Internacional

Portugal em chamas

Entre o luto e a indignação, o país assiste à sua maior tragédia em 50 anos, com o fogo consumindo florestas e deixando mais de 60 mortos. Os danos poderiam ter sido bem menores se a legislação fosse respeitada

Crédito: MIGUEL RIOPA

Foi por volta das 11h da manhã do sábado 17 que o fogo começou a arder na região de Pedrógrão Grande, em Portugal. Entre o alerta de incêndio e as primeiras ações de combate passaram-se 22 minutos, tempo suficiente para que o fogo ganhasse força, causando uma das maiores tragédias dos últimos 50 anos no país. Até a noite da quinta-feira 22 havia 64 mortos, 204 feridos e mais de 30 mil hectares consumidos pelas chamas. O luto, a indignação e a tristeza tomaram conta dos portugueses.

Controlado o fogo, que avançara para a cidade de Góis, ficou o sentimento de que qualquer um poderia ter sido vítima. Na memória de muitos ainda estão os grandes incêndios de 2003, que assolaram o país de norte a sul e provocaram 18 mortes. A população e os especialistas cobram respostas que vão além das causas da tragédia: o que Portugal deve fazer para que a catástrofe não se repita?

Incêndios florestais são constantes no país. Em 2015 foram mais de 3 mil focos. Ainda assim, 2017 pode entrar para a história como o ano em que o fogo foi mais letal. “É difícil descrever o que sentimos com a tragédia. O país está acostumado a ter incêndios, mas nunca houve tantas mortes. Quando minha mãe era pequena, as cidades tinham sirenes. Quando elas tocavam por conta de um incêndio, todos sabiam o que fazer”, diz Ana Berta Sousa, médica geneticista de Lisboa. A maior parte das mortes (47, do total de 64) ocorreu na Estrada Nacional 236 (EN 236-1), que liga Figueiró a Castanheira de Pêra, região próxima a Coimbra.

As vítimas voltavam da praia fluvial das Rocas quando foram surpreendidas pelo fogo. A brasileira Dayane Barros, que mora há 14 anos em Portugal, está na região de Ansião, a 30 quilômetros de Pedrógão Grande. Ela não precisou deixar sua casa, mas a cidade também foi atingida pelas chamas. “Saímos de lá às pressas. Meia hora depois já estava tudo queimado, até os carros carbonizados. Como estamos em um vale, sabemos que, em caso de fogo, temos de começar a fugir”. O luto a impede de voltar ao local do incêndio. “É uma sensação de impotência, de incapacidade”. Segundo Dayane, a consternação incentivou empresas e grupos de amigo a enviar ajuda, que chegou de todo o país.

Especialistas afirmam que muitas mortes teriam sido evitadas caso a legislação fosse seguida. Em Portugal, as residências são obrigadas a manter uma faixa de 50 metros livre de vegetação. Isso impediria que o fogo se aproximasse das construções. ”Não há uma cultura de autoproteção muito desenvolvida, tampouco de fiscalização”, diz Paulo Fernandes, especialista em incêndios e gestão de floresta e professor da Universidade de Coimbra. “Isso acontece também porque nessas aldeias os moradores têm mais idade e poucos recursos para pagar pela limpeza”.

Criminoso?

Os termômetros registravam mais de 40 graus na manhã em que o incêndio começou. A umidade do ar estava abaixo dos 20%. O inverno e o verão portugueses foram, nesse último ano, pouco chuvosos.

A principal responsável pela queima quase instantânea de quilômetros de eucaliptos e pinhais, espécies altamente inflamáveis, seria a combinação das altas temperaturas, baixa umidade e um fenômeno meteorológico conhecido como trovoada seca – quando há descargas elétricas sem chuva, pois a água evapora antes mesmo de chegar ao solo.

Na quinta-feira 22, contudo, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, afirmou acreditar que o incêndio tenha sido criminoso. Segundo ele, o fogo já era de uma violência extraordinária quando ocorreram os primeiros raios.

Os meios de combate também receberam críticas. Foram mobilizados mais de 2 mil bombeiros, 400 carros e 16 aeronaves. Para o especialista em incêndios da Universidade de Coimbra, a resposta deveria ter sido mais rápida. “Temos em Portugal a regra dos dez minutos. Nas condições em que o fogo ocorreu, 22 minutos é muito”, diz Paulo Fernandes.

Ainda segundo ele, o sistema para debelar os focos em ambientes florestais do país é falho. “As ferramentas que temos são para um combate mais urbano, com uso de muita água e não de outras técnicas florestais, como maquinário apropriado.”

Há 50 anos, 25 militares portugueses do Regimento de Artilharia Fixa de Queluz morreram durante o combate a um gigantesco incêndio que demorou sete dias para ser extinto, na serra de Sintra. As fatalidades se repetiram em menor proporção em outros anos.

Agora, segundo padres da região de Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos, será preciso reforço de sacerdotes de outras partes do país para dar conta da quantidade de cerimônias fúnebres. “Em Portugal se fala muito sobre incêndios por dois ou três meses de verão, mas há nove meses em que se pode apostar na prevenção”, diz Luciano Lourenço, diretor do núcleo de investigação de incêndios florestais da Universidade de Coimbra. “Quando começa a chover, os políticos se dedicam a outras tarefas. Se isso não mudar e se nada for feito, dentro de dez ou doze anos essas áreas podem voltar a queimar.” E esse é um luto que, definitivamente, os portugueses não querem ser obrigados a reviver.

Com reportagem de Priscila Carvalho

COMBATE Bombeiros tentam conter foco: água é pouco eficiente em florestas (Crédito:PAULO CUNHA)