Economia

Postura temerária

Como as declarações de Jair Bolsonaro podem abalar os negócios com importantes parceiros comerciais

Crédito:  APPA

MERCADO O Brasil se especializou na produção de carne halal e vende dois milhões de toneladas por ano para 57 países islâmicos (Crédito: APPA)

O governo do presidente eleito Jair Bolsonaro nem começou, mas já está afetando as relações comerciais brasileiras com parceiros estratégicos. Na segunda-feira 5 o Egito cancelou a visita de Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores, agendada dos dias 8 a 11 desse mês. A decisão foi vista como uma retaliação à fala de Bolsonaro de mudar a embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém. Após o cancelamento, Bolsonaro voltou atrás e disse que o assunto ainda não está resolvido. “Existe o discurso e existe aquilo que é possível fazer. Bolsonaro está disposto a falar o que pensa e depois seguirá o conselho de bons assessores”, diz Samuel Feldberg, doutor em Ciência Política pela USP. Um abalo nas relações diplomáticas com o mundo árabe pode impactar a economia do Brasil, que se especializou em produção de carne halal e exporta dois milhões de toneladas por ano para 57 países islâmicos.

O mesmo estremecimento afeta outros importantes parceiros brasileiros. A declaração de que os “chineses não estão comprando no Brasil, mas comprando o Brasil” incomodou os investidores chineses, que adotaram uma postura “de espera” antes de definir novos aportes no País. A China é a maior importadora de commodities do Brasil e as exportações a esse país atingiram US$ 47,2 bilhões apenas entre janeiro e setembro de 2018. Além disso, os investimentos de empresas chinesas no Brasil, desde 2003, somaram US$ 54,1 bilhões. “É crucial que o Brasil esclareça a política em relação à China e em que tipo de parceria está pensando”, diz João Mauricio Rosal, economista chefe da Guide Investimentos.

Faltou habilidade

Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda, também já mostrou que não tem tanta habilidade com as palavras quanto tem com os números. Entrevistado por uma jornalista argentina, ele disse que as relações com o país e com o Mercosul “não são prioridade”. O bloco também é bastante importante para o comércio exterior do Brasil. De acordo com a Comex, foram US$ 12 bilhões em exportações para a Argentina entre janeiro e setembro desse ano. Se quiser de fato manter a balança comercial brasileira com saldo positivo e ajudar a economia do País a crescer, Bolsonaro e sua equipe terão de aprender a medir as palavras.