Por que potências ainda dependem de combustíveis fósseis?

Por que potências ainda dependem de combustíveis fósseis?

"NosTrump sonha com economia de alto carbono nos EUA, enquanto transição energética na China e na União Europeia esbarra em entraves. Apesar de renováveis mais competitivos, mundo abraça petróleo e gás.A energia limpa pode estar crescendo a largos passos e ganhando competitividade ao redor do mundo, mas potências globais se mantêm dependentes dos combustíveis fósseis. É este o caso dos Estados Unidos, onde Donald Trump, um dos maiores fãs do petróleo entre os presidentes do planeta, expressa desinibido o apetite pelas vastas reservas da Venezuela.

Os EUA não estão sozinhos na insistente relevância destas fontes de energia, a exemplo de China e União Europeia (UE), apesar de avanços, em diferentes escalas, nos últimos anos em direção a alternativas. Juntos, os três corresponderam a 46% das emissões de gases de efeito estufa em 2024.

Com especificidades para cada país, são vários os entraves econômicos, políticos e sociais. Dentre eles, incluem-se superar infraestruturas consolidadas ao longo de décadas, lidar com potenciais perdas massivas de empregos, tirar reformas do papel e atender a elevadas ou crescentes demandas por energia.

É decisivo, entretanto, o papel destas nações na transição energética, urgentemente necessária para conter o aquecimento global. Enquanto isso, têm amplamente falhado os esforços para alcançar metas de descarbonização e para proteger o clima.

"O mundo está atualmente abraçando cada vez mais os combustíveis fósseis", diz Andreas Schröder, chefe de Análise de Energia na fornecedora de dados de mercado Independent Commodity Intelligence Services (ICIS), na Alemanha. "Provavelmente ainda não atingimos o pico do petróleo , e o gás também está em alta."

"Perfure, bebê, perfure"

Ao tomar posse do segundo mandato, há um ano, Trump repetiu o mantra republicano "Perfure, bebê, perfure" (Drill, baby, drill), para a sorte do petróleo e do gás natural, e para azar do sol e do vento. Prometendo "exportar energia americana para todo o mundo", bradou orgulhoso: "Nós vamos ser uma nação rica de novo, e é este ouro líquido abaixo dos nossos pés que vai nos ajudar a fazer isso."

Os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo e gás – em grande parte para exportação. Em 2023, estas duas fontes correspondiam, juntas, a quase três quartos da energia final consumida pelos americanos (isto é, excluindo o consumo do próprio setor energético e perdas de transformação), segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês).

Já no ano seguinte, a geração de eletricidade a gás chegou a nível recorde, segundo o think tank britânico Ember, o dobro em comparação a 2007. Sozinho, o país era então responsável por 43% do aumento global na década imediatamente anterior.

O gás é em parte explorado como alternativa ao carvão, que é mais poluente em carbono e mais caro. Mas também é um combustível fóssil e está associado à liberação de metano, por si só "80 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono (CO2) durante um período de 20 anos" para o aquecimento global, diz a União de Cientistas Preocupados (UCS, na sigla em inglês, uma ONG que trabalha para promover decisões públicas baseadas em evidências científicas).

Negócios em primeiro lugar

Só que Trump quer mais combustíveis fósseis. Os seus planos incluem ressuscitar o carvão, hoje drasticamente encolhido na matriz energética, com a promessa de uma cientificamente fantasiosa versão "limpa e linda". Em setembro, o governo anunciou a liberação de 5 milhões de hectares para mineração, junto com 625 milhões de dólares em incentivos para usinas termelétricas a carvão.

"O presidente Trump prometeu colocar os trabalhadores americanos do setor da energia em primeiro lugar, e hoje nós estamos entregando isso," disse à época o secretário do Interior, Doug Burgum. Segundo ele, o governo estava "garantindo que comunidades desde Montana até o Alabama se beneficiem de empregos bem pagos."

Em 2022, os EUA tinham cerca de 900 mil empregados nas indústrias fósseis, segundo dados oficiais citados pelo The New York Times. Outro atrativo está na abundância dos combustíveis fósseis em solo americano, que permite a conservadores promover uma agenda de independência energética.

"Toda vez que você tem longos ciclos industriais de infraestrutura, empregos e habilidades, custa caro fazer a transição para longe deles. Nos EUA, as decisões políticas tendem a ser voltadas para os negócios, e então as preocupações ambientais se dissipam", segundo Schröder. "Agora, um empresário está governando os Estados Unidos, e há um forte lobby industrial, porque os lucros são enormes."

Na quarta-feira (07/01), Trump retirou os EUA tanto da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), tratado-chave nas negociações climáticas globais, quanto do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, na sigla em inglês), o órgão de maior autoridade científica sobre o tema, ligado às Nações Unidas.

Anteriormente, o republicano já havia anunciado a intenção de deixar o Acordo de Paris, que, em 2015, estabeleceu a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

Uma China de contradições

Mesmo na China, apontada como trampolim da transição energética global por entrar de cabeça na cadeia de tecnologias para energia limpa, os combustíveis fósseis mantêm posto cativo.

Segundo a IEA, cerca de 60% da energia final consumida pelos chineses era de combustíveis fósseis em 2023 – com destaque para o petróleo (28%) e o carvão (22%). Uma a cada quatro toneladas de carvão usadas no mundo é queimada para produzir energia para os chineses.

Quase 80% das emissões chinesas de CO2 associadas aos combustíveis fósseis provêm das usinas de carvão, sendo o país responsável por cerca de um terço do total global. Ao mesmo tempo, a recente aposta nas turbinas eólicas e painéis solares, bem como na eletrificação, é uma boa notícia para a transição energética.

"A grande contradição é que a China é o maior emissor de gases de efeito estufa e o maior gerador de eletricidade a carvão do mundo, mas a sua matriz energética está se tornando mais limpa", explica Nicolas Fulghum, analista sênior de dados sobre energia e clima da Ember.

O gigante asiático tem também assumido a dianteira global na energia nuclear. No final de 2023, havia 55 unidades em operação e outras 36 aprovadas ou em construção na China continental, segundo a agência pública de notícias Xinhua.

Demanda em crescimento

Desde a abertura econômica da China em 1979, a indústria do carvão se desenvolveu rapidamente, primeiro com minas de pequena escala e, depois, estatais maiores e internacionalmente competitivas. O resultado é uma frota de usinas de carvão jovem e altamente eficiente.

O presidente Xi Jinping continua a construir e aprovar novos projetos, levantando preocupações de observadores, embora isso não necessariamente signifique mais queima futura de carvão. O objetivo seria apoiar fontes renováveis, garantindo segurança energética, depois de uma crise que provocou apagões no início da década.

Em 2024, 81% do crescimento da demanda por eletricidade foram atendidos pelo aumento da geração de energia limpa, contra outros 18% pelo crescimento da geração a carvão, segundo o Ember. Ao mesmo tempo, a geração absoluta de eletricidade a carvão atingiu um novo recorde, tendo crescido em 45% desde 2015.

"A China pode hoje atender a todo o seu aumento de demanda por eletricidade com energia eólica e solar, e, ao mesmo tempo, um declínio dramático dos combustíveis fósseis sempre será improvável para uma economia em crescimento tão rápido", prossegue Fulghum. Segundo ele, a única forma de reduzir a geração fóssil é ampliar a capacidade de geração de energias renováveis ainda mais rapidamente.

O desafio é "garantir investimentos suficientes nas redes elétricas e numa combinação de tecnologias de geração que melhor atendam às necessidades do sistema elétrico", diz a IEA.

Na Europa, só "não no meu quintal"

Com uma excepcional conexão entre as políticas energética e climática, a UE tem se esforçado para reduzir a dependência do gás russo desde a invasão da Ucrânia em 2022. Enquanto isso, incham gradualmente os progressos e ambições verdes.

Em 2024, 71% da eletricidade da UE vieram de fontes limpas, contra uma média global de 41%, segundo o Ember. Mas, em termos da energia final consumida na Europa, é significativo o quanto permanece atrelado ao petróleo (41%) e ao gás natural (20%), indicam os dados da IEA, relativos a 2023.

Tampouco o apoio de diversos setores da sociedade significa consenso sobre a rota da transição energética. Em especial, é o caso de setores da classe trabalhadora que poderão perder empregos com a descarbonização, como a tradicional indústria automotiva. Ou, então, de populações que vivem em geografias para onde sopram os ventos da mudança.

"A Europa é, no geral, um território muito densamente povoado, e muitas pessoas não querem nova infraestrutura construída no seu quintal", continua Schröder. "Há mais espaço em áreas que não estão bem conectadas à rede e onde não existem cabos de altíssima tensão que poderiam transportar eletricidade de um país para outro."

Já Fulghum argumenta que o planejamento de reformas estruturais é essencial para alavancar mais profundamente a transição europeia. "Governos e políticos podem se aproveitar de resistências locais e implementar políticas que facilitem a paralisação da construção de projetos. Não significa que essa oposição não deva ser ouvida. Mas, sim, que, isso deve ser feito de forma adequada, levando em consideração os benefícios para toda a comunidade."

Para além da mais evidente vantagem de proteger vidas humanas e não humanas neste planeta, os renováveis têm preços mais baixos e menos voláteis, apontam especialistas. Desde os anos 1970, conflitos entre países já provocaram repetidos choques econômicos ligados a flutuações do petróleo e do gás.