descamba-se para a barbárie. O mandatário já atravessou todos eles e colocou o Brasil na antessala da depravação institucional. A própria Presidência está ultrajada, maculada, vilipendiada pelas ignomínias de um ocupante do cargo que não honra a faixa a ele concedida pelo voto popular. Um governante infame, imoral nas atitudes e palavras, a testar quase que diariamente os freios e contrapesos da democracia brasileira. Como a imaginar que no pináculo do poder da República exerce a condição soberana, quase divina, de fazer o que lhe dá na telha, de maneira inimputável, sem decoro ou respeito à liturgia do cargo. Mas é aí que ele se engana. Está lavrado na Constituição Federal o artigo que zela pela probidade administrativa, tipificando como crimes de responsabilidade condutas como as exibidas caudalosamente pelo atual chefe de Estado. O artigo nono da Lei 1.079/50, que serviu de base para levar ao impeachment dois antecessores — Fernando Collor de Mello e Dilma Rousseff, o primeiro por corrupção e a segunda por pedalada fiscal —, também é passível de enquadrar legalmente Jair Messias Bolsonaro por prática de improbidade, que prevê procedimentos contra a dignidade e a honra, impedindo-o de seguir exercendo o comando do País. Cabe agora aos demais poderes o papel e o dever de abrir processo nesse sentido para investigar e julgar a conduta do inquilino do Planalto e puni-lo com o que manda a lei, diante do festival de horrores de sua lavra hoje em evidência. Mandatários não podem difamar, injuriar e caluniar cidadãos deliberadamente. Mandatários não podem disparar ofensas, mentiras e abusar de suas posições e prerrogativas para perseguir oponentes e críticos. Mandatários não podem, em suma, estimular bajuladores, pistoleiros digitais, falanges governistas, filhos aloprados e claques de fanáticos a construírem gabinetes do ódio e a fabricarem fake news em série e versões fantasiosas das evidências para sustentar seu poder. Presidentes não ganham imunidade para prevaricar politicamente nesse grau de indecência. Juristas são unânimes em apontar que o destempero verbal e a atuação pusilânime do “mito” já são passíveis de sustentar um pedido de impeachment, como previsto constitucionalmente. O processo de impedimento do presidente é uma realidade que se impõe. Está na letra da Lei. Ou se leva a cabo ou se transforma o artigo em letra morta – como tantas outras predisposições constitucionais que deixam de ser seguidas à risca. Normalmente decorre daí o regime anárquico, sem controle e sujeito a abusos autoritários de quem detém a caneta. Mesmo que Bic. Até quando as instituições da República darão carta branca para tantas aberrações? Que estágio de esculhambação moral do dignitário é possível os cidadãos suportarem até que as autoridades competentes tomem providências? Bolsonaro ainda desdenha do risco.

Faz pouco caso dos alertas e parece acreditar que a imunidade para o exercício da política, no seu caso, é absoluta. Que ninguém terá a petulância e a coragem de ir contra ele. E segue a espinafrar opositores e a enxovalhar reputações daqueles que ousam se colocar no seu caminho. Magistrados do Supremo, parlamentares, governadores, indígenas, homossexuais, negros, jornalistas, basicamente todos os segmentos da sociedade já sentiram o peso calunioso de seus ataques. Valem de gestos obscenos, como bananas distribuídas a granel, até arroubos preconceituosos, geralmente de cunho misógino e sexista. E aqui cabe registrar: deve existir algo de sociopata sexual em uma pessoa que tem fixação no “falo” e se refere sempre as áreas erógenas para degradar os demais. Bolsonaro já se pôs a destratar com referências como “queima rosca”, “cara terrível de homossexual”, “não merece ser estuprada”, “dar o furo” e “tudo pequenininho por aí”, em um linguajar chulo e desqualificado, mais adequado aos frequentadores do baixo meretrício. É um tipo de método desprezível. Há mais de um ano, desde o “Golden Shower”, que está fazendo aniversário carnavalesco por esses dias, ele vem impingindo baboseiras eróticas no discurso de confronto a inimigos, imaginários ou não. Há de se perguntar se o presidente, na sua cruzada quixotesca, incorpora a condição de imbecil por opção própria ou nem percebe que está se prestando a esse papel? Antecipando-se a queixumes pelo adjetivo, é bom que se diga que “imbecil”, como está no dicionário Aurélio, é sinônimo de covarde, que pratica ou verbaliza alguma estupidez. Parece se encaixar como uma luva nas predisposições e comportamento do “mito”. A imbecilização em curso aflorou, decerto, em inúmeras circunstâncias e cada vez de maneira mais torpe. Na culminância da zona que montou com suas parábolas grotescas, o ex-capitão partiu para denegrir de maneira vil a jornalista Patrícia Campos Mello, repetindo insinuações caluniosas de uma testemunha da CPMI das Fake News, já desmentida por documentos e fatos. Nada que freasse o ímpeto de cretinices do capitão. Em respeito ao leitor, vale poupá-lo de repetições aqui da sequência de vitupérios lançada, tamanha a sordidez das citações. Foi o auge de uma escalada sem fim de demonstrações da falta de índole do mandatário. A imagem da profissional, mulher e cidadã Patrícia, que estava apenas cumprindo com o seu trabalho, foi ainda castigada pela máquina devastadora e criminosa de impulsionamentos de posts, conduzida por simpatizantes de Messias nas redes sociais. Causa vergonha alheia imaginar que o chefe da Nação deu guarida e referendou aleivosias dessa natureza. Bolsonaro é desbocado, casca grossa. Detentor de um machismo abjeto que, entre gargalhas e deboches, irrompe para a estupidez escrachada, sempre que possível, sem o menor freio ou filtro. Virou habitual seu espetáculo de sordidez em um grau jamais visto entre governantes por essas paragens. Dias atrás, antes de mirar a plêiade de jornalistas para afrontar, endossou uma mal-ajambrada versão da conhecida e pejorativa referência “eita povinho”, usual entre cabeças ocas da elite. Ele repetiu e propagou a metáfora deplorável, construída pelo jornalista Alexandre Garcia, que insinuava como seria bom para o País caso ocorresse, por um prazo de 10 anos, a substituição dos 215 milhões de habitantes daqui pelos 110 milhões de japoneses. Trocando em miúdos — e apelando à máxima da eficiência japonesa —, Bolsonaro, dando mais uma vez vazão ao seu conhecido preconceito racista, parecia concordar que o Brasil seria melhor sem os brasileiros. Talvez tenha se esquecido de que foi eleito, e chegou onde está, por meio da opção desses mesmos brasileiros que agora ele destrata e deve encarar como preguiçosos, mal educados, despreparados e por aí afora. No sonho idílico do capitão, a nação que ele comanda estaria bem melhor sem esse povinho que vive por aqui. O desapreço de Bolsonaro por gays, indígenas, ambientalistas — tome-se o grupamento minoritário que quiser — é tamanho que ele nem se dá mais ao esforço de disfarçar. Portanto seria aconselhável a todos os brasileiros, de antemão, que tenham ciência de que Bolsonaro preferiria que vocês não estivessem por aqui. Somos todos um estorvo nas ideias sectárias desse que se arvora o direito de fazer pouco caso tanto do Estado democrático como daqueles que o antagonizam. Hoje foi Patrícia Campos Mello. Amanhã, quem será? Qualquer dia desses, vai saber, o capitão sai em busca de uma raça pura, ariana, que o siga, tal qual um bando de fanáticos amestrados. Antes que isso aconteça, melhor será que os mecanismos do Estado lhe imponham algum tipo de resistência. Preferencialmente pelo impeachment que está na Lei.


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