Portugal e Brasil lideram ranking de desinformação em países que falam português

57% estão "insatisfeitos ou muito insatisfeitos" com o funcionamento da democracia em seus países

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o problema das fake news atingindo o espaço lusófono de forma generalizada Foto: Pixabay

Portugal e Brasil lideram ranking de desinformação no mundo lusófono (populações de países que falam português). Isso é o que afirma o Barômetro da Lusofonia (Cultura, Sociedade e Instituições nos Países de Língua Portuguesa), divulgado nesta sexta-feira, dia 30.

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De acordo com a pesquisa, mesmo o problema das fake news atingindo o espaço lusófono de forma generalizada, com 64% dos respondentes afirmando que já receberam alguma notícia falsa, Portugal (83%) e Brasil (80%) são os países em que a população mais recebe inverdades. No entanto, esse tipo de ocorrência também é notada de forma categórica em Angola (71%), Moçambique (71%) e Guiné-Bissau (67%).

Em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (49% cada) e Timor-Leste (40%), a referência às notícias falsas é mais baixa. No entanto, o estudo explica que o resultado pode representar não necessariamente uma menor incidência do problema, mas uma maior dificuldade de identificá-lo. “O reconhecimento de fake news depende não apenas de sua presença objetiva, mas também das capacidades individuais e coletivas de identificação e verificação das informações, além de maior ou menor nível de regulamentação da internet”, explica o levantamento.

Vista pelas comunidades como uma das principais ameaças às democracias, a circulação de notícias falsas é vista como um problema grave enfrentado pela sociedade brasileira. De acordo com a pesquisa, 77% dos brasileiros acreditam que elas causas “muitos problemas”. Em Portugal, embora a circulação seja igualmente elevada, prevalece uma leitura mais moderada: 46% consideram que elas causam “alguns problemas” e 42% atribuem maior gravidade.

Angola e Moçambique também percebem a gravidade em relação ao desafio enfrentado: 61% e 67% da população acha que as notícias falsas causam “muitos problemas”. Na Guiné-Bissau, 44% consideram que elas causam “muitos problemas”, colocando o país na penúltima posição no ranking, à frente apenas de Portugal (42%).

Em Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe, pouco mais da metade avalia que elas causam “muitos problemas” (51% e 53%). No Timor-Leste, as opiniões se dividem sobre o impacto: 46% atribuem alta gravidade e 43%, gravidade moderada. Na comunidade que se comunica por meio da língua portuguesa como um todo, 85% consideram que as notícias falsas causam problemas ao seu país (“muitos problemas”: 55%; “alguns problemas”: 30%).

Para entender o problema, também é necessário analisar a maturidade digital de cada um dos países. A pesquisa levou em conta o Índice de Desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (IDI), elaborado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT). Ele mede o nível de desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (TIC) dos países, combinando três dimensões: acesso (infraestrutura e disponibilidade de serviços), uso (intensidade e alcance da utilização das TIC) e competências (capacidades da população para usar essas tecnologias), resultando em uma pontuação padronizada de 0 a 100.

No contexto levantado pela pesquisa, Portugal lidera o grupo com 90,1. O Brasil aparece em seguida, com 84,5. Cabo Verde demonstra indicadores de “conectividade significativa”, com 69,1. Angola (49,9) e Timor-Leste (40,5) ocupam uma zona de transição. Na base do índice, Guiné-Bissau (36,9) e Moçambique (32,0) enfrentam os maiores obstáculos.

Democracias

De acordo com o levantamento, 91% dos cidadãos da lusofonia consideram o voto “muito importante” ou “importante”. Todavia, 57% declaram estar “insatisfeitos ou muito insatisfeitos” com o funcionamento real da democracia em seus países.

Os níveis mais elevados de valorização do voto são observados no Timor-Leste (99%), em Portugal (96%) e em Cabo Verde (93%). O segundo grupo, composto por Brasil e Guiné-Bissau, apresenta percentuais idênticos (91%). A atribuição de importância ao voto também é grande em São Tomé e Príncipe (88%), Moçambique (86%) e Angola (84%).

Mesmo assim, o estudo mostra que a percepção dominante da população “é a de que a democracia, tal como opera no presente, não tem sido capaz de responder adequadamente às expectativas” do povo. As maiores satisfações aparecem em Timor-Leste, com 75%, e Portugal, com 61%.

Nos demais países, as opiniões negativas superam as positivas. Com níveis de insatisfação próximos ou superiores a 70%, destacam-se São Tomé e Príncipe (73%), Cabo Verde (71%) e Moçambique (67%). Em um segundo patamar estão Angola (63% de insatisfação), Brasil (62%) e Guiné-Bissau (61%).

Nos casos avaliados, a pesquisa diz que a insatisfação está associada à vários fatores: a fragilidade econômica, as limitações na capacidade responsiva do Estado, a percepção de distanciamento entre elites políticas e cidadãos e a frustração com a baixa efetividade das eleições como instrumento de mudança.

Ao mesmo tempo, mobilizações recentes, como os protestos protagonizados pela “geração z”, mostram o avanço das demandas por maior responsividade do sistema político e a capacidade de processamento institucional dessas tensões.