A guerra generalizada imposta no Oriente Médio no último sábado, 28, após ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã deixou a comunidade internacional em alerta. Com mais de 1600 mortos em menos de uma semana, o conflito já é classificado por analistas como “o mais grave desde a Segunda Guerra Mundial”.
“Definitivamente é o conflito mais grave desde a Segunda Guerra Mundial, mas ainda não é a Terceira Guerra Mundial”, disse à IstoÉ o cientista político e escritor Fábio Chap.
A gravidade da situação foi confirmado com o abatimento, em 4 de março, de um navio iraniano por um submarino de guerra americano, investida que não ocorria desde a última Grande Guerra. O vice-ministro do Exterior do Sri Lanka, país mais próximo ao local do afundamento, afirmou que pelo menos 80 pessoas morreram no incidente. Já o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth — que também se autodenomina “secretário de Guerra” — comemorou o afundamento e disse que “como naquela guerra [2ºGM], estamos lutando para vencer”.
A reação da Europa também mensurou a severidade do atual conflito quando o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que o país aumentará seu número de ogivas nucleares e adiantou uma cooperação mais estreita com um grupo de oito países da União Europeia (UE) para proteger o continente.
Por que não é ainda uma ‘Guerra Mundial’?
Segundo o cientista político Fábio Chap, para um conflito receber a alcunha de “Guerra Mundial” é preciso que haja envolvimento de, pelo menos, duas grandes potências. No caso do atual combate, há apenas a presença de uma potência mundial — os Estados Unidos –, o que faz com que o conflito seja estritamente “regional”.
Na conjuntura mais recente, além de EUA, Israel e Irã, a guerra já expandiu-se para mais de 10 nações por meio de ataques retaliatórios e bases militares. O conflito atinge Líbano, Iraque, Jordânia, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Omã e Chipre.
“É um conflito regional de grandes proporções”, sustentou Chap. “Apesar de ser bastante grande, ainda não pode ser chamado de Guerra Mundial porque não tem envolvimento das grandes potências. Se víssemos, no mesmo conflito, a Europa contra a Rússia ou os EUA contra China, poderíamos classificá-lo como mundial. Por enquanto, o que está acontecendo no Irã é uma gigantesca guerra regional“, explicou à IstoÉ.
O especialista ressalta que a falta de distanciamento histórico em relação à guerra atual faz com que sua nominação seja mais difícil. A existência de conflitos paralelos — como a disputa entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022, — cria o receio de que “as guerras se misturem e as potências se envolvam”. “Neste momento, eu ainda não chamo de Terceira Guerra Mundial, mas pode ser que a História chame de Terceira Guerra Mundial.”
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O que torna a situação crítica
A maior preocupação acerca dos conflitos contemporâneos reside na potência destrutiva das armas nucleares. Desde os últimos combates globais, a indústria bélica evoluiu e os arsenais atômicos passaram a representar um trunfo de chantagem e demonstração de força. Os países que detêm ogivas e bombas assinalam vantagem em atritos diplomáticos já que, em último caso, podem apelar para a ameaça física.
“As armas nucleares existem para que o seu governo não caia, pra que o seu estado não seja desfeito, pra que o seu país, o seu território não seja fuzilado, bombardeado pelos inimigos”, ressaltou Fábio Chap.
Os ataques de EUA e Israel contra Irã foram inicialmente justificados como uma forma de prevenir o “programa nuclear iraniano”. Há mais de uma década, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu afirma que o país islâmico está perto de construir uma bomba atômica, mas associações de monitoramento internacional apontam que não há sinais de que o regime dos Aiatolás esteja mantendo arsenal nuclear.
Com a morte do líder Ali Khamenei, autoridades americanas e israelenses passaram a admitir também a intenção de reconduzir o governo iraniano e destituir o regime do Aiatolás. Para Chap, o perigo é que “Israel e EUA não consigam atingir seus objetivos” e invoquem o uso de arsenais nucleares ou ataques por terra.
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Uma coluna de fumaça se eleva após um ataque à capital iraniana, Teerã, em 3 de março de 2026
O cientista político Heni Ozi Cukier, conhecido como ‘professor HOC’, destacou à IstoÉ que outra preocupação está no incentivo à revolta interna no Oriente Médio por meio dos curdos — comunidade étnica considerado uma das maiores “nações sem Estado” do mundo. Nos últimos dias, a CIA (Agência de Inteligência Americana) e forças israelenses passaram a “patrocinar” grupos curdos com armas e investimento financeiro para que eles promovam ataques contra os iranianos. “Isso muda um pouco a equação. Agora o Irã também atacou o Azerbaijão — e uma grande parte da população do Irã é de azeris [grupo étnico túrquico]. Será que o Azerbaijão e os azeris também vão ser armados?”, questiona.
Ambos os analistas entendem que o atual conflito reforça a eficiência da força bruta em detrimento ao Direito Internacional. As negociações diplomáticas e as resoluções da ONU (Organização das Nações Unidas) perderam força, marcando o retorno da “lei do mais forte” ou “lei da selva”, e tornando difícil encerrar atritos por vias pacíficas.
Futuro do conflito e situação dos brasileiros
O cientista político Fábio Chap recomenda que os brasileiros não se alardam ou “percam o sono” por causa do atual conflito. Por mais preocupante que seja, a guerra do Oriente Médio ainda assinala limites geopolíticos e geográficos em relação ao Brasil.
“Não vai virar uma Terceira Guerra Mundial por agora, a guerra está bastante longe da gente”, afirmou Chap. Segundo ele, o consumo de informações pelas redes sociais faz com que tenhamos impressão de proximidade e sentimentos de ansiedade sobre os acontecimentos, mas é importante ponderar os respaldos práticos em relação à América do Sul — continente “com histórico de poucas guerras”.
Heni Ozi Cukier acredita que, paradoxalmente, a situação crítica pode indicar o começo de uma “estabilidade”. Isso porque a atual administração dos Estados Unidos tem demonstrado que não hesitará em entrar em conflitos e bombardear alvos quando for de seu interesse, gerando um efeito dissuasório sobre as outras grandes potências.
Ao observarem que a potência americana está, de fato, disposta a empregar sua força militar, os países tendem a “pensar duas vezes” antes de iniciarem suas próprias ofensivas. “Isso traz estabilidade para o sistema para que ninguém comece a tirar vantagem da força bélica. Essa é uma das explicações para a China não ter sinalizado nenhuma reação após todos esses eventos”, defende Cukier.
* Estagiária sob supervisão