Edição nº2544 21/09 Ver edições anteriores

Por um juiz jurado

Importante aproveitarmos essa semana para discutir um assunto muito sério.

A profissão de Juiz.

Assim mesmo, em maiúscula, por uma questão de respeito.

Infelizmente, no entanto, é uma profissão que está indo de mal a pior.

Ladeira abaixo mesmo.

Suspeito que a responsabilidade desse triste estado de coisas seja das redes sociais, que criaram essa mania de todo mundo ter opinião sobre tudo.

Nas redes, qualquer um pode expressar livremente os mais grotescos equívocos.

Nesse contexto, parece que não é mais aceitável que um único sujeito — o Juiz — seja o dono da verdade.

Tudo precisa ser debatido.

Tomemos o caso dos Juízes de Futebol.

Há uns 30 anos, o árbitro era soberano nas quatro linhas.

Os dois bandeirinhas eram figuras irrelevantes.

Ninguém sequer sabia o nome dos assistentes, coitados.

Ô época boa aquela.

Época que a profissão de Juiz tinha importância incontestável.

Alguns árbitros eram tão teatrais que pareciam, sei lá, lutadores de luta livre.

Quem aí se lembra do Dulcidio Wanderley Boschilia?

Só o nome já causava arrepios nos jogadores e torcedores.

Dulcidio, linha dura, enfiava o dedo na cara de qualquer craque.

Neymar na mão do Dulcidio ficaria em pé até para dormir.

Bons tempos onde o Juiz podia ser temperamental, histriônico.

Impossível esquecer de um Armando Marques, com seus gestos imperativos.

Tamanha era sua importância, que foi catapultado para o júri do programa Flávio Cavalcanti, glamour maior não existe.

Por falar nisso, outra prova da decadência dos juízes é a iminente extinção dos jurados de televisão.

Saudade de nomes como Decio Piccinini, Aracy de Almeida, Pedro de Lara, juízes que semanalmente davam nosso norte estético, artístico e musical.

Mas voltemos ao futebol.

Suspeito que a coisa começou a degringolar quando colocaram aquele botão na bandeirinha.

Percebe a simbologia?

Um botão para o bandeira chamar o Juiz é a prova cabal da irrelevância de sua função. A certeza de que nem mesmo o juiz dava atenção ao seu assistente.

Não satisfeitos, inventaram o quarto árbitro.

Um sujeito que ninguém se importa com a existência, mas que pode, a qualquer momento, delatar alguém e mudar a história do jogo.

Essa Copa, então, enterrou de vez a profissão.

Agora, além dos juízes palpiteiros dentro do campo, existe uma equipe diante de monitores, prontos para informar ao Juiz aquilo que ele não viu.

O VAR, o ábitro de vídeo, chegou para esmiuçar cada jogada de tal maneira que o futebol perde uma de suas mais deliciosas características: a possibilidade do Juiz ser um safado, ladrão, na gaveta, comprado pelo outro time.

Ou seja, acabaram com a profissão.

Mas não pense que a crise afeta apenas o árbitro esportivo.

Essa decadência afeta as mais diversas variantes da profissão.

No Judiciário, por exemplo, a imagem do juiz poderoso é cada vez mais rara.

É só olhar a importância que damos hoje às chamadas “decisões colegiadas”.

Ao invés de um Juiz todo-poderoso, desses de cinema, tudo acaba na mão do VAR do Judiciário, o STF.

Por isso que, em tempos tão áridos, a fanfarronice de domingo passado foi um sopro de esperança.

O ridículo solta-prende do Lula trouxe de volta o Armando Marques que habita nossos corações.

Um Juiz reserva, um quarto árbitro, sambou sozinho sob os holofotes da mídia.

Decidiu, por conta própria, bater de frente com todas as instâncias do Judiciário.

É gente assim que resgata o prestígio da profissão.

Se eu fosse o Faustão, no domingo que vem o sujeito já estaria julgando a dança dos famosos.

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Mentor Neto

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