O câncer de pulmão, historicamente associado ao tabagismo, está se tornando cada vez mais comum em pessoas não fumantes. Um estudo publicado recentemente no renomado periódico científico The Lancet Respiratory Medicine revela uma mudança alarmante no perfil da doença. Embora o estudo não forneça a porcentagem exata de pessoas diagnosticadas com câncer de pulmão que nunca fumaram, ele destaca que esse grupo está em crescimento e representa a quinta maior causa de morte relacionada ao câncer em todo o mundo.
Durante a pesquisa, foram registrados aproximadamente 2,48 milhões de novos casos de câncer de pulmão. Para chegar a esses números, os pesquisadores analisaram registros médicos de 179 países – com base nos dados do Global Cancer Observatory, plataforma online de estatísticas de câncer gerida pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) – e classificaram os casos em quatro tipos diferentes de câncer de pulmão, avaliando a incidência entre homens, mulheres e diferentes faixas etárias. Entre os homens, 1,57 milhão de pessoas foram diagnosticadas com a doença, sendo que quase metade dos casos (45,6%) era do tipo adenocarcinoma, que é o mais comum entre os não fumantes. Já entre as mulheres, o número foi de 908 mil casos, e 59,7% deles também foram classificados como adenocarcinoma.
O que poderia estar por trás desse fenômeno? Para os cientistas, a poluição do ar foi identificada como um fator importante, sendo responsável por cerca de 195 mil novos casos de adenocarcinomas em 2022, ano em que a análise foi realizada. O Brasil não está imune a essa tendência. O número de casos diagnosticados em indivíduos sem histórico de tabagismo tem aumentado, algo que preocupa médicos e especialistas da área.
“Embora o cigarro continue sendo o principal vilão, a quantidade de pessoas que nunca fumaram e estão sendo diagnosticadas com câncer de pulmão aumentou bastante nos últimos anos”, avalia o oncologista Carlos Henrique Teixeira, coordenador do Núcleo de Tumores Torácicos do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP). Ele também relaciona a poluição do ar, especialmente em grandes metrópoles, como um dos principais elementos de risco para o aumento da doença.
Além disso, o médico destaca outros pontos de atenção que têm sido cada vez mais estudados, como a exposição passiva à fumaça do tabaco e ao gás radônio, um derivado do urânio presente naturalmente no solo. “Ele pode se dispersar de maneira imprevisível. Em algumas regiões de Minas Gerais, por exemplo, os níveis de liberação desse gás são muito altos devido à mineração e representam um risco significativo”, alerta Teixeira.
Mutações do gene EGFR são mais comuns entre pacientes não fumantes
Outro aspecto crucial no desenvolvimento do câncer de pulmão em não fumantes são as mutações genéticas, em especial no gene EGFR. Esse gene desempenha um papel fundamental no controle do crescimento e divisão celular. Quando sofre mutações, ele faz com que as células cancerígenas se multipliquem de forma descontrolada. E, por essa razão, o gene EGFR é um biomarcador importante no diagnóstico do câncer de pulmão. No caso do adenocarcinoma pulmonar, essas mutações são mais comuns entre pessoas que nunca fumaram.
Teixeira destaca que as mutações no EGFR tornam as células tumorais mais sensíveis a tratamentos chamados “terapias-alvo”, que visam bloquear diretamente esse gene e interromper o crescimento das células cancerígenas. Esse tipo de tratamento tem mostrado bons resultados em pacientes não-fumantes, mas é menos eficaz para fumantes, que geralmente possuem mutações mais complexas, segundo o especialista. Assim, entre os pacientes deste último grupo, a quimioterapia é ainda o recurso terapêutico utilizado com mais frequência.
Além disso, o oncologista Hélio Borges, coordenador médico da Oncologia do Hospital Anchieta (HA), em Brasília, enfatiza que a personalização do tratamento, com o uso de testes moleculares e terapias direcionadas, pode ser um divisor de águas para pacientes não fumantes.
“Esses tumores possuem perfis genéticos distintos, e os avanços na medicina de soluções permitem tratamentos cada vez mais eficazes. O desafio agora é garantir que mais pacientes tenham acesso a essas tecnologias, que ainda são pouco divulgadas no sistema público de saúde”, pontua.
Desafios do diagnóstico do câncer de pulmão entre não fumantes
Para Borges, a ausência de um protocolo específico para rastreamento de não fumantes impacta diretamente a detecção precoce da doença. “Esses pacientes muitas vezes só descobrem a doença em estágios mais avançados, quando as opções de tratamento já são mais limitadas. Precisamos rever as diretrizes médicas e incluir novos critérios de rastreamento para grupos de risco, como histórico familiar e exposição prolongada à poluição”, defende. O oncologista do HA acredita ainda que exames de imagem mais acessíveis podem melhorar significativamente o diagnóstico precoce.
A pedagoga Andrea Ferrara, de 44 anos, passou 14 anos com um nódulo no pulmão, sem que os médicos desconfiassem de câncer. “Aos 30 anos, durante uma consulta de rotina, um cardiologista me pediu uma tomografia. Foi quando detectaram um pequeno nódulo no pulmão. Na época, o médico me disse que era uma ‘mancha’, e eu nunca imaginei que isso pudesse resultar em algo tão sério”, relembra Ferrara.
O médico não se alarmou com o nódulo, que media menos de 0,5 mm. “Ele me tranquilizou, dizendo que era algo muito pequeno, eu não fumava e estava saudável, portanto, não havia motivo para preocupação. Ele apenas recomendou que eu fosse ao pneumologista e repetisse o exame após um ano”, explica a pedagoga.
A cada novo exame, o nódulo no pulmão de Ferrara continuava lá, mas com o tempo, ela mudou de plano de saúde e, consequentemente, de médicos. “Eu não dei muita atenção para o nódulo, pois sempre me diziam que não era nada. Além disso, com a troca, perdi a continuidade dos exames. Não me preocupei em levar os testes anteriores, acreditando que não precisava de mais acompanhamento”, explica.
O ponto de virada aconteceu em 2022, quando Ferrara procurou uma pneumologista devido a sintomas persistentes de Covid-19, como tosse prolongada. “Foi então que mencionei o nódulo ao médico. Ela pediu uma nova tomografia e, ao olhar os resultados, ficou um pouco inquieta”, recorda-se.
“A médica me disse que o nódulo tinha crescido e tinha uma característica de vidro fosco, o que não era normal. Ela então me alertou: ‘Isso não é qualquer nódulo, ele se movimentou e mudou de tamanho ao longo dos anos’. Foi nesse momento que eu comecei a perceber a gravidade da situação”, conta Andrea. A médica a encaminhou imediatamente para um oncologista, que confirmou a necessidade de uma investigação mais profunda. “Fiquei com muito medo, ainda mais sabendo que passar por uma cirurgia seria inevitável”, completa a pedagoga, que não precisou fazer quimioterapia após o procedimento.
Atualmente, Ferrara segue bem. “Eu faço exames recomendados todos os anos, incluindo uma tomografia, para monitorar qualquer possível mudança. Apesar de tudo ter dado certo até agora, sei que a vigilância é essencial. Estou bem, mas a cada exame, ainda fica aquele receio”, finaliza a paciente.
Casos como o de Andrea Ferrara evidenciam a importância de ampliar a conscientização sobre o câncer de pulmão em não fumantes, já que muitas pessoas ainda associam a doença exclusivamente ao tabagismo. Tornar essa informação mais acessível, tanto para médicos quanto para a população em geral, pode ajudar a identificar a doença mais cedo e a melhorar os desfechos. “Quanto antes conseguirmos diagnosticar esses pacientes, maiores serão as chances de sucesso no tratamento”, destaca o oncologista Hélio Borges, do Hospital Anchieta.