Enquanto o campo progressista concentra as expectativas na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a direita brasileira já acumula mais de seis candidaturas independentes para 2026. Além de Flávio Bolsonaro (PL), os palanques da oposição contarão com Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Aldo Rebelo (Democracia Cristã), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Augusto Cury (Avante).
A atual profusão de postulantes à direita é quase oposta ao cenário no qual Lula se elegeu pela primeira vez. Em 2002, os candidatos à Presidência incluíam Ciro Gomes (PPS), José Serra (PSDB), Anthony Garotinho (PSB), Rui Costa (PCO) e Zé Maria (PSTU). Hoje, aqueles que se apresentam como uma opção tangente ao petismo são fortemente associados ao campo conservador.
Neste texto, a IstoÉ explica o que regula o volume de incumbentes e como os campos políticos ainda estão obstruídos pela submissão a Lula e Jair Bolsonaro (PL).
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A vaga deixada por Jair Bolsonaro

Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD), Ratinho Jr (PSD), Romeu Zema (Novo) e Tarcísio de Freitas (Republicanos)
Órfão de seu principal líder, que está preso e inelegível, o campo da direita se reorganiza com nomes que buscam substituir Jair Bolsonaro (PL) ao mesmo tempo que se utilizam de seu capital político. Em primeiro caso, a prisão do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado abriu uma janela de oportunidade para que a direita tradicional e o centrão tentassem superar o monopólio do bolsonarismo sobre a agenda conservadora e oposicionista.
O diretor de análise política da AtlasIntel, Yuri Sanches, explicou à IstoÉ que, apesar da tentativa de fragmentação, a direita ainda demonstra uma forte dependência da base bolsonarista. Candidatos que buscam se reafirmar como alternativa frequentemente precisam apelar a pautas ligadas ao grupo de extrema-direita para garantir um ponto de partida eleitoral — Caiado, candidato do PSD de Gilberto Kassab, já garantiu que anistiaria Bolsonaro caso fosse eleito.
“A direita tradicional brasileira representada pelo PSDB há uma década atrás, por exemplo, se renovou bastante, mas se renovou principalmente dentro do bolsonarismo”, compara. A sujeição ao legado do ex-presidente se dá, inclusive, na postulação do filho Flávio como herdeiro político e, consequentemente, principal nome dos palanques da oposição.
Após duas décadas, esquerda ainda é Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
O quadro do campo progressista configura o exato oposto do que ocorre à direita. Embalada pelo retorno enfático de Luiz Inácio Lula da Silva, a esquerda não se preocupa em alimentar candidaturas que fujam da garantia petista. Segundo explica a cientista política e professora da UFAL Luciana Santana, existe um diagnóstico dentro da centro-esquerda de que “apenas Lula possui chances efetivas de alcançar vitória.”
Consequentemente, o uso do cabo eleitoral lulista se consolida como a principal estratégia do grupo, o que limita o espaço para o surgimento de novos líderes. Ao tempo que nenhum candidato progressista consegue capilaridade nos índices de intenção de voto, “Lula é um líder carismático, que já tem um percentual de votos que é muito cristalizado”, diz Santana.
A falta de fertilidade é alvo de críticas do próprio campo progressista, que aponta como Lula não representa mais os projetos políticos da esquerda tradicional, mas sim uma adaptação social-democrática.
Mesmo que dentro de conjunturas antônimas, a direita e a esquerda passam pelo mesmo problema estrutural de dependência. Isso faz com que a polarização permaneça nas urnas ainda que sob números diversificados. A dualidade de forças entre Lula e Bolsonaro atrai não apenas os “votos positivos”, mas também os “negativos” — ou seja, a rejeição.
Yuri Sanches afirma que a reprovação por um desses candidatos leva os votantes a optar por uma escolha estratégico em detrimento da própria preferência. “O eleitor pode até preferir um outro candidato, uma alternativa a um dos polos. Mas se há risco real de que o lado que ele rejeita vença a eleição, ele faz um voto um pouco mais pragmático, mais crítico, no lado que tem maior viabilidade de conter o candidato rejeitado”, aponta.
Pulverização não beneficia Lula
O consenso dos especialistas é de que a distribuição de candidaturas mais à direita não configura um cenário positivo para Lula. Ainda que sejam capazes de pulverizar votos no primeiro turno, os postulantes serão um obstáculo em um eventual segundo turno – cenário projetado pelas pesquisas eleitorais.
Uma vez espalhadas no campo da oposição, as candidaturas terão Lula como principal alvo e tendem a harmonizar um coro de críticas nos debates, horários eleitorais, propagandas e discursos. Diferentemente da última eleição, em que os votos arrecadados pela “terceira via” de Simone Tebet (PSB) e Ciro Gomes (PSDB) migraram para Lula, o segundo turno de 2026 representará um desafio para a base governista.
“O esforço de comunicação da base vai ter que ser direto com o eleitor, porque uma costura de aliança, de apoio do primeiro para o segundo turno com alguma dessas candidaturas atuais é praticamente inviável”, finaliza Sanches.