Mundo

Premier líbio recusa encontro com Haftar em Moscou

ANCARA E MOSCOU, 13 JAN (ANSA) – O primeiro-ministro de união nacional da Líbia, Fayez al-Sarraj, recusou se encontrar com o marechal Khalifa Haftar, que move uma ofensiva para conquistar a capital Trípoli, durante negociações na Rússia nesta segunda-feira (13).   

Os dois líderes estão em Moscou para assinar um acordo de cessar-fogo definitivo e dar um aspecto menos precário à trégua em vigor desde a meia-noite do último domingo (12). Até o momento, apenas Sarraj firmou o pacto, que foi proposto pelos presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e Tayyip Erdogan, da Turquia.   

“Recusamos nos encontrar com Haftar, as conversas em Moscou são com Turquia e Rússia”, disse Khaled al-Mishri, chefe do Alto Conselho de Estado do governo líbio. Enquanto isso, Haftar pediu tempo até esta terça (14) para assinar o acordo de cessar-fogo.   

Segundo o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, houve “progressos” nas negociações, mas o marechal quer “refletir” antes de firmar a trégua. O Exército Nacional Líbio, conjunto de milícias liderado por Haftar, disse que não pretende se retirar das posições já conquistadas nos arredores de Trípoli. “Não daremos nenhum passo atrás”, afirmou o grupo.   

De acordo com a emissora Al Arabiya, a proposta prevê uma interrupção no envio de tropas pela Turquia à Líbia e que a trégua seja supervisionada pela Rússia e pelas Nações Unidas (ONU).   

O acordo ainda estabelece que milícias armadas deponham as armas e que os poderes políticos sejam distribuídos entre o governo Sarraj, baseado em Trípoli, o parlamento paralelo estabelecido em Tobruk, no leste do país, e as forças de Haftar.   

O Exército Nacional Líbio ficaria responsável por combater o terrorismo, em coordenação com o gabinete do primeiro-ministro, e por garantir a segurança de poços de petróleo e gás.   

Ainda neste mês, provavelmente no dia 19, Berlim, na Alemanha, receberá uma conferência de paz sobre a Líbia que contará com a presença dos protagonistas do conflito, além de Putin, Erdogan e de outros líderes europeus.   

Itália – Ofuscada pelo ativismo de Rússia e Turquia na Líbia, a Itália tenta recuperar o protagonismo no debate sobre um país que foi sua colônia no século passado e que é crucial para resolver a crise migratória no Mediterrâneo.   

O primeiro-ministro Giuseppe Conte se reuniu com Erdogan nesta segunda-feira, em Ancara, e cobrou um “esforço” da comunidade internacional para garantir a estabilidade da Líbia. “A Itália apoia um processo político e não mira ingerências ou interferências que possam condicionar o cenário futuro”, disse.   

Itália e Turquia apoiam Sarraj, mas Conte é contra a decisão de Erdogan de enviar tropas para defender o primeiro-ministro de união nacional. “Queremos trabalhar por uma Líbia unida, autônoma e soberana”, acrescentou.   

O premier seguiu viagem para o Egito, onde se reunirá com o presidente Abdel Fattah al-Sisi, um dos principais aliados de Haftar.   

Entenda a crise – A Líbia se fragmentou politicamente após a queda de Muammar Kadafi, em 2011, e desde então é palco de conflitos entre milícias.   

De um lado, está o governo de união nacional guiado por Sarraj e apoiado pelos grupos armados de Trípoli e Misurata, pela ONU, pela Itália e pela Turquia; do outro, o Parlamento de Tobruk, fiel a Haftar, que tem apoio do Egito e dos Emirados Árabes.   

O marechal, que busca derrotar o Islã político, e o Parlamento de Tobruk não reconhecem a legitimidade do governo Sarraj – instituído por uma conferência de paz no Marrocos, em 2015 – e controlam a maior parte do país, principalmente o leste e o desértico sul.   

Ex-aliado de Kadafi, Haftar ajudou o coronel a derrubar o rei Idris, em 1969, mas rompeu com o ditador em 1987, após ter sido capturado no Chade. De lá, guiou, com o apoio da CIA, um fracassado golpe contra Kadafi. Por duas décadas, viveu como exilado nos Estados Unidos e ganhou cidadania americana.   

Haftar se inspira no presidente do Egito, que deu um golpe militar em 2013 para derrubar o islamista Mohamed Morsi e o governo da Irmandade Muçulmana, colocada na ilegalidade. (ANSA)