Edição nº2606 06/12 Ver edições anteriores

Por mais dias coloridos

Black Friday é uma ótima ideia. Um dia por ano de trégua na guerra entre varejo e consumidores. E para comemorar, lá se vai todo o dinheiro guardado, às vezes ao longo de meses, por causa de uma sacada do marketing de consumo de massa. Um sucesso mundial tão grande que já começam a surgir iniciativas em outros setores para reproduzir a mesma mecânica de sucesso. Afinal, por que restringir as datas coloridas apenas ao consumo?

A receita é bem simples de ser implementada em outras áreas da sociedade. A começar pelo nome: Black Friday. O dia e a cor não têm nenhuma relevância. Importante mesmo é ser um dia do ano em que combinamos quebrar a rotina. No caso da Black Friday, é a ilusão de que podemos gastar o dinheiro que não temos. Algumas dessas iniciativas começam a ganhar tração. Divulgo as principais, para ficarmos atentos. Afinal, para que vinguem é necessária a participação de todos.

Blue Monday

Será na primeira segunda-feira de maio, que é o mês do trabalhador. Nesse dia, você poderá falar o que bem entender para seu chefe ou patrão sem medo de retaliações. Entre na sala dele e solte o verbo. Pode tudo, menos xingar. Ou xingar também, sei lá. Um dia no ano em que você pode colocar para fora o que sempre esteve entalado na garganta, como aquela mania besta que ele tem de trabalhar na sexta após o almoço.

Red Tuesday

Era de se esperar que houvesse reação imediata. Ao serem informados sobre a Blue Monday, sindicatos patronais se apressaram em criar a Terça-Feira Vermelha, que acontece também em maio, no dia seguinte à Segunda-Feira Azul. Os patrões foram tão eficientes que a data está em aprovação no Congresso Nacional para ser celebrada já no próximo ano. Só não explicaram exatamente o que vai acontecer nesse dia. Acho que nem precisam.

Yellow Wednesday

O boato é que esta data foi sugestão do presidente Bolsonaro, em recente reunião com seus ministros. Segundo pude descobrir, vai se tratar de um dia na qual a Constituição ficará suspensa por 24 horas. Nesta ocasião, qualquer projeto virará lei instantaneamente e pronto. Não fui informado sobre a reação dos ministros, mas soube que Olavo de Carvalho, ao tomar conhecimento da iniciativa, ligou ao presidente para tentar suspender temporariamente a Lei da Gravidade. O presidente adorou e incumbiu o ministro astronauta de cuidar da imediata implantação do projeto.

Green Thursday

O Congresso, claro, não poderia ficar de fora. Encontra-se em tramitação a Quinta-Feira Verde, uma data em que todos os processos por corrupção que estiverem em curso seriam arquivados e esquecidos para sempre. Alegam que o projeto visa retirar a carga do Judiciário e acelerar o sistema. O STF adorou. As reações na imprensa foram tão negativas que já é praticamente certa sua aprovação.

Purple Friday

Por falar em STF, a Sexta-Feira Roxa, para surpresa geral, já consta em todos os calendários oficiais de 2020. Foi criada, aprovada e implementada em tempo recorde pelo STF, em uma decisão colegiada e unânime. Nesse dia, a sexta-feira que antecede o recesso do Judiciário, qualquer decisão tomada ao longo do ano poderá ser revista e alterada monocraticamente. É mais ou menos o que já acontece em todos os outros dias do ano, mas agora com nome e cor bonitinhos.

Essas são só algumas ideias. Também é importante saber que vários grupos estão fazendo lobby. Os radicais querem criar o Gold Sunday, domingo em que qualquer presidente poderá ser “impichado” mediante ligações para um serviço 0800. Os fabricantes de armas querem o Silver Saturday para que todos ganhem uma bala de prata para executar quem quiserem, sem consequências. Os mais festeiros querem o White Sunday, onde todo brasileiro poderá dançar pelado nas ruas. Só esqueceram que o Carnaval dura o mês inteiro, coitados.

Em breve surgirá a Segunda Azul, quando poderemos falar o que quisermos para o chefe, a Quarta Amarela sem Constituição e a Quinta Verde para arquivar processos de corrupção contra políticos


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