O sucesso mundial de Bad Bunny transformou Porto Rico em algo além de cenário: a ilha ganhou voz própria no imaginário global. Mas antes mesmo de se tornar trilha sonora global, (músicas cantadas aliás em espanhol pelo mundo todo!) Porto Rico já era um território de contrastes intensos. Floresta tropical, praias selvagens recortadas por falésias calcárias e cidades onde a vida acontece nas calçadas até tarde da noite.
Suspenso entre Caribe e Estados Unidos, o país carrega uma identidade própria, orgulhosa e complexa, distante da ideia previsível de destino tropical. Suas músicas, visuais e posicionamentos políticos acabaram funcionando como um guia emocional involuntário da ilha, revelando bairros, paisagens e hábitos que raramente apareciam no radar turístico tradicional. Viajar até ali hoje é inverter a lógica: não é Porto Rico que explica o artista, mas o artista que convida o mundo a redescobrir Porto Rico.
Vega Baja: Onde tudo começa
Em Vega Baja, no norte da ilha, Porto Rico aparece distante do Caribe de catálogo. Foi ali que Benito Martínez cresceu, entre bairros residenciais simples, quadras de bairro e praias abertas como Puerto Nuevo, protegida por formações rochosas que transformam o mar agitado do Atlântico em uma piscina natural frequentada por moradores locais. Nas redondezas, a selvagem Los Tubos atrai surfistas em busca de ondas fortes, enquanto a reserva natural da Laguna Tortuguero preserva manguezais e trilhas silenciosas longe do turismo de massa. Sem resorts ou grandes símbolos turísticos, a cidade ajuda a entender a essência de sua música: um retrato direto da vida porto-riquenha comum, moldada pela comunidade, pelo calor e pela rua.
Balneario Tres Hermanos
O Balneario Tres Hermanos, em Añasco, revela um Porto Rico mais silencioso e contemplativo, distante da energia urbana de San Juan. Foi ali que cenas visuais associadas ao universo de Un Verano Sin Ti ajudaram a transformar a praia em uma espécie de peregrinação informal para fãs, atraídos não por estruturas turísticas, mas pela paisagem aberta de areia dourada, mar amplo e pores do sol quase cinematográficos. A região, conhecida por suas águas calmas e atmosfera local, sintetiza bem o imaginário que Bad Bunny frequentemente projeta: um Caribe vivido de dentro para fora, onde o tempo é marcado pela luz do fim da tarde e pela relação direta com o mar, mais refúgio do que espetáculo.
Old San Juan
Em Old San Juan, o passado colonial da ilha encontra a estética contemporânea que atravessa a obra de Bad Bunny. Entre as ruas de paralelepípedo azul da Calle Fortaleza, as fachadas coloridas que levam ao icônico Paseo de la Princesa e as muralhas do Castillo San Felipe del Morro voltadas para o Atlântico, o bairro histórico aparece em diferentes produções visuais ligadas ao artista e ao imaginário urbano porto-riquenho. Praças como a Plaza de Armas e a Plaza Colón seguem sendo pontos de encontro onde músicos de rua, bares tradicionais e galerias independentes mantêm a cidade em movimento constante. Além do cenário histórico, Old San Juan funciona como síntese da identidade da ilha: um lugar onde séculos de herança espanhola convivem naturalmente com a cultura pop latina que hoje projeta Porto Rico para o mundo.
“New” San Juan
É em Santurce e ao longo da Calle Loíza que Porto Rico revela sua pulsação mais contemporânea. O bairro, considerado o epicentro criativo de San Juan, reúne galerias independentes, murais urbanos e uma vida noturna onde o reggaeton deixa de ser trilha sonora para virar linguagem cotidiana. Bares e clubes como La Respuesta, El Local e os pequenos espaços musicais espalhados pela avenida mantêm noites que avançam madrugada adentro, misturando DJs, música ao vivo e uma cena jovem que ajudou a moldar o som que artistas como Bad Bunny levariam ao mundo. A poucos minutos dali, La Perla, a comunidade costeira espremida entre as muralhas de Old San Juan e o mar, simboliza outra camada dessa história: bairro popular que, apesar do passado marginalizado, tornou-se referência estética e cultural em videoclipes e narrativas urbanas da música latina. Entre luzes de néon, carros passando devagar e caixas de som abertas para a rua, Santurce mostra que o reggaeton não nasce nos palcos, mas na vida noturna compartilhada da cidade.
O “mapa secreto” do álbum Debí Tirar Más Fotos
Em seu álbum Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny transforma Porto Rico em um verdadeiro mapa afetivo da ilha, espalhando referências geográficas que funcionam quase como coordenadas culturais. Entre elas aparecem lugares como Loíza, conhecido por suas raízes afro-caribenhas e tradições musicais; Guavate, nas montanhas centrais, famoso pelas lechoneras e pela cultura gastronômica local; Ciales, região cafeeira cercada por paisagens verdes; Río Piedras, distrito universitário e político de San Juan; e praias como Los Tubos, na costa norte. Esses pontos revelam um Porto Rico cotidiano, distante das rotas turísticas tradicionais, como se o artista convidasse o público a percorrer a ilha não em busca de atrações, mas de identidade guiada pela memória, pela comunidade e pelo pertencimento.