Por que as ações violentas do ICE se concentram em Minnesota

Estado democrata registrou dois assassinatos promovidos por agentes do Serviço de Imigração em menos de um mês

REUTERS/Nathan Howard
Fotos de Renee Good, morta por agentes do ICE, foram espalhadas pelas ruas de Minneapolis. "Assassinada pelo ICE", está escrito na imagem Foto: REUTERS/Nathan Howard

O estado de Minnesota se tornou um ponto de tensão política e social nos Estados Unidos, onde operações federais de imigração ganharam contornos que vão além da fiscalização convencional. Em menos de três semanas, dois cidadãos americanos foram mortos por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) em Minneapolis, cidade mais populosa do estado, gerando uma reação em massa que se junta ao coro de críticas contra a violência policial do governo de Donald Trump.

O intenso foco em Minnesota não ocorre de forma isolada, mas no contexto de uma operação executada pelo Departamento de Segurança Interna, com milhares de prisões e direcionamento de tropas ao local. Especialistas e políticos veem nesse padrão não apenas uma resposta à imigração irregular, mas uma estratégia que pressiona e penaliza governadores e prefeitos democratas enquanto tenta responsabilizá-los pelos confrontos.

Esse dualismo entre a retórica de combate à imigração e a realidade numérica das prisões – que são mais frequentes em estados republicanos e aliados de Trump – levanta uma questão central: por que Minnesota é alvo de uma ação tão letal e midiática? Analistas ouvidos pela IstoÉ sugerem que a resposta passa menos pela geografia ou pela imigração em si, e mais pela dinâmica político-eleitoral em um estado competitivo e resistente ao projeto trumpista.

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Minnesota: um laboratório do ICE

Renee Nicole Good, 37, foi morta em seu carro na primeira semana do ano

O estado de Minnesota – mais especificamente a cidade de Minneapolis – acumula duas mortes causadas pelo ICE em um intervalo de menos de 20 dias. Em 7 de janeiro, a poetisa Renee Good foi assassinada a tiros durante uma abordagem de fiscalização. Ela estava dentro de seu carro quando agentes tentaram abrir a porta do veículo à força e, ao notarem que Renee manobrava para se afastar do local, dispararam contra o banco de motorista.

O assassinato gerou uma reação em massa por todo o país, com protestos contra a truculência do ICE. A indignação, porém, não foi suficiente para impedir violências futuras: em 24 de janeiro, o enfermeiro Alex Pretti também foi morto a tiros durante abordagem da polícia imigratória. Ambos os vitimados eram cidadãos americanos e estavam desarmados.

A retórica da Casa Branca frente às mortes buscou atribuir a culpa pela violência às próprias vítimas. Contrariando vídeos e testemunhas, Trump alegou que tanto Renee Good quando Alex Pretti eram uma ameaça aos agentes – que, por sua vez, teriam agido “em legítima defesa”.

As ocorrências em Minnesota não são por acaso, mas resultado de uma ofensiva direta. Em janeiro de 2026, Minneapolis recebeu cerca de 3.000 agentes federais, numa operação descrita pelo próprio Departamento de Segurança Interna como a maior da história da agência. O contingente federal superou em cinco para um o número de policiais locais. A cidade passou a viver em um estado de ocupação, com prisões em massa, tiroteios, protestos, fechamento de empresas e paralisações trabalhistas.

Vale lembrar que há seis anos, exatamente na cidade de Minneapolis, George Floyd foi asfixiado e assassinado por um policial. O caso gerou comoção global e tornou-se um símbolo da luta antirracista – pauta desprezada e considerada “woke” pelo projeto político de Trump.

Por que Minnesota está na mira da Casa Branca?

Policiais do ICE e outros oficiais federais controlam manifestantes durante operação em uma área residecial de Minneapolis, Minnesota – AFP

Para a cientista política Gisele Agnelli, autora do livro “Democracia Made in USA”, a fixação de Trump com Minnesota não pode ser dissociada da carta enviada pela procuradora-geral Pam Bondi às autoridades locais. Nela, o governo federal oferece retirada do ICE caso o estado aceite três exigências: compartilhar dados de programas sociais, revogar políticas de santuário (que protegem a população imigrante) e permitir acesso do Departamento de Justiça aos registros de eleitores.

O último ponto exigido pela Casa Branca difere-se dos outros pelo teor eleitoral, não administrativo: registros de eleitores funcionam como “infraestrutura crítica da democracia”, explica Agnelli. “Trump nunca escondeu sua obsessão com eleições. Ele declarou publicamente que se arrependeu de não ter ‘tomado’ as máquinas de votação em 2020”.

“O acesso aos ‘voter rolls’ permite construir narrativas de fraude, justificar intervenções federais futuras e pressionar estados decisivos. Minnesota não é um acaso: é competitivo, urbano e politicamente resistente ao trumpismo.”

O estado é atualmente governado pelo democrata Tim Waltz – que concorreu como vice-presidente de Kamala Harris em 2024 – enquanto a cidade de Minneapolis também é comandada por um opositor de Trump, Jacob Frey. Ambos os mandatários direcionaram críticas ao republicano e defenderam o afastamento de agentes do ICE.

Para consagrar Minnesota como “adversário perfeito”, o estado ainda soma uma das maiores concentrações de refugiados somalis dos EUA. O grupo étnico africano é um dos alvos mais recorrentes do novo mandato de Trump, que já chegou a classificá-los como “lixo”. Em relação a outros grupos de imigrantes, porém, o estado assina números abaixo da média.

O professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel concorda que há uma “narrativa política mais agressiva por parte de Trump em estados e cidades que são controladas por democratas”, ancorada na tentativa de vincular os democratas à imigração irregular. Para ele, a realização das eleições de meio de mandato – que definem a composição do Congresso estadunidense – também se mostram como um fator de peso frente à estratégia de imigração, uma das mais caras aos republicanos.

“É preciso pensar que vão acontecer eleições de ‘midterms’ em novembro e que Trump deseja que os republicanos vençam as duas casas [Câmara dos Deputados e Senado]”, pontua Uebel.

Democratas são alvo, mas detenções ocorrem em estados aliados

Como elencado por especialistas, há uma truculência especial por parte do ICE em estados governados por democratas. Numericamente porém, observa-se o oposto: a quantidade de prisões contra imigrantes são significativamente maiores em estados republicanos e aliados a Trump, como Texas e Flórida.

Gisele Agnelli diz que tal indicativo escancara o papel da polícia estadual nas detenções do ICE. Apesar de somarem uma larga comunidade estrangeira, os estados que lideram as prisões durante o segundo mandato de Trump não o fazem apenas por concentração populacional de imigrantes, “mas por colaboração ativa das autoridades estaduais e municipais com o governo federal”.

Segundo levantamento da organização americana Prison Policy Iniciative, quase metade (48%) das prisões feitas pelo ICE ocorre em cadeias locais e outros centros de detenção. Agindo em escala regional, xerifes, policiais, autoridades e até guardas de trânsito de cada estado colaboram com a politica de Trump e atuam contra imigrantes diretamente, sem que forças federais tenham que sair da Casa Branca para capturar estrangeiros.

“Onde há colaboração local, o ICE não precisa se impor pela força ostensiva. Ele opera de forma rotineira, integrada, quase invisível – e exatamente por isso, mais eficiente do ponto de vista repressivo.”, explica a cientista política.

Já os territórios democratas oferecem mais resistência ao projeto trumpista e, por isso, são combatidos com uma narrativa violenta e maior direcionamento de tropas. Além dos casos em Minnesota, investidas do ICE como a “Operação Midway Blitz”, em Illinois, miram estados democratas e capitalizam as detenções de forma mais enfática e midiática. “O padrão é esse: onde há colaboração, há volume; onde há resistência, há espetáculo”, finaliza Agnelli.